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A hora do espanto

Publicado por: Felipe Cruz em: 29 Julho 2008

Matéria que escrevi publicada no Jornal da Tarde.

Zé do Caixão, aos 72 anos, lança sua obra mais cara e mais aterrorizante.
“Encarnação do Demônio” requer do espectador um estômago de aço

Terceiro filme da trilogia de Zé do Caixão, “Encarnação do Demônio”, com estréia prevista para 8 de agosto, tem direção, fotografia, trilha sonora e produção dignas dos filmes de horrores mais assustadores já filmados. Fica a sensação de que o diretor José Mojica Marins, 72 anos, se inspirou nas mais bizarras cenas dos atuais arrasa-quarteirões como “O Albergue”, “Jogos Mortais” e “O Chamado”. Marins retruca: “Tenho 50 anos de cinema. Trata-se de uma continuação dos ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’ e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, este último filmado há 42 anos.”

Para desfazer essa sensação, Mojica revelou ontem, após a exibição para a imprensa de “Encarnação do Demônio”, quando foi a primeira vez que viu uma cena realmente aterrorizante, responsável por lhe despertar o interesse pelo horror. A resposta beira ao humor escatológico. “Meu pai trabalhava em um cinema. Quando eu tinha quatro anos entrei na sala de projeção e vi um filme direcionado para mulheres sobre doenças venéreas. A primeira cena que vi na telona foi um órgão sexual feminino tomado pela gonorréia”, diz. “Até hoje tento recriar uma cena tão horrorosa quanto aquela, mas confesso que nunca consegui”, completa.

De fato, da sua cabeça surgem idéias tão assustadoras que um filme como esse não é recomendado para quem tem estômago fraco. “Conversando com Glauber (Rocha) ele me disse que nos meus filmes eu já tinha usado aranhas, ratos e escorpiões, mas nunca uma barata. Desta vez abusamos”, diz Marins, se referindo à cena em que mergulha a cabeça de uma mulher em uma tina com três mil baratas. Detalhe: a atriz é sua esposa, Leny Dark, 23 anos. “Lidar com esses bichinhos é bem difícil. Eles correm e voam para todos os lados.”

O filme começa com Zé do Caixão sendo libertado após 40 anos preso. De volta às ruas, o coveiro está decidido a cumprir a meta que o levou à prisão: encontrar a mulher que possa gerar seu filho. O orçamento da produção foi de R$ 1,8 milhões e tem distribuição da Fox.

Presente na história como o Coronel Claudiomiro Pontes, Jece Valadão, morto em 2006, aparece neste que foi seu último trabalho. Mojica explica que o escolheu porque procurava um antagonista tão forte quanto Zé do Caixão. No enredo, o Coronel tem ódio mortal de Zé por tê-lo cegado no passado. Aliás, o filme é recheado de flashbacks com cenas originais dos primeiros filmes da trilogia, facilitando a compreensão para quem não viu.

“Depois de tantos anos, decidi que este filme seria mais aterrorizante do que todos os que já tinha feito”, lembra Marins para destacar que para os testes de elenco apareceram as pessoas mais bizarras. “Muita gente esquisita e feia. Exatamente o que eu procurava”, diverte-se. As cenas, sem cortes ou efeitos especiais, mostram pessoas sendo suspensas por ganchos fincados na pele, demônios costurando com linha cirúrgica a boca de condenados a ‘danação eterna’ e belas mulheres nuas sendo submetidas as mais nojentas torturas com ratos, aranhas, baratas e muito sangue.

“Encarnação do Demônio” antes mesmo de estrear em circuito comercial, já ganhou seis prêmios no Festival Paulínia de Cinema, entre eles de “Melhor Filme”, “Melhor Fotografia” e “Melhor Trilha Sonora”. “Disputamos com filmes que nada têm a ver com o terror.”

Só não chamem o Zé de ‘trash’
José Mojica Marins criou o Zé do Caixão em 1963 depois de um pesadelo em que ele via uma figura sombria de capa e cartola lhe enterrando vivo. Ao perceber que esta figura era ele mesmo, acordou assustado e começou a escrever o roteiro de “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, filmado em 1964. Nascia aí um personagem tão forte no imaginário brasileiro quanto o Jeca Tatu e mais assustador que os folclóricos Curupira, Mula Sem Cabeça e Saci Pererê.

Para falar sobre o filme, Mojica reuniu ontem no Cine Sesc, na Rua Augusta, parte do elenco e da produção. Entre eles, Milhem Cortaz, que faz o Padre Eugênio, um personagem que busca vingança contra Zé do Caixão por ele ter matado seu pai. “Depois de ter feito este filme, não me sinto mais a mesma pessoa”, diz Milhem.

Ao explicar a demora em filmar o último número da trilogia, 42 anos depois, Marins usou do bom humor. “Primeiro foi a ditadura que queria mudar a história e o título. Depois, outros três produtores tentaram fazer, mas acabaram morrendo”, diz. “Senti novamente minha vitalidade quando estava dirigindo uma das primeiras cenas do filme. Estava lá eu e o Zé Celso Martinez Corrêa em meio a condenados à danação eterna no purgatório.”

No único momento em que Marins perdeu o bom humor e pareceu ficar um pouco irritado foi quando lhe perguntaram se seu filme era trash (lixo). “Nunca digo que meus filmes são trash. É um termo que não gosto. É um filme de baixo orçamento que para mim é uma super produção, posso dizer que o considero a Bíblia do terror da América Latina.” A prinícipio, os planos da Fox é trabalhar o filme no Brasil. “Temos planos para levar o novo filme de ‘Coffin Joe’ para o exterior, mas a prioridade é o Brasil”, diz Tito Liberato, da Fox.

Animado com o sucesso, Marins revelou que seu próximo trabalho se chamará “Devorador de Olhos”. “Trata-se de uma pessoa doente que gosta de arrancar os olhos das mulheres”, diz, para completar logo em seguida: “Eu sigo o caminho de Deus, mas a minha verdadeira religião é o cinema.”

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