Camila Pitanga

Aos 33 anos e uma das estrelas da novela ‘Insensato Coração’, ela diz que nunca sofreu racismo, fala sobre os convites que recebeu para posar nua e cotas raciais

Por: Felipe Branco Cruz

Filha de artistas (a atriz Vera Manhães, 60 anos, e o ator Antonio Pitanga, 71), Camila Pitanga, 33, começou cedo na carreira.  Aos 6 anos, foi figurante no filme Quilombo (1984), de Cacá Diegues.  Aos 16, foi morar na favela Chapéu Mangueira, no Rio, com o pai e a madrasta, a deputada estadual Benedita da Silva, que tinha reduto político no local.  Atuando em novelas desde 1993 – ela estreou em Fera Ferida (Globo) -, um dos seus papéis de destaque foi o da garota de programa Bebel, em Paraíso Tropical (2007), em que fez par romântico com Wagner Moura. Atualmente no ar em Insensato Coração , a atriz falou ao JT sobre adoção, política, cotas raciais e a relação com a filha Antonia, 2 anos, e a enteada, Maria Luiza, 12.  E jogou um balde de água gelada na cabeça dos homens que gostariam de vê-la num ensaio sensual.

Em Insensato Coração, sua personagem não pode engravidar.
Conheço bem o problema.  Tenho uma amiga que passa por isso.  Mas ela deu a volta por cima ao optar por uma adoção.  Uma coisa é a mulher optar por não ter filhos, a outra é a impossibilidade do corpo.  Há mulheres que adotam e até conseguem amamentar.  A criança passa a ser seu filho de fato e o instinto materno aflora. É lindo.  A maternidade não é só de sangue.

Com Lázaro Ramos, você faz o primeiro casal negro de protagonistas em horário nobre. É reflexo da mudança na sociedade?
Encaro com naturalidade.  Não é uma excentricidade. É um espelho do que somos como povo.  Mas o André (personagem de Lázaro) não é exatamente o par da Carol.  Ele é de todas.

Sua personagem é uma mulher bem sucedida, que faz tudo pelo trabalho.  Na sua vida pessoal, você já pensou em largar tudo para cuidar da família?
Quando você está embevecida com seu momento mãe, é comum deixar a carreira, mudar de profissão.  Cheguei a pensar em largar tudo.  Mas esse pensamento passou.  Nunca deixaria de ser atriz. É muito prazeroso ser mãe.  Mas é muito difícil conciliar com o trabalho.

Como sua filha (Antonia, 2 anos), e sua enteada (Maria Luisa, 12), encaram seu trabalho?
Não tenho muita rotina.  A Antonia ainda é muito pequenininha.  Para a Maria Luisa, é natural.  Não tem mistério.  Ela, inclusive, já me acompanhou no trabalho.

Você leva a enteada ao colégio?
Ela vai de ônibus escolar.  Ela estuda numa escola onde tem muitos filhos de atores e pessoas famosas.  Por lá, tudo é natural.  Esse tipo de estranheza, de dizer: “É filho de famoso”, só acontece quando é a primeira vez numa escola nova ou numa aulinha de balé.  Depois, o fato de ser atriz deixa de ser importante e eu acabo criando intimidade com as outras mães.

Voltaria a fazer uma personagem como a Bebel (Paraíso Tropical), que se expunha muito?
Não vejo como um problema a exposição que tive com a personagem.  A imprensa, naquela época, me tratou de forma natural.  Nunca me senti invadida por isso.

Foi nessa época que a Playboy insistiu para você posar nua.
Não foram tantos convites assim.  Nem mesmo na época da Bebel recebi tantas propostas. É clara a minha decisão de não querer.  Isso não está mais em pauta. É definitiva a minha negativa.  Não tenho nenhum interesse em posar nua.

Você trabalha como atriz desde os 6 anos.  Até hoje, nunca se envolveu em escândalo.
Prezo pela minha privacidade.  E me sinto respeitada pelo público nesse sentido.  A imprensa também me respeita.  Tive sorte.

Mas chegou a cometer alguma extravagância na juventude?  Abusou do álcool ou já usou drogas?
De fato, eu nunca fiz nenhuma grande besteira.  Trabalho desde cedo e nunca criei problemas.

Como você vai orientar sua filha e sua enteada sobre as drogas?
Vou lidar com elas da maneira como o meu pai (o ator Antônio Pitanga) fez comigo.  Vou informar, esclarecer, dar limites.

Como foi a influência do seu pai no seu trabalho?
Uma influência radical.  Ele é muito ético, interessado em fazer coisas especiais.  Eu nunca conseguiria fazer o que ele faz.  Ele faz teatro, filme, cuida de ONG.  Não tenho esse talento.  Ele é um paizão e amigo.  Ele influenciou minha vida. É um grande referência.

Seu marido, Cláudio Amaral, que é diretor de arte, encara numa boa os papeis quentes que você já fez na TV?  Não rola um ciúme de ele te ver aos beijos com Lázaro Ramos, por exemplo?
Acho que não.  Ele é esclarecido.  Trabalha com cinema e sabe como as coisas funcionam.  E, mais do que qualquer coisa, ele é seguro da nossa história.  Isso elimina qualquer tipo de preocupação ou ciúme.  O fato de o Cláudio trabalhar com cinema faz com que ele encare tudo com naturalidade.

Quem são seus amigos da TV, gente que você recebe em casa?
Ontem, eu estive com a Leandrinha (Leandra Leal) e a Marixi (Mariana Ximenes).  Elas são boas amigas e ótimas companhias.  Mas também tenho ótimos amigos que não são atores.

Em Cama de Gato (2009), você interpretou uma faxineira. Nessa época, você se vestiu de faxineira e foi a um shopping. Como foi essa experiência?
A proposta era me tornar invisível.  Queríamos saber se era possível.  Ninguém me reconheceu, apesar de eu ter provocado as pessoas para ver se elas me reconheciam.  Uma faxineira me contou que, uma vez, nem a mãe dela a reconheceu no shopping.

Como foi morar na favela de Chapéu Mangueira, no Rio de Janeiro, quando você tinha 16 anos?
Foi especial na minha vida.  Tive contato com a realidade nua e crua.  Conheci um povo solidário.  São pessoas que sofrem por não ter coisas básicas.  Não há um governo ali para estabelecer a cidadania.  As próprias pessoas se organizam e são solidárias.  Conhecer esse universo foi muito bacana.

A ex-governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, é sua madrasta.  Como você define a sua relação com ela?
A Bené é uma pessoa interessantíssima.  Nossa relação é boa, normal.  Ela é uma vó muito coruja, muito presente.  Nossa relação é muito maior nesse aspecto do que em termos políticos.  Com relação a isso, dou total importância em exercer minha cidadania e votar com consciência.

Você votou na Dilma?
No segundo turno, sim.  No primeiro, eu votei na Marina(Silva). Mas não votei na Dilma por causa de uma proposta específica.  Votei pela continuidade do governo Lula. É claro que pesa o fato de ela ser mulher.  Mas se eu fosse radicalmente contra o que ela quer fazer pelo País, eu não votaria nela.

Você defende a cota para negros na universidade. Por que?
É histórica a dívida da sociedade com a raça negra.  Esse é um caminho para um equilíbrio e para que haja a oportunidade de ascensão social.  Nada é maior do que o poder do conhecimento.

Você já sofreu racismo?
Nunca.  E se meus familiares sofreram, nunca me contaram.

E religião?  Acredita em Deus?
Não pratico, mas tenho respeito por todas as religiões.  Sobre acreditar em Deus… não quero ser taxativa.  Não podemos trabalhar a existência de Deus apenas com uma resposta, dizendo “sim” ou “não”.  Não tenho essa resposta.

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