Entrevista que fiz com o músico britânico Boy George para o Jornal da Tarde, em 29/08/2008.
Com visual andrógino, Boy George, se tornou símbolo do público gay
Ex-líder da banda Culture Club, vítima de homofobia, condenado a varrer as ruas de Nova York e ‘traído’ pelos ex-companheiros de banda, Boy George, em entrevista ao JT, por e-mail, não censura perguntas. Um caso raro. O músico inglês estará na Cidade para um show no dia 9 de setembro, no Via Funchal.
No ano passado, ele esteve em São Paulo, mas apenas discotecou na boate Pacha (Vila Leopoldina). De visual andrógino, George se tornou símbolo do público gay em todo o mundo com músicas como Do You Really Want To Hurt Me?, Miss Me Blind e Move Away. O cantor teve recentemente um pedido de visto de entrada nos EUA negado. Ironicamente, seu novo CD traz a música Yes We Can, feita para o candidato à presidência dos EUA, Barack Obama.
Em 2007 você discotecou na boate Pacha, aqui em São Paulo. O que achou da noite paulistana?
Quando você viaja como DJ é realmente difícil ver e conhecer as cidades. Isso porque geralmente tudo acontece tão rápido que só dá tempo para os aeroportos, hotéis e clubes. O que marca são as pessoas e a maneira como você é recebido. No Brasil eu encontrei pessoas agradáveis e fui muito bem recebido. Acho que foi porque as pessoas estavam abertas e afetivas. Imagino que é isso que a gente espera dos povos latinos.
O show que fará aqui no Brasil será diferente dos outros?
Vou apresentar muitas das minhas canções clássicas. Vai ter muito material do Culture Club e algum trabalho solo. Vou cantar algumas novas canções e alguns covers mais incomuns. Fizemos um caldeirão com momentos de glam rock, pop, gospel e jazz. Vamos jogar tudo dentro. Com o show eu quero fazer o público feliz.
Por várias vezes você foi vítima de homofobia. Tem receio de sofrer o mesmo problema por aqui?
Há homofobia em qualquer lugar onde a humanidade está. As pessoas temem o que é estranho a elas. Veja, é preciso dois heterossexuais para criar um homossexual. Os gays também foram criados por pessoas heterossexuais. De um certo modo, todos nós somos iguais e fomos criados juntos. O mais importante disso é aceitar o que você é, e amar você mesmo. Isso vai refletir em como as pessoas o recebem e como o tratam. Se você usar uma camisa que diz: “Eu não sou bom”, o universo vai refletir sempre este avesso negativo de você. Compreenda que a homofobia é o pânico refletido de quem tem medo de ser um.
Tem tido mais prazer em cantar ou em discotecar?
Minha primeira paixão é criar minha própria música. Isso me dá voz e eu tenho coisas que preciso compartilhar com todos os tipos de pessoas para que elas se sintam diferentes. Minha mensagem será sempre muito poderosa para o público gay que vive sob uma ditadura. Muitos latino-americanos estavam presos nesta ditadura quando eu comecei o Culture Club. Há ainda batalhas para serem lutadas em todo o mundo. As pessoas sofrem demais com as desigualdades por causa de preferências sexuais. Ainda sinto que minha mensagem é tão importante como nos anos 80.
Você está gravando um novo álbum com a música ‘Yes We Can’, feita para ajudar Barack Obama. Mesmo sendo inglês, você acha válido entrar na campanha pela presidência americana?
Ele é uma pequena escolha se você o comparar com Bush ou McCain. Eu sinto que sua energia é calma e suas palavras são pensadas. Em algum momento, ele pode ter nos deixado por baixo. Mas agora nós precisamos do otimismo que ele projeta. A música Yes We Can é sobre meus esforços pessoais, mas sou completamente inspirado por aquilo que Obama diz. Ele parece ter uma visão clara, desobstruída e menos agressiva do que os republicanos têm a oferecer.
Muitas músicas suas são interpretadas por outros. Como as cria?
Eu escrevo minhas próprias canções. Nunca escrevo sozinho porque não toco nenhum instrumento, mas crio as melodias, o lirismo e os poemas em minha cabeça. Criar é um processo completamente pessoal para mim e meus artistas favoritos foram sempre aqueles que escreveram de um ponto de vista honesto.
O que pensa do ressurgimento do Culture Club sem você nos vocais? Eles tentaram substitui-lo?
É revoltante porque ficou a impressão de que eles poderiam me substituir, pensaram que eu era um cara que apenas usava maquiagem. Eu sei que há muito mais em mim do que a maneira como me visto. Insultaram nosso legado e fiquei surpreendido porque nunca tentaria recriar a banda sem Jon, Roy ou Mikey.
Você conseguiu superar seus problemas com as drogas?
Eu consegui, e qualquer um também pode. Eu não bebo nem uso mais drogas. Estou muito melhor sem elas. As drogas tiram você da realidade, modifica suas emoções e sua lógica. Podemos olhar para Amy Winehouse e ver como ela parece entediada. Ela está se autodestruindo, mas ainda acredito que ela terá bons momentos. O que importa é que, se ela não parar com as drogas imediatamente, a única coisa que a aguarda é a morte certa.
Em 2006 você foi condenado a varrer as ruas (encontraram drogas em seu apartamento). Concordou com este tipo de sentença?
Punições dificilmente levam à cura. Eu acho que a idéia era me trazer para o mundo real, mas meus pés já estão no chão. Meu crime foi um crime contra mim mesmo. As pessoas com problemas com drogas respondem melhor com compaixão e ajuda. Para mim, foi consideravelmente sem importância fazer um trabalhinho de varrer as ruas. Isso não define quem eu sou ou muda a maneira como eu me sinto com relação a mim mesmo. Foi algo feito para a imprensa ter uma foto de um famoso sem tratamento especial da Justiça. Está feito e eu já esqueci o assunto.
Para quem não se lembra do Culture Club, o vídeo da música Karma Kameleon.
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