
Enquanto trabalhava como secretário de Bill Clinton, este homem observou como age um tipo de gente que integra a ‘Super Classe’. Ao JT, ele conta o que é isso
Se você quer testar o caráter de um homem, dê a ele o poder. A frase, dita há quase 200 anos pelo presidente americano Abraham Lincoln, abre o livro Super Classe, do pesquisador americano David Rothkopf, lançado no Brasil pela Editora Agir (R$ 44,90). Rothkopf já foi subsecretário de relações internacionais do presidente Bill Clinton e acompanhou de perto encontros como os do G7 e fóruns econômicos como de Davos. Em muitas ocasiões, o autor questionou se as pessoas sabiam de fato quem dominava o mundo. Então, passou a defender a tese de que dos 6 bilhões de habitantes do planeta, apenas 6 mil (um em um milhão) são responsáveis por influenciar a humanidade. Pelé, Lula e Paulo Coelho estão em uma lista na qual aparecem Bono, Dalai Lama, Osama Bin Laden, Angelina Jolie e Hugo Chávez. O autor acredita que integrantes da Super Classe dialogam entre si e decidem por toda a humanidade. O autor concedeu por e-mail esta entrevista exclusiva ao JT e, entre outras reflexões, disse que Barack Obama é o mais novo integrante do super grupo.
O que é o poder?
Existem muitas definições do que é poder. Eu foquei na habilidade de algumas pessoas em influenciar outras pessoas e eventos. Há muitos tipos de poder: financeiro, militar, social, a força de novas idéias, a história, as tradições e o poder religioso. Poder pode vir de uma posição (ou emprego), da riqueza ou de ações. Certamente, o Presidente dos Estados Unidos, George Bush, ainda é o homem mais poderoso do mundo, embora muito de seu poder já tenha sido transferido informalmente para Barack Obama.
Barack Obama já é um membro da Super Classe?
Sim. Mas não vejo sua eleição como uma virada histórica para os Estados Unidos. Obama representa, de certa forma, uma continuidade. Ele vem do Senado, freqüentou a elite das instituições de ensino, é um produto da qualidade do ‘establishment’ político e cultural.
Ban Ki-Moon, atual Secretário Geral da ONU, não parece ser uma pessoa influente…
Certamente, ele é influente. Mas hoje, as Nações Unidas têm recursos limitados e praticamente nenhum poder coercivo (sem capacidade de usar força eficaz). Seu maior poder é o de ajudar a formar idéias e de convocar os líderes. A ONU é muito fraca enquanto instituição, como as ações do governo Bush demonstraram. Ela precisa ser reforçada.
Como entrar na Super Classe?
Não existe um único caminho para se ingressar na Super Classe. Levando em consideração que a maioria das pessoas do grupo são homens (94%), ajuda se a pessoa for do sexo masculino. A maioria também está em um dos extremos do Atlântico. Portanto, ajuda também ser norte-americano ou europeu. A maioria das pessoas freqüentaram universidades de elite. Uma vez que a maioria são pessoas que vieram do setor privado, há mais chances de se ingressar na Super Classe os mais bem sucedidos nos negócios. Mas, algumas dessas regras estão mudando. Países emergentes da Ásia e de outras partes do mundo estão incluindo mais pessoas na Super Classe. Existe ainda um outro fator: fazem parte da Super Classe também pessoas que trabalharam duro para chegar onde estão e, por isso, têm sua importância reconhecida.
Como é possível incluir na mesma lista figuras tão díspares como o Dalai Lama e o Bin Laden?
Dalai Lama influencia as pessoas por meio da propagação de suas idéias nos meios de comunicação e também por meio das instituições nacionais e religiosas dentro do qual ele tem poder. Bin Laden influencia o mundo por meio de sua organização, a Al Qaeda. Ele modelou suas ações centrado na idéia da Jihad Islâmica. Estas abordagens são diferentes, ainda que tenham feito esses homens capazes de influenciarem o planeta. Minha idéia para escrever o livro surgiu a partir do meu livro anterior Running the World, sobre o modo como a política internacional é feita dentro da Casa Branca. O título é irônico. Eu não acredito que os Estados Unidos controlem o mundo, mas isso me levou a uma série de discussões sobre se as pessoas sabem realmente quem domina o mundo.
Como sentimos a influência dos integrantes da Super Classe?
Sentimos todos os dias. Usando o próprio Bin Laden como exemplo, hoje você não pode mais entrar em um avião sem ser revistado ou passar pelo detector de metais. Por causa dele, enormes recursos globais foram direcionados na intenção de capturá-lo e de derrotar sua organização. Esses recursos poderiam ser direcionados a projetos que poderiam ajudar-nos diretamente. As opiniões e atividades dos integrantes da Super Classe moldam as prioridades e a agendas dos nossos líderes. Além disso, por exemplo, somos levados a acreditar na religião que eles pregam e a ouvir as músicas que eles cantam. Eles modelam nossa concepção de mundo.
Os brasileiros Paulo Coelho, Pelé e o Presidente Lula estão incluídos na Super Classe. O Brasil é um local de onde podem surgir mais integrantes?
Muitos brasileiros estão na Super Classe. Bilionários líderes empresariais brasileiros, cujo valores culturais, musicais, literários ou ainda cinematográficos influenciam milhões no mundo inteiro. Valores esportivos que são idealizados, dirigentes políticos que formam as decisões do Brasil impactam em outros países. Além disso, existem dirigentes de ONGs que defendem posições políticas com ressonância internacional.
Por que você diz que são 6 mil o número de pessoas capazes de influenciar o mundo?
Cheguei a isso olhando o número de políticos, empresários, militares, artistas, religiosos, acadêmicos e outros setores que definem e influenciam milhões de vidas ao redor do mundo de forma regular. Mas o número em absoluto não importa. O que importa é que relativamente poucas pessoas, sejam elas seis mil ou seiscentas mil, tenham tanta influência sobre a vida de outras pessoas na Terra.
Estar na Super Classe faz delas pessoas superiores?
Elas não são superiores, no sentido de terem dons ou capacidades. Elas apenas têm mais poder. No passado, havia elites globais. Mas há 100 anos, eram apenas algumas centenas de pessoas que se encaixavam na definição do poder global usada no livro. As elites do passado também eram diferentes porque tinham herdado o poder, diferente das pessoas que hoje conquistam o poder. Ainda no passado, o poder internacional vinha mais do setor público. Hoje, este poder vem do setor privado.
No livro, você diz que o poder é passageiro. Os membros da Super Classe não se mantém por muito tempo na lista?
O poder é mais passageiro hoje do que foi no passado. Isso se dá porque muitas pessoas poderosas têm poder hoje por conta de estarem associadas a grandes instituições. E seus empregos nessas instituições não são permanentes.
Enquanto trabalhava com Bill Clinton, você freqüentou reuniões nas quais foram tomadas importantes decisões para a humanidade. Existem muitos segredos dessas reuniões?
Todos os encontros e interações entre a Super Classe contém elementos secretos. Podemos entender alguma coisa a partir da observação destas reuniões? A resposta é sim. Ter a oportunidade de observá-los interagindo, vendo como eles usam e se acumulam de poder é muito instrutivo e, em alguma dessas reuniões, temos uma incomum perspectiva de como são as interações deste grupo.
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