O Diário de Todos os Dias News

Mulher Filé dá capilé a repórter nerd

Publicado por: Felipe Cruz em: 12 Julho 2009

Clique aqui para ler o texto original da revista.

Com bom humor, sensacionalismo, invenções e vulgaridade,
o Meia Hora resiste às Organizações Globo no Rio

Por ROBERTO KAZ
 
Naquela manhã de outubro, só havia um assunto nas redações das revistas de fofocas, nos estúdios de gravação de novelas e na Dias Ferreira, a rua do Leblon frequentada por celebridades: depois de tomar um tabefe do ator Dado Dolabella numa boate, a modelo Luana Piovani resolvera terminar o namoro com ele.

A notícia já havia sido divulgada em blogs e sites na noite anterior, mas para o Meia Hora, o tablóide carioca que vive de manchetes bem-humoradas e abordagens inusitadas, ainda era a melhor opção para a primeira página do dia seguinte. “Tenho que perfumar as notícias todos os dias”, disse o editor-executivo Henrique Freitas. Era preciso bolar um título que, além de requentar a fofoca, fosse intrigante e fizesse os leitores rirem. A resposta veio em uma mensagem enviada por um dos editores, Humberto Tziolas, que havia passado a noite em claro pensando em uma saída. “Genial. Vou manchetar isso”, disse Freitas ao abrir sua caixa de e-mails. O “isso” em questão era: “Luana não tem mais Dado em casa.”

O que parecia uma solução simples – e genial – deu origem a uma intrincada charada visual. “Como a nossa manchete é sempre em caixa alta”, disse Freitas dias depois, usando a expressão que designa as letras maiúsculas, “as pessoas leriam o verbo dar antes do nome Dado, o que poderia ficar pesado.” Para atenuar a grosseria – e evitar um possível processo – resolveu abrir uma exceção: faria o título em letra minúscula, para que “Dado” pudesse ser lido como nome próprio. O problema, porém, continuava: nem todos entenderiam a piada.

Freitas se lembrou então de uma manchete que vira décadas antes, na primeira encarnação do jornal O Povo, que dizia: “O sonho da casa própria.” No lugar da palavra “casa”, havia o desenho de uma casa. “É isso”, concluiu. No dia seguinte, a manchete do Meia Hora provocava risos nas bancas cariocas: “Depois da briga e da separação. Luana não tem mais [foto de Dado] em casa.”

Lançado em setembro de 2005 com uma tiragem de 50 mil exemplares, o Meia Hora se destacou pelo baixo preço (50 centavos), pela linguagem popularesca – e às vezes francamente vulgar – e pelas manchetes que, independentemente do conteúdo, pendiam para a pilhéria. Calcado no quarteto crime-futebol-mulher-celebridade, dobrou a circulação já no terceiro mês. Atualmente, com tiragem de 230 mil exemplares diários, é o terceiro jornal mais vendido do Rio, atrás do Extra e de O Globo – que contam com a estrutura financeira e de circulação das Organizações Globo, além da propaganda gratuita nas rádios e TVs do grupo no Rio. “Tem dias que chegamos a ficar em primeiro”, contou Henrique Freitas.

“E olha que quase não fazemos promoção. A cereja do nosso bolo é a manchete.”

Quando Ronaldo Fenômeno trocou o futebol carioca pelo paulista, a chamada do Meia Hora foi: “Ronaldo mete bola nas costas do Mengão e fecha com o Corinthians.” Quando Fábio Assunção abandonou a novela das seis para se tratar do vício em drogas, leu-se que o ator daria “um tempo na carreira”. A morte do ex-policial militar Marcelo Silva, ex-marido de Suzana Vieira, devido a uma dose excessiva de cocaína, foi apresentada assim: “Do pó viestes, pelo pó passastes, ao pó retornarás.”

Entre os redatores do jornal, cocaína vira invariavelmente “pó”, tiro é “pipoco”, facção criminosa é “bonde sinistrão”. A polícia, quando invade, “dá sacode”; quando atira, “larga o dedo”; quando prende, “mete em cana”. Bandido escondido “tá malocado”, bandido vivo “toca o terror”, bandido morto “levou ferro”. Ladrão de galinha é “safado” e estuprador é “monstro”. Cadeia fica melhor como “tranca”, “jaula” e “xilindró”. O exterior é “no estrangeiro”. Mulher bonita recebe diversas caracterizações, em boa parte frutais: morango, melancia, jaca.

Alcunhas de criminosos cariocas também são exploradas. O bandido Digato morreu “miando”, Skol da Rocinha desceu “redondo pro inferno” e Batman, “o bandido morcego da milícia”, fugiu voando de Bangu 8. “Uma vez a polícia pegou um traficante chamado John Lennon. A notícia nem era tão importante, mas publicamos só pela graça de dizer que a PM tinha prendido o John Lennon”, contou a subeditora Joana Ribeiro, em sua mesa enfeitada com uma imagem do dragão de São Jorge. Foi o mesmo pensamento que norteou a notícia “Anões dão show de bola. Fugiram da mesa de totó”, para celebrar o sucesso de um time de jogadores de baixa estatura de Belém, no Pará.

No Meia Hora, a crise mundial, as eleições americanas e a invasão do Iraque são assuntos secundários. “É uma coisa muito longe da vida do nosso leitor”, explicou Henrique Freitas. No panorama internacional, a exceção foi o enforcamento de Saddam Hussein, noticiada com o título “Saddam morre com a corda no pescoço”. Não houve espaço na primeira página para a vitória de Barack Obama e (incompreensivelmente) nem para a sapatada do repórter iraquiano no presidente George W. Bush. Perguntado sobre qual seria a manchete do jornal, se num mesmo dia houvesse um ataque terrorista, nos moldes do 11 de Setembro, e uma chacina no Rio de Janeiro, Henrique Freitas respondeu: “Provavelmente daria uma capa dupla.”

O Meia Hora pertence ao grupo O Dia, do qual fazem parte o jornal de mesmo nome, uma rádio FM, um portal na internet, uma agência de notícias e o Instituto Ary Carvalho. Em 1983, Ary Carvalho, que havia dirigido as redações do Última Hora no Rio e em São Paulo, e do Zero Hora em Porto Alegre, comprou o diário, de forma e conteúdo sensacionalistas. Coube a ele mudar o projeto gráfico e editorial para disputar o público de classe média. No auge, no final dos anos 90, O Dia vendeu 900 mil exemplares aos domingos. Hoje, sua tiragem média é de 105 mil exemplares.

Em 2003, com a morte do patriarca Ary de Carvalho, o conglomerado ficou com suas filhas

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