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Estação da Luz dominada por trevas

Na história do desenhista Edevilson Guilherme,
inspirada em ‘Fausto’, o local é morada do demônio

Por: Felipe Cruz

Um demônio disfarçado de andarilho mora na torre do relógio da Estação da Luz, em pleno centro de São Paulo. Com ele, o professor universitário Wagner faz um pacto e empenha a própria alma. Livremente inspirado na obra Fausto, de Goethe, o quadrinho Estação Luz – da autoria do desenhista Edevilson Fonseca Guilherme, de 42 anos – retrata a capital paulista. A obra, com 58 páginas, já está quase pronta e deve chegar às bancas em agosto.

“Sempre fui encantado pela arquitetura da estação, uma bela construção perdida no centro decadente da Cidade”, fala o autor. “Quando passava em frente dela imaginava que lá no alto poderia morar um demônio”, imagina. A ideia de transformar essa história em quadrinho já existia há alguns anos e só foi concretizada porque Guilherme venceu um concurso da Secretaria de Estado de Cultura – que premiou os melhores trabalhos com um prêmio de R$25 mil. “Mais de 90% dos meus trabalhos são ambientados em São Paulo. Este não será diferente”, diz.

Pontos como o Bar Brahma, na famosa esquina da Avenida Ipiranga com a São João, as boates superlotadas, o campus universitário e o próprio trânsito da Cidade serão retratados na história. “Trata-se de uma história muito urbana. Tento fazer com que tudo pareça o mais natural possível, em lugares e situações também reais. Não é um quadrinho de super-herói”, explica.

O roteiro conta a história do professor Wagner. Enclausurado entre livros e aulas, ele é atormentado por seu passado, até que encontra o ‘coisa-ruim’ disfarçado de andarilho. Após uma noite de bebedeira, o homem se deixa ludibriar pelas promessas de sucesso fácil e vende sua alma. No dia seguinte, sua vida começa a melhorar e ele passa a ter sucesso com as mulheres sem saber que o preço que terá de pagar será muito alto. “A questão ética é bem forte no texto. O personagem sempre tem a chance de dizer não, mas não consegue”, detalha.

As primeiras páginas do quadrinho são em preto-e-branco e servem como prólogo para explicar as ações do professor. A história do demônio também é contada. “Há 100 anos ele era apenas um ser humano comum, mas também cedeu às tentações de outro demônio e ficou preso neste mundo. Para se abrigar, escolheu a Estação da Luz.”

O autor destaca ainda que não fechou contrato com editoras para a publicação. “Caso não acerte com nenhuma, a tiragem será limitada a mil exemplares e lançada de forma independente. Nosso plano, no entanto, é ter uma tiragem de 30 mil, mas só será possível com a parceria de uma grande editora”, acredita.

Curitibano, radicado há vinte anos em São Paulo, Guilherme é dono da empresa de animação Hiperquímica. O estúdio é especializado em produzir storyboards para o cinema. “Estou com cinco desenhistas e pelo menos oito coloristas trabalhando nesse quadrinho”, revela. Antes de montar a empresa, há cinco anos, o desenhista trabalhou na TV Cultura e participou da produção de filmes como Nina e O Cheiro do Ralo.


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