Fernando Faro

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Sergipano, ele garante que a tranqüilidade nordestina favoreceu sua formação cultural e expõe memórias sobre a história da MPB, adquiridas em mais de 50 anos de carreira.

Fernando Faro, 80 anos, ainda fica corado quando é chamado de “maior arquivo vivo da música brasileira” por amigos como Rolando Boldrin.  Com mais de 50 anos dedicados ao jornalismo e à cultura, ele criou e dirigiu shows e programas de TV de figurões como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa.  E ainda reuniu no mesmo palco os personagens que entrariam para a história com a Tropicália.

Com 1,65m, o comunicador é também conhecido por ‘Baixo’, apelido que ganhou de Cassiano Gabus Mendes e que carrega até hoje.  Com fala pausada e lenta, ‘Baixo’ recebeu a reportagem do JT na sede da emissora e lembrou da época em que fazia produções de vanguarda em plena ditadura.  Comentou os 40 anos do Movimento Estudantil de 1968 (caracterizado por ações de resistência contra a repressão policial e militar no País) e se surpreendeu ao lembrar que a bossa nova completa 50 anos neste ano.  Da época, carrega um arrependimento: “Não deveria ter apagado as edições anteriores do Divino Maravilhoso, mas precisava proteger os meninos da ditadura.”

O Movimento de 1968 completa 40 anos.  O senhor reuniu naquele ano, no programa Divino Maravilhoso, personagens como Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa, Mutantes, Jorge Benjor e Tom Zé, que mais tarde lançariam a ‘Tropicália’.  Como foi isso?
Esse período foi muito gratificante.  Primeiro, fiz o programa Poder Jovem, em que o forte era a MPB, acompanhada de algumas ‘loucuras’.  Era feito com estudantes que contavam coisas.  Lembro-me de uma historinha deles dizendo que eram autodidatas, assim como o líder chinês Mao Tsé-tung.  Por causa disso, um general me convidou a explicar por que estava divulgando coisas comunistas.

Como foi participar ativamente de uma geração tão criativa?
Todos eles eram muito ligados, muito amigos uns dos outros.  Fiquei amigo de todos, inclusive do mais arredio deles, o Jorge Ben.  Anos depois, no programa Feira Permanente da Música Popular Brasileira, Jorge e Toquinho lançaram a música Que Maravilha e Paulinho da Viola lançou as músicas Nada de Novo e Foi um Rio que Passou em Minha Vida.

O senhor começou a fazer TV em 58 e em 64 veio o golpe.  Como foi produzir MPB e fazer programas com conceitos que iam de encontro com a ditadura?
Freqüentei muito a Polícia Federal. Lembro de uma história engraçadíssima. Transmiti no Móbile uma cena em que jogávamos sal em uma água-viva e ela se dissolvia, virando água.  Eu fiz isso sem som algum ou fala; só a imagem. O general me chamou e disse: ‘nós conhecemos você, estava querendo dizer que a água-viva é o povo e o sal é a ditadura’. Ri da interpretação e respondi ‘é, pode ser uma idéia, mas não tinha pensado nisso’.

Não sobrou algum episódio do programa Móbile?
Não. Logo depois que o programa ia ao ar, eu apagava.  Sabe por quê?  Mesmo sem querer, inconscientemente, você acaba repetindo uma coisa ou outra e não queria isso.

O senhor se arrepende de ter apagado o material?
Sim, me arrependi também quando apaguei o material do programa Divino Maravilhoso, com as coisas do Caetano, do Gil e da Gal.  Destruí tudo.  Pensei que o exército poderia usar contra os meninos.  Pensei mal.  Devia ter levado para casa. Apaguei cenas como as de Orlando Silva cantando a música Faceira. Durante o programa, o Caetano pediu para ele tocar mais. Até que alguém da platéia levantou e gritou ‘pára, ninguém agüenta mais’. E o Caetano respondeu: ‘quem foi o idiota que gritou?  Segurança, tira esse idiota daqui.’

Poderia ter escondido as fitas em uma parede falsa, como aquelas para se esconder armas…
Pois é.  O conteúdo era tão incendiário quanto as armas.  Bate esse arrependimento mesmo.  Quero escrever um livro para relatar tudo. O título será Um Ramo Dourado.

Como é chegar aos 80 anos com tanto vigor para continuar dirigindo e planejando escrever livros?
Fazer isso é fácil, mas tem coisas que os anos não deixam, como, por exemplo, jogar bola.  Tem dois anos que não jogo mais.

Só dois anos?
O último jogo foi contra o Politeama (time de futebol organizado por Chico Buarque, que o cantor brinca dizendo que ‘foi promovido a time de seres humanos’) há uns dois anos e deu uma confusão danada.  O juiz que o Chico arrumou era da turma dele. Foi aquele bate-boca.

Como começou o bate-bola com os ‘grandes jogadores da música brasileira’?
Foi no começo da carreira do Chico, no final da década de 60.  Ele foi à minha casa, na Rua Antônio Bento, e lá alguém pegou um maço de cigarro vazio e deu uma chaleira (drible de futebol).  Aí, inventamos de fazer uma pelada. Lá pelas 23h fomos para a Avenida Brasil, na casa do Alberto Helena Junior. Arrumamos uma bolinha e montamos o time.  Jogamos na rua, em uma travessa da Brasil.  Daí veio o fusquinha da polícia.  O Chico foi conversar com eles e retomamos o jogo.  Houve disputas entre Politeama e o time que eu jogava, o Namorados da Noite (time de Toquinho).

Qual das duas equipes ganhou mais jogos?
O Namorados, claro.  Chico conta em todas as entrevistas que o time dele já teve mais de dois mil jogos oficiais e que nunca perdeu. Não é verdade.

Em 1971, o senhor fez o programa ‘Chega de Saudade’, com João Gilberto.  Em 2008, a bossa nova completa 50 anos…
João é um gênio.  Pedi para ele cantar a música Triste no programa e ele cantou por meia hora.  Depois, disse: ‘a versão boa é aquela do meio’.  E agora?  Como descobrir qual era?  Ele tocava todas perfeitas. No programa, eu o coloquei jogando pingue-pongue.  Do outro lado, estava Walter Silva, o ‘pica-pau’. João levantou e Walter deu uma cortada violentíssima que quebrou a bolinha chinesa. Levei uma bolinha nova, dizendo que era japonesa e mais resistente.  João bateu a bolinha na mesa e disse: ‘essa não é japonesa, a japonesa faz ‘toc-toc’. Essa também é chinesa’. Quer dizer, ele diferenciava o som de uma bolinha de pingue-pongue da outra.

O senhor ainda tem contato com João Gilberto? Qual foi a última vez em que se falaram?
Há um mês mais ou menos. Ia fazer um programa com ele, mas ele vai viajar para o Japão. Você tem certeza de que está certo esse número, 50 anos?

Sim.
João é a grande figura da bossa nova. João não é aquela batidinha de violão, aquela levada. É toda uma idéia musical. Então, quando ele pega aquela música antiga e toca, recria.  Tudo que faz é samba. É um gênio.

Tem alguma música que o senhor não gosta de ouvir?
Gosto de tudo. Por exemplo, no Ensaio, cabe todo tipo de música: rap,bolero, tudo. É um horizonte amplo. Particularmente, não gosto muito do rap. Prefiro os cantadores nordestinos. A literatura oral está com eles, são abençoados pelo (Antônio) Conselheiro, o pessoal de Canudos.

O senhor é sergipano e do Nordeste vieram grandes nomes do jornalismo, como Joel Silveira, Antonio Maria, Geneton Moraes Neto, Assis Chateaubriand. É apenas uma coincidência?
Lá você tem tempo de ler e de reler. Não é como a correria daqui. Quando eu saí de Laranjeiras, já tinha lido tudo de José de Alencar e Aluízio de Azevedo.  O meu interesse pelo jornalismo vem da minha proximidade com as letras.

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