Conhecido na imprensa brasileira por tecer ácidas críticas ao governo do presidente Lula, a sociedade brasileira e às tendências políticas em geral, Diogo Mainardi me recebeu em sua casa, em Ipanema, no dia 16 de julho para uma entrevista.O articulista da revista Veja e também apresentador do programa Manhattan Connection, conversou comigo sobre política, governo Lula, e jornalismo. Falou também sobre leis de incentivo a cultura e cinema nacional.Com seu estilo direto, ao longo de sua carreira, Mainardi colecionou vários desafetos, entre eles, fora da esfera política muitos jornalistas que discordam veemente de suas opiniões.Suas opiniões polêmicas sobre os mais variados assuntos já lhe renderam uma série de processos judiciais. A maioria movida por políticos insatisfeitos. Como por exemplo, foi condenado pela justiça a pagar indenização a Jorge Furtado em processo julgado no Rio de Janeiro. Em outra ação, Mainardi foi absolvido, desta vez movida por Henrique Pizzolato, por conta de três artigos publicados em 2004 e 2005.
Se por um lado Mainardi cultiva desafetos, por outro, o colunista ganha também um grande público cativo e vários aliados, com destaque para o jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo.
A entrevista pode ser ouvida no PodCast do DTD News clicando no link abaixo. Confira:
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Você decidiu entrar no debate político depois de constatar a postura da imprensa após a vitória de Lula em 2002. O que mudou na atuação da imprensa brasileira em relação ao governo Lula nos últimos 4 anos?
Eu não decidi: eu fui entrando. Por deboche, no começo, porque eu via uma imprensa muito entregue. Havia uma lacuna. Eu sentia que a imprensa não estava fazendo o próprio papel, que era importunar alguém que obviamente estava contando mentiras atrás de mentiras. Algumas mentiras eram muito flagrantes durante a campanha eleitoral e logo depois de assumir. Achei divertido e engraçado, fazia parte do meu perfil e do perfil da minha coluna tentar desmascarar essas mentiras. Não foi nada muito planejado.
A proposta de classificação indicativa prévia para os programas de TV que o governo pretendia instaurar foi reformulada. Era a Portaria 264 e agora recebeu o nome de Portaria 1220. Você acha que ela reduz a possibilidade de interferência do governo na liberdade de expressão?
Reduz sensivelmente. Tem até a cláusula Mainardi, do Parágrafo 2º, no Artigo 5º. Eles acrescentaram uma frase por conta de uma observação que eu fiz na coluna. Ela criava uma brecha para a censura dos telejornais. Agora ela não abre mais essa brecha. Eu fui o único a notar. Tenho orgulho disso, porque eles foram obrigados a acrescentar uma frase excluindo literalmente do texto os telejornais e noticiosos. Eles explicitaram essa exclusão. Para uma lei ruim – e ela continua sendo ruim – ela está menos perigosa do que era: um instrumento para cercear a televisão. Hoje em dia, eles terão um pouco mais de trabalho para cercear. Eles podem contar com o Ministério Público.
Ainda assim, corre o risco de ter algum tipo…
Sempre existe o risco. Sempre existem os instrumentos legais para importunar e amolar. No meu caso, por exemplo, eles usaram processo [judicial]. Usaram também pressão econômica sobre os veículos que não são alinhados com o governo. Eles cortaram toda a publicidade estatal. O governo é o maior anunciante do Brasil. Eles têm um poder. Devem ter pedido a minha “cabeça” mais de uma vez também. Não levaram e não vão levar.
Você já mencionou em uma de suas colunas a tática de alguns personagens acusados de cometer atos ilícitos, principalmente na política, de intimidar a imprensa, por meio de processos judiciais e solicitar “cabeças” nas redações sob ameaça de corte da verba publicitária. Você já sofreu esse tipo de ameaça?
Sofri ameaça explícita como processos judiciais e uma ameaça velada de morte do jornal “A Hora do Povo”. O reflexo sobre o faturamento publicitário da Veja é claro. Eu não tenho informação de dentro da Veja, mas basta folhear a revista para perceber que não tem anúncio publicitário da Petrobrás há dois anos, que é a maior empresa brasileira. E eu acho que ela esta fazendo um serviço para os acionistas dela. A Veja sobrevive muito bem sem essa propaganda mas, certamente, uma empresa cotada na bolsa não pode fazer esse tipo de escolha não-comercial.
Com relação à ameaça velada de morte do Jornal A Hora do Povo, quais providências você tomou?
Eu denunciei a uma delegacia de polícia como uma incitação à violência. A publicação que eles fizeram foi um apelo para que se fizesse algo contra mim.
Você acha que nesse ambiente a maioria dos jornalistas pensa duas vezes antes de publicar algo que possa desagravar o governo ou gerar um processo?
Gerar processos, não! Eles não têm o menor medo de processos porque não escrevem nada que possa ser repreendido. Muito pelo contrário: boa parte da imprensa só fala coisas que o governo quer ouvir.
Você acha que isso pode causar uma autocensura fazendo com que o jornalista desista de escrever algo que possa desagradar o governo?
Antes de pensar em autocensura por medo, eu pensaria por questões ideológicas. Essas existem e são muito fortes.
Na sua opinião, quais as conseqüências que a implantação da TV Estatal poderá ter?
Nenhuma. Só gasto de dinheiro público. Uma enorme quantidade. Eles estão falando em R$350 milhões por ano, mas vai custar mais do que isso. Eles vão tentar veicular propaganda o tempo todo, martelar a propaganda em busca de consenso político e não vão conseguir nada porque são incompetentes e nem vão ter audiência. É desperdício, é jogar dinheiro fora. Eles vão ter o retorno muito caro de conseguir manter mais uma turminha de jornalistas, diretores e cenógrafos da turma deles. Estão comprando quem já foi comprado.
E o que você faria com esse dinheiro?
Qualquer coisa! Distribuir de helicóptero é melhor do que jogar em TV Pública. Todo gasto inútil eu devolveria sob forma de desconto no imposto de renda. Eu diminuiria a cobrança de impostos.
Você acha que a imprensa hoje tem mais dificuldade de trabalhar do que no governo de Fernando Henrique Cardoso?
Não tem mais dificuldade. Teve durante certa parte do primeiro mandado, nos dois, três anos, mas mais por falta de vontade. O trabalho é mais fácil agora porque a corrupção é muito mais flagrante. Os jornais têm de denunciar. Como a corrupção é muito mais óbvia, muito mal feita, deveria facilitar o trabalho dos jornalistas.
Você acha que existe alguma possibilidade de as grandes empresas de comunicação brasileiras se curvarem diante de pressões maiores?
“Se curvarem” parte do princípio que queiram fazer oposição. Não é o que eu tenho visto. Eu acho que boa parte das empresas de comunicação têm interesses, e esses interesses estão sendo correspondidos de maneira satisfatória. Acho que as empresas de comunicação sérias querem fazer jornalismo – e têm de fazer jornalismo. E jornalismo é denunciar o que o governo faz de errado. Quem quer fazer jornalismo, faz jornalismo. Não é uma questão de se curvar. Eu acho que “se curvar” diante do governo não é uma estratégia pré-concebida
Nos últimos dois anos você freqüentemente apresenta fatos e detalhes inéditos sobre os escândalos políticos que, mesmo quando fundamentados, não encontram eco na sociedade (instituições, imprensa e a opinião pública em geral). A que você atribui esse silêncio?
Não foi só em relação ao meu trabalho ou às minhas colunas: nenhuma denúncia chegou a uma conclusão satisfatória. Eu acho que todas, mesmo as que tiveram mais repercussão e mais barulho, foram abafadas e absorvidas. O Brasil está bastante dividido. Quem lê jornal, lê a minha coluna, tem uma compreensão do que aparece na televisão, sentiu e sabe o que é o governo, nem tem a menor dúvida do que é o governo e o comportamento do Lula em particular e toda a laia dele. Sobre isso, as pessoas não têm a menor dúvida. A minha coluna repercutiu entre os meus leitores. Mas eu não sou um publicitário, não sou um político, não vou para o meio da rua com um cartaz querendo convencer ninguém das minhas idéias. Eu publico as minhas idéias. Quem quer ler ou debater o que eu escrevo está livre para fazer isso. Mas eu não saio buscando leitor na rua nem difundindo minhas idéias por aí, com a esperança de que a mentalidade das pessoas possa ser mudada. Não sou um propagandista, não é como eu me coloco. Também nunca busquei a aprovação de ninguém. No início do meu trabalho, na coluna, eu tinha desaprovação absoluta. Não é algo que me preocupasse. No começo da minha cobertura sobre o governo Lula, eu tinha desaprovação total e absoluta. Isso nunca me afetou porque eu não estou em busca de consenso. Eu não sou candidato a vereador.
No Manhattan Connection, do canal por assinatura GNT, você já falou sobre o cheque-educação. Qual é a sua opinião sobre as parcerias público-privadas na educação?
O cheque-educação é uma ótima idéia. É um jeito de economizar dinheiro e melhorar o serviço. Essas são as duas coisas que você tem que perguntar em qualquer política pública: Como economizar? Como melhorar o serviço? Premiar quem faz um bom trabalhar é sine qua non para conseguir algum tipo de resultado em qualquer tipo de política pública. E punir quem não faz um bom trabalho, também. Se as pessoas tiverem a liberdade de escolher melhores escolas para os próprios filhos elas poderão endereçar a alocação de recursos públicos de maneira muito melhor do que qualquer teste como Enade, Provão e esse tipo de coisa. O conjunto dos pais sabe decidir melhor do que o governo.
Você acha que a sociedade deveria exigir uma redução dos impostos, mesmo que isso signifique redução dos gastos sociais do governo?
Imediatamente. Acho que agora existe a possibilidade de torpedear a CPMF. E ela tem que ser perseguida em praça pública. Temos a oportunidade de reduzir a carga fiscal e agora existe essa possibilidade. Não numericamente, mas existe uma possibilidade de bloquear a CPMF jogando com as divisões do governo. Se a oposição não fizer isso, tem que ser punida severamente. Acho que é essencial cortar impostos. Acho que o corte vai reverter em mais benefícios para os pobres do que o dinheiro jogado fora pelo governo.
Em uma declaração ao Jornal do Brasil, você disse o seguinte: “Se tiver escola e dinheiro, pobre se vira para buscar cultura. Se precisar, vai ver filme e comprar disco. Ele já pode ver filme na televisão porque tem gato, não paga conta de luz, não paga TV a cabo. Pobre se vira”. Desta forma, porém, é o contribuinte que acaba bancando essa busca do pobre a cultura. Qual a sua opinião sobre isso (pirataria, direito de propriedade intelectual, direitos autorais)?
Era uma blague. Quem banca a cultura sãoos impostos. No Brasil, toda a cultura é subsidiada e está sujeita, neste caso, à chantagem do governo e custa caríssimo. A gente acabou de ver uma série de reportagem sobre os novos financiamentos da Petrobrás no cinema nacional. É dinheiro jogado fora. Não tem que ser assim. O pobre se vira e o rico se vira. As pessoas devem ter a chance de buscar a cultura, se tiverem necessidade dela. Cada um vai buscar do jeito que puder. Não é só pobre que faz gato: o rico também faz gato e baixa material na Internet. As pessoas devem buscar o acesso à cultura que puderem.
E elas não têm que ter incentivo? Por exemplo: levar teatro e cinema para uma pessoa que mora no alto da favela não é uma forma de levar a cultura até ela?
Que teatro você vai levar? Você vai levar Ibsen [Henrik, dramaturgo norueguês] para a favela? Se ela tiver uma exigência real de cultura, ela vai procurar. Quando eu tive exigência de cultura, fui embora do país. Não é que o Rio de Janeiro e São Paulo não tenham grande acesso à cultura de qualidade, mas você precisando, você vai buscar. Se não precisar, paciência. Dá para viver sem cultura também. Isso não é essencial para ninguém. Mas algumas pessoas sentem necessidade disso. Eu senti e fui buscar.
Você disse outras vezes que não deveria existir nenhum incentivo do governo à cultura. Como você imaginaria uma cultura no Brasil sem interferência estatal, já que você disse que a cultura é 100% subsidiada no Brasil.
Se não existir demanda pela cultura, ela não tem que sobreviver. Dane-se a cultura! Se as pessoas não querem ver filme brasileiro, não vão ver filmes brasileiros. Não há porque existir um cinema brasileiro. Ninguém obriga o Brasil a ter um cinema.
O que você diria para as pessoas que defendem o cinema nacional e acham que é uma maneira de mostrar o Brasil lá fora?
Vai trabalhar na roça! Elas que se virem. Vão arrumar outro trabalho, e não um trabalho subsidiado às custas do Estado!
E o cinema nacional. Você não gosta do cinema nacional?
Não é questão de gostar ou não gostar. Eu não vejo cinema nacional. Eu, como quase todos os brasileiros, não vou a filme nacional. Não tenho a menor necessidade. Se o cinema nacional sumisse amanhã, eu não consideraria nenhum dano. Pelo contrário: a gente economizaria um monte de dinheiro. Os filmes que eu fiz foram bancados por nós [em parceria com seu irmão cineasta Vinícius Mainardi]. A gente achava que tinha que fazer, e fez. Tentamos buscar um esquema industrial. Eram filmes muito baratos que precisavam de uma bilheteria mínima, e a gente sabia que não teria bilheteria grande e nem buscava grande sucesso. Não era o nosso perfil, e não era de nosso interesse. A gente queria fazer o nosso tipo de filme. A idéia era fazer filme muito barato. O primeiro deu certo: a gente conseguiu pagar. O segundo não, por questões industriais. A gente fez o filme antes do tempo. Para fazer a conversão de digital para película, custou caro demais, e aí perdeu a capacidade de auto-financiar.
Uma das críticas feitas ao cinema estrangeiro é que ele apresenta coisas que não são da nossa cultura, por exemplo, guerra, violência, nação militarizada como os Estados Unidos?
Se fosse assim, as pessoas não veriam. Os filmes nacionais falam sobre nossa cultura. Se fosse assim, os brasileiros estariam vendo, mas não querem! Não têm interesse. Se eles não têm interesse nisso daí, simplesmente não vão assistir. Não é cultura brasileira.
Se uma empresa brasileira quiser investir em cultura, você é a favor de leis de incentivo para essa finalidade?
Não. Não sou a favor de leis de incentivo. Eu acho que precisam existir empresas que saibam fazer filmes e obras culturais que dêem retorno financeiro ou de imagem para elas. A partir do momento que a gente conseguir fazer algo que dê um retorno de imagem e financeiro para as empresas, vai ser conveniente. Está cheio de gente que ama teatro, sinfonia e orquestra que pode manter uma orquestra sinfônica por vaidade ou retorno de imagem.
A gente já viu na imprensa a classe teatral e artística defendendo essas leis de incentivo. O que você diria para eles?
É lógico que eles defendem, porque é o dinheiro deles. Eles ganham com isso. Não é surpreendente que eles defendam o próprio bolso. Eles não têm que dar opinião sobre isso. Eles são a parte interessada. É um conflito de interesse enorme. O artista não tem que ficar dando palpite sobre financiamento público, pois ele está recebendo.
No Manhattan Connection do dia 17 de junho, você deixou bem claro que o ideal é “quanto menos governo melhor”. Na sua opinião, quais áreas devem ter a participação do Estado? (Saúde, educação, justiça, segurança, economia). E quanto de participação deve existir, no caso?
Na segurança, sem dúvida nenhuma. Eu acho que é uma função do Estado garantir a segurança para todos os cidadãos. O resto eu acho que pode ser misto. Uma forma de administração mista ou inteiramente privada.
O que você pensa sobre a vaia que Lula recebeu na abertura dos jogos Pan-americanos?
Eu acho que existe uma divisão no país: uma grande fatia da população comprada que apóia Lula e uma minoria que sente algum tipo de aversão ao presidente Lula como nunca houve em relação a nenhum outro governo. E acho que essa minoria está mal representada pelos políticos de oposição e na imprensa. Acho que há uma demanda reprimida por vaias.
Créditos das fotografias: Cris Camargo
A entrevista acima foi feita a serviço do Instituto Millenium
[...] Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui [...]
11 Julho 2008 às 2:06 pm
Esse Diogo Mainardi é uma farça, o cara escreve en uma das maiores e mais lidas revistas do país e, no entanto, diz que não tem a intenção de convenser ninguem de nada, mete o pau no cinema nacional e no entanto fazia cinema nacional, diz que fazia filmes mas não tinha a intenção de que eles fizessem sucesso: “A gente achava que tinha que fazer, e fez.” e ainda: ” a gente sabia que não teria bilheteria grande e nem buscava grande sucesso.”…aham, e eu sou a Fada Sininho. Tenha santa paciência. Todos os caracteres da auto promoção e da vaidade pseudo-intelectual estão presentes na figura de Diogo Mainardi, é um vaga-lume carregando uma melância, ou tentando carregar. Diogo, vai trabalhar na Roça cara!!!!