Carlos Alberto di Franco

Se o jornalista não aparece na televisão ninguém o conhece. Se o conhece é porque pesquisou a respeito ou é porque ao pé do ouvido recebeu a dica. Jornalistas conceituados são, no bom português, ilustres desconhecidos do povão. Mas tá certo mesmo. Jornalista apura, escreve, divulga a notícia. Ele nunca pode ser ou participar da notícia. A não ser, é claro, em casos excepcionais.Carlos Alberto di Franco é um desses ilustres desconhecidos. Mesmo sendo articulista do Estado de S.Paulo, mesmo escrevendo livros, fazendo palestras e dando aulas, são poucos o que o conhecem. Depois desta entrevista e das respostas que tive de Carlos Alberto, quem não o conhecia passará a ter a curiosidade de saber quem ele é e o que ele tem para ensinar.

Professor de ética no jornalismo, Di Franco sabe muito bem que ética é inerente do indivíduo, mas ela pode ser ensinada sim, nas faculdades. Cabe a cada um decidir se deve por em prática ou não. Esse e muitos outros assuntos foram abordados nesta entrevista, que você pode ouvir pelo nosso PodCast ou ler a transcrição abaixo.

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Fiz a entrevista por telefone e a serviço do Instituto Millenium. Carlos Alberto di Franco é mestre e doutor em jornalismo, bacharel em Direito e especialista em jornalismo brasileiro e comparado. Atualmente ele ocupa a diretoria do Master de Jornalismo para editores do Centro de Extensão Universitária (CEU) e da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, na Espanha. É também professor de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado e editorialista do jornal “O Estado de S.Paulo” e colunista de diversos jornais brasileiros. É autor de vários livros entre eles “Jornalismo, ética e qualidade” publicado pela Editora Vozes.

Carlos Alberto conversou comigo também sobre a obrigatoriedade do diploma universitário, ensino de ética nas faculdades, classificação indicativa dos programas de tv e também sobre a qualidade do ensino superior no Brasil.

Como professor universitário de ética da comunicação como você classificaria a atuação da imprensa nacional?
A imprensa vem desenvolvendo um papel muito positivo no que diz respeito à purificação dos costumes políticos do país. Eu acho que é uma das poucas vozes da sociedade que tem efetivamente denunciado com consistência e cobrado um comportamento mais ético das autoridades públicas. Eu vejo a imprensa brasileira como uma imprensa bastante qualificada sob esse aspecto. Refiro-me evidentemente ao que podemos chamar de grande imprensa, tanto jornais, revistas e emissoras de televisão dos grandes centros urbanos que são formadores de opinião. Não apenas informam, como formam a opinião. Minha visão é positiva.

Você acha que ética pode ser ensinada na faculdade?
Eu acho que a ética pode ser ensinada na medida em que ela é uma parte da filosofia. A ética é uma ciência do dever ser. Ser é uma ciência que não estuda o comportamento humano como ele efetivamente ocorre e sim como ele deveria ocorrer. Por isso a gente pode tratar até como expressões sinônimas “ética” e “deontologia” – ciência do dever ser. Portanto ela é ensinável. O exercício concreto da ética demanda (e tudo na vida) que não apenas você seja capaz de absorver o conhecimento teórico mas tenha o desejo e a intenção, isto é, o caráter pessoal para praticar a ética. Nos últimos anos sobraram no Brasil passeatas em defesa da ética na política e discursos da importância da ética. Nós estamos no país onde a ética, no campo da política, se prima pela ausência. Há uma separação absoluta entre o discurso teórico e a aplicação prática deste discurso aos casos concretos.

Na sua opinião como você vê o papel da educação superior de hoje na formação de um bom profissional?
Muito importante. A educação é a medula e a essência de um crescimento do país. Não há nenhum país do mundo (que tenha dado um salto sério) que não tenha priorizado a educação. Isso foi na Coréia, um dos exemplos mais emblemáticos. Como a Coréia saltou, do ponto de vista econômico, quando investiu pesadamente em educação. Educação é o que faz que você tenha capacidade de discernimento, que é o que falta hoje no Brasil. A gente assiste uma situação dramática de desgoverno e de absoluto descaso da coisa pública. Ao mesmo tempo em que isso acontece a olhos vistos, não é necessário fazer uma análise aprofundada, basta ver a separação imensa entre os discursos do governo e a realidade prática da execução das políticas públicas para perceber que há um divórcio total entre o discurso e a vida. No entanto o presidente da república tem índices de aprovação impressionantes. O que indica isso? Indica uma lamentável falta de formação educacional. Uma sociedade incapaz de emitir juízo de razão. Uma sociedade que não percebe que o mesmo governo que ela acha horroroso e que ela critica faz parte do presidente. Quer dizer, quem nomeia os ministros é o presidente. O grande responsável é o presidente. Então, essa separação entre o governo e o presidente da república é um entre muitos sintomas de uma enorme crise de educação no país, de capacidade de senso crítico e análise da situação. Eu acho vital. O empenho em educação é a única salvação para o país

Ainda no campo da educação você acha que a iniciativa privada teria um papel importante na educação?
Muito importante. A gente olha hoje para a educação em todos os níveis. E o que é que você vê? Você vê o Estado que deveria ser, e sempre tradicionalmente foi, uma de suas missões fundamentais a educação. O Estado não é para ter fábrica e para ter empresas. O Estado é para prover para o cidadão educação, segurança pública e saúde. Fundamentalmente isso. Esse Estado está falido nas três areas. No campo da educação, basta olhar para as universidades federais. Estão todas penduradas e falidas e em uma situação lamentável sob todos os aspectos. Evidente que uma educação privada é muito importante. É vital em um país como o Brasil. O ensino público não está funcionando. Eu acho que é muito importante a presença da educação privada. Isso do ponto de vista prático, mas também por razões filosóficas. A liberdade de ensino é um elemento importante em uma democracia. Você poder escolher entre formar seus filhos em uma escola pública ou privada é um direito que deve ter qualquer cidadão em uma democracia. Poder escolher e optar pelo ensino público ou privado. Eu acho que é importantíssimo o ensino privado.

Qual é a sua opinião sobre a implantação da TV Estatal?
É mais uma manifestação de tentativa de presença abusiva do governo na área de informação. O governo tentou no Brasil de várias maneiras controlar a liberdade de expressão. Por exemplo, através da hipótese de criação do Conselho Federal de Jornalismo e a tentativa de controlar os meios eletrônicos através do conselho de audiovisual do Ministério da Cultura. Houve vários empenhos do governo neste sentido. Felizmente o Brasil tem instituições democráticas razoavelmente vivas e houve uma pressão da sociedade e da imprensa e o governo recuou. Agora o governo está querendo criar a sua estrutura estatal de comunicação. Ele está querendo criar realmente uma grande máquina de comunicação estatal que em uma democracia não tem o menor sentido. O governo tem instrumentos de sobra para se comunicar. Ele tem a Radiobrás, o presidente da república pode falar em cadeia nacional o dia que quiser, basta solicitar o espaço nas televisões para falar na hora que ele quiser. Existe uma estrutura estatal impressionante. Eu vejo isso de uma maneira muito negativa e muito pessimista. Eu acho que realmente há um empenho do governo em querer utilizar essa estrutura para promoção da sua propaganda.

Como o você vê a aprovação desta portaria 1220 que regulamenta a classificação indicativa a programas de TV? Você acha que pode trazer uma espécie de censura?
Eu acho que o governo recuou. Classificação indicativa não é censura. Eu sou a favor da classificação indicativa. Eu acho que censura é você impedir que o programa saia. Agora você dizer que esse programa deve ser visto as 21 ou 22 horas você não está censurando. Você está dando para a família uma alternativa para que a família possa escolher. É evidente que a televisão veicula determinado tipos de programa, do ponto de vista moral e de violência que não são bons, não são formativos para uma criança. Isso é óbvio, qualquer um percebe, e a psicologia está cansada de estudar os efeitos tendenciosos da violência sobre as crianças e os adolescentes. Então a classificação indicativa, na minha opinião, é positiva, importante e não se confunde com a censura. Censura é impedir a circulação da informação, e você não está impedindo nada. Você simplesmente está normatizando o horário de acesso a esse tipo de programação. Mas mesmo aí o governo recuou e devolveu a bola para as emissoras de televisão. Eu acho que prestam um grande serviço na área de informação mas tem grandes problemas na área de entretenimento. Nós temos uma televisão de qualidade com jornalismo de qualidade, mas uma televisão com muitos problemas na área de espetáculo.

Há um debate entre os jornalistas na questão da obrigatoriedade do diploma universitário para exercer a função. Você é a favor do diploma universitário?
Eu acho que as faculdades de comunicação não são boas. Mas de alguma maneira elas têm cumprido algum papel para dar uma formação básica para quem vai entrar no mercado de trabalho. Eu faria um regime misto. Isto é: um percentual de profissionais de meios de comunicação egressos das faculdades, mas abriria um espaço e um percentual grande para profissionais de outras áreas que queiram atuar na comunicação. E mais: eu teria uma terceira fórmula. Por que não permitir que, ao invés de cursar uma faculdade de comunicação com quatro anos, um egresso de direito, filosofia, história etc, não possa fazer um curso de um ano, um ano e meio no máximo em especialização em jornalismo para ter o diploma, poder atuar e ter aquela formação específica que o jornalismo necessita? Por que fechar o mercado quando você tem filósofos brilhantes, médicos que poderiam dar uma informação boa e precisa no campo da saúde e não podem atuar porque impedidos por um corporativismo muito grande das escolas de comunicação?

Você poderia citar algumas virtudes ou qualidades em um bom jornalista que talvez não possam ser ensinadas na faculdade?
Em primeiro lugar um bom jornalista é alguém com grande paixão pela cultura. E isso a faculdade não ensina. Pode estimular, se você tiver bons professores. Mas eu acho que deve existir a paixão pela cultura, porque um jornalista que não conhece muito bem história, que não tenha um bom conhecimento dos clássicos da literatura, não tem ferramentas de trabalho para exercer sua profissão corretamente. O jornalista que não tenha uma boa formação filosófica, que não saiba quais são as correntes que determinam o pensamento contemporâneo, não tem condições de interpretar os fatos de uma maneira adequada. Um jornalista que não tenha uma formação ética, não apenas a teórica e também a prática, não tem condições de exercer seu trabalho profissional. Eu acho que há pré-requisitos realmente importantes para o exercício. É uma profissão fascinante, mas uma profissão que implica muitos desafios. O jornalismo não é produzir qualquer tipo de produto. Nos produzimos informações, e informação tem conseqüências gravíssimas ou pode ter conseqüências gravíssimas na vida das pessoas, das empresas, da sociedade. Então a formação do jornalista tem que ser uma formação com muito cuidado.

O que você acha dessa explosão de blogs jornalísticos que temos visto na Internet.
A Internet é um espaço democrático de manifestação. Eu vejo isso com uma visão positiva e, ao mesmo tempo, crítica. Positiva porque as pessoas estão atuando mais e também exercendo a cidadania na Internet. Veja bem: na Europa, uma eleição como a da Espanha foi decidida não pela mídia tradicional, quando o então governo espanhol mentiu para a sociedade a respeito dos atentados de Madrid. A sociedade se comunicou através da Internet e do telefone celular. Houve uma espécie de rastilho de contato, sobretudo da juventude, pela internet e pelo telefone celular, que mudaram as eleições. Eu estava na Espanha e, três dias antes da eleição, as pesquisas indicavam um resultado eleitoral determinado. E não deu esse resultado. Ele inverteu totalmente em função da atuação das pessoas na Internet e na comunicação por telefone celular. Então, isso é positivo. Por outro lado, qual é o risco? O risco é uma informação sem nenhuma marca nem credibilidade. Quando você lê Globo, Estado, Folha, existe uma história por trás. Existe alguém que é responsável por aquilo. Existe uma marca jornalística que diz que o que eu estou escrevendo é verdade ou, pelo menos, foi apurado. Mas por trás das informações da Internet, não se sabe. A Internet tem feito coisas boas, mas também tem dado informações absolutamente falsas. Aliás, a Internet é um centro de boatarias permanentes. Você e eu recebemos todos os dias dezenas de informações que não têm fundamento nenhum. Não são nem spams: são informações plantadas, falsas e inventadas. Então isso é um problema importante

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