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Geneton Moraes Neto

geneton_jornalismo2.jpgEntrevistei Joel Silveira– o maior repórter brasileiro – pouco antes de ele morrer. Na ocasião ele elegeu um sucessor: Geneton Moraes Neto. Joel me disse: “Para mim, hoje ele é o maior repórter do Brasil”. Resolvi, então, procurar o Geneton para um bate-papo e como sou jornalista “foca”, gostaria de ouvir o que ele tem para contar e ensinar. A entrevista foi realizada na redação do Fantástico, na sede de jornalismo da Globo, no Jardim Botânico.

E lá fomos nós, eu e a Cris Camargo (que fez as fotos e transcreveu a entrevista). Ao entrar na sala, Geneton rindo e conversando sobre a rotina da redação, cuidadosamente organizou as edições dos jornais do dia espalhadas pela mesa e, estrategicamente, deixou a edição do O Globo por cima das edições da Folha de S.Paulo e do Estadão.

A entrevista transcorria muito bem quando o repórter Vinicius Donola, entra na sala e interrompe a entrevista. Donola entrega para Geneton uma cartinha, escrita com letra de criança e em papel amassado. Ele disse que havia encontrada a cartinha perdida na gaveta de casa. Dizia assim: “Mamãe, quando eu crescer, eu quero ser igual ao Geneton. Assinado Vinicius. Data: 1979”. Geneton leu e riu da brincadeira e comentou que esta era uma brincadeira comum que ambos faziam um com o outro. Carinhosamente dobrou o bilhetinho e guardou no bolso.

O bate-papo rendeu três horas e meia. Seria impossível transcrever toda essa entrevista. O material é resultado dessas horas. Ele foi resumido e foi dividido em quatro temas: Jornalismo, Política, Joel Silveira e Curiosidades

GENETON: “SEM REPÓRTER NÃO EXISTE NOTÍCIA”

Pernambucano, nascido em Recife, Geneton começou a vida profissional como repórter, em 1972. Trabalha desde 1985 na Rede Globo, onde é o editor-chefe do Fantástico. Publicou oito livros de reportagens e entrevistas, entre eles: “Dossiê Brasília – Os segredos dos presidentes”, “Dossiê Moscou” e “Dossiê Drummond”. Geneton dedica também algumas horas do dia para atualizar seu blog Sopa de Tamanco e sua home page: http://www.geneton.com.br/

Primeira parte: JORNALISMO

Você afirma que a “única função realmente importante no jornalismo” é a reportagem. Por quê?

Geneton - Posso dar uma explicação pessoal e outra profissional. A pessoal é a seguinte: acho que as funções que a gente exerce no início da carreira terminam marcando a gente para o resto da vida. Eu comecei a trabalhar como repórter no Diário de Pernambuco, em 1972. Então, para mim, reportagem virou sinônimo de jornalismo. Sempre foi o fato de ir para a rua ouvir alguém ou ver alguma coisa e tentar escrever da melhor maneira possível. Em resumo, esta é a minha concepção de exercício do jornalismo. Também acho que a sorte que eu tive de conviver com grandes repórteres como Joel Silveira – que, aliás, dizia que se houvesse justiça na hierarquia interna dos jornais o repórter deveria vir antes do dono do jornal no expediente, porque sem repórter não existe notícia e, sem notícia não existe jornal. Para mim é uma questão de vocação e também uma questão biográfica o fato de ter iniciado meu trabalho com a reportagem e, desde então, passei a entender jornalismo como um sinônimo de reportagem.

O relatório anual divulgado pela organização Repórteres sem Fronteiras coloca o Brasil, no ranking da Liberdade de Imprensa na 75º posição, atrás de países como Burkina Faso e Botswana. Você acha que fazer jornalismo no Brasil é difícil? Aproveito para destacar que nem os Estados Unidos ficaram em boa colocação, ocupando a 56º colocação.

G - Eu acredito que essa posição desastrosa do Brasil se deva a casos de pressões exercidas, por exemplo, em jornais do interior pelo poder local, e esse é um fenômeno que existe até hoje no Brasil. Mas eu acho que a grande imprensa brasileira já ficou imune a esse tipo de pressão e de violência. Como o Brasil consegue ser vários países em um só – aqui a gente tem, por exemplo, a Quinta Avenida e o país mais atrasado da África num só país – faz com que essas disparidades possam ser explicadas pela subsistência deste Brasil arcaico e velho. Aliás, isso é uma boa pauta jornalística. Já pensei até em fazer isso da seguinte maneira: uma viagem pelo tempo no mapa do Brasil. Se você vai a um shopping nos Jardins, você está no século 22; mas, ao mesmo tempo, se pegar um avião e viajar por duas horas, poderá voltar para a Idade Média – e em outros lugares, até para a Idade da Pedra. Tudo num país só. Acho que daria um belo projeto jornalístico. Portanto, eu atribuo essa posição à resistência desse Brasil arcaico que envolve pressões contra jornalistas.

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A censura foi oficialmente extinta no Brasil. Isso é fato. Entretanto, hoje regularmente jornalistas são processados por pessoas insatisfeitas com as reportagens. No dia a dia das redações existem mecanismos de pressão que podem determinar a divulgação ou não de determinados fatos, e que inclusive são usados para pedir a demissão de jornalistas. Como lidar com isso?

G - Vou dizer uma coisa politicamente incorreta: em última instância, quem manda no jornal, na televisão ou na revista são, obviamente, os donos. Mas o poder dos jornalistas na redação não é desprezível, não. Alguns jornalistas talvez fiquem irritados quando se fala desse poder – em alguns casos quase tirânico – exercido pelos jornalistas dentro da redação sobre os assuntos que devem ou não ser oferecidos ao público. Isso vai desde as coisas mais banais até as mais importantes como, por exemplo: se o editor-chefe do Globo achar que Caetano Veloso é antipático provavelmente não vai publicar uma matéria. O que eu estou dizendo parece um absurdo, mas uma entrevista com Caetano Veloso provavelmente será vetada na capa do caderno cultural, nesse caso, por uma implicância pessoal. E isso você multiplica por dez.

Acho que as idiossincrasias pessoais dos jornalistas influenciam, e muito, na escolha do que vai ser dito ao público e de que maneira. Uma coisa que eu sempre tentei me proteger – e modéstia à parte, acho que consegui até hoje, depois de 35 anos de exercício de profissão – é, sob hipótese alguma, não deixar que gosto pessoal e, principalmente, tendência ideológica influenciem na escolha e na apresentação das notícias ao público. Eu tenho horror à manipulação política das coisas. Claro que a censura, durante o governo militar, cometeu violências inomináveis contra a atividade intelectual – e não estou nem falando aqui dos casos de tortura e assassinato como no caso de Vladimir Herzog, e sim da violência intelectual das pessoas. E acho que os jornalistas também cometem uma violência intelectual quando se deixam levar por suas preferências ideológicas. Sinto muito, mas é verdade.

E agora falando como leitor: hoje, mesmo 22 anos após o final do regime militar, acho que ainda subsistem algumas heranças nocivas da ditadura no Brasil. Por exemplo: um antiamericanismo em alguns casos quase infantilóide e uma hostilidade contra a riqueza. Acho que existe isso e, em alguns casos, por parte de jornalistas que se comportam como se o muro de Berlim ainda não tivesse acabado. Eu sinto muito, mas o muro de Berlim caiu! (risos) É engraçada essa imagem meio romântica do jornalismo, de que a gente está sempre vendo grandes acontecimentos, mas as cenas realmente inesquecíveis são raras. O dia-a-dia na redação às vezes é chato. Você pode ser obrigado a cobrir o turfe, por exemplo, que é uma coisa insuportável (risos). Mas me lembro de uma cena inesquecível e que foi histórica, já que a gente está falando sobre mudança de eras: ver o Mikhail Gorbachev entrar em uma sala para votar, no dia em que houve a primeira eleição para presidente na Rússia depois do fim da União Soviética, em 1996.

Isso inclusive está no livro que você lançou, “Dossiê Moscou”…

G - Quando eu faço qualquer coisa, tenho a saudável pretensão de produzir informação a curto prazo e memória a longo prazo. Eu acho que cada um precisa criar – e vou dizer aqui algo que vai soar como livro de auto-ajuda – uma lenda pessoal. A mitologia que criei para mim, como jornalista, é esta pretensão de produzir coisas que possam criar memória; que possam ser consultadas a longo prazo. Foi o que eu fiz com “Dossiê Moscou”. Tudo isso para dizer o seguinte: que ali, pela primeira vez na história, havia um ex-líder soviético participando de uma eleição direta para presidente.

E ele nem ganhou…

G - A performance dele foi péssima. Mas aquele foi um momento simbólico de mudança. E aqui no Brasil, em alguns momentos, parece que o muro de Berlim não caiu ainda. Você vê esse sentimento infantil de hostilidade gratuita contra tudo o que for ocidental, americano, europeu… Isso eu acho um absurdo, e o jornalista não deve se deixar contaminar por esta doença infantil.

A cada dia os conglomerados de comunicação crescem cada vez mais. Cito, por exemplo, o caso do tradicional periódico Wall Street Journal, vendido ao magnata Rupert Murdoch. Ele domina boa parte dos veículos de comunicação do mundo. Os repórteres do WSJ, inclusive, disseram em uma matéria publicada pela AFP que temem em perder a isenção com a venda para Murdoch. Como fazer um bom jornalismo hoje em dia quando os donos dos meios de comunicação pensam empresarialmente em detrimento do bom jornalismo?

G - Eu não acho que necessariamente seja em detrimento de um bom jornalismo. A discussão que o Wall Street Journal fez sobre a venda do próprio jornal foi até um sintoma invejável de liberdade editorial, ao levantarem dúvidas sobre se o jornal continuaria isento. Mas hoje a impressão que a gente tem é de estar no meio de uma revolução tecnológica, uma revolução da informação que a gente ainda não tem idéia de onde vai parar. Então, o que é que aconteceu hoje? Os modelos, por exemplo, de rede de televisão – aquela única emissora emitindo a mesma programação para milhões de pessoas ao mesmo tempo – são modelos que estão começando a acabar. Hoje a geração mais nova, por exemplo, vê televisão via internet, e a tendência é cada vez mais o leitor ou o telespectador é ler e/ou ver o que quiser, a hora que quiser. É uma mudança drástica neste modelo que existia antigamente.

E existe principalmente um outro fenômeno: qualquer pessoa hoje – e nem precisa ser jornalista – pode ser um emissor de informação. Acho que isso dessacralizou completamente o jornalismo. Qualquer pessoa que abrir um blog agora, ou daqui a 15 minutos, e colocar lá uma notícia verdadeira ou falsa, ela poderá ser consultada daqui a 5 minutos em Hong Kong. E se caiu na rede, vai ser consultado via Google. Isso quebra totalmente a hierarquia tradicional da informação e, principalmente, dessacraliza o trabalho do jornalista. A impressão que a gente tem, às vezes, é a de estar a bordo de um Titanic que representa esse modelo antigo – empresarial, inclusive – que começou a naufragar e a gente não sabe como vai terminar esse naufrágio. Por enquanto a banda continua tocando – a orquestra, como no Titanic – , e a gente não sabe para onde esse naufrágio pode nos levar. Pode até ter uma conseqüência boa, né? Mas o fato é que hoje já existe uma revolução drástica em andamento no modelo de oferta de informação ao público.

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Existe alguma reportagem que você tenha feito que por algum motivo não tenha sido publicada? Existe alguma reportagem que você gostaria de ter feito e não fez?

G - Sempre tem. Eu digo, brincando, que um dos riscos que o jornalista corre depois de um certo tempo de exercício na profissão é o seguinte: de tanto lidar com o extraordinário, com o incomum, ele corre o risco de um dia cair na tentação de achar que nada é notícia; que nada mais é incomum ou extraordinário e nada interessa. Já virou até folclore nas redações a figura do “derrubador de matérias”. Acho um absurdo aquele dinossauro que passa o resto da vida bombardeando o que os repórteres fazem. Coitados! Os repórteres chegam da rua com o entusiasmo da notícia e tem sempre um jornalista entediado que vai dizer que aquilo não é notícia porque já saiu em outro lugar.

Tento criar uma proteção em torno de mim para não ser contaminado por essa doença que eu até batizei, brincando, de “síndrome da frigidez editorial” porque é uma coisa que acomete os jornalistas antigos. Acho que vou até registrar essa doença na Organização Mundial de Saúde para ser catalogada (risos). Porque isso existe, mesmo. Não é exagero não. E eu cansei de ver um outro pecado de jornalista: o que faz jornal, programa de TV e programa de rádio para jornalista. É um dos pecados mortais da profissão. Você participar de uma reunião de pauta, um repórter sugerir um assunto obviamente interessante e aparece alguém e diz “ah, não vamos fazer essa matéria porque o Caderno 2 do jornal lá do interior publicou dez linhas sobre isso”. Então derruba um assunto. O jornalista parte do pressuposto absurdo de que o leitor é tão fanático quanto ele e vai ler todos os jornais e revistas e comparar um com o outro. Isso é uma idiotice! Quem pensa deste jeito, eu acho que, sinceramente, devia mudar de profissão e estudar para Arquitetura ou Medicina. Existem profissões que são muito mais úteis para a humanidade do que o jornalismo – eu reconheço isso. Às vezes fico pensando: “meu Deus, a esta altura é tarde para fazer outra coisa”, mas quando você compara o jornalismo com outras profissões, às vezes me dá um certo complexo de inferioridade, porque existem profissões mais úteis.

Mas dificilmente haverá profissões tão divertidas quanto o jornalismo porque, na prática, às vezes quando me vejo diante de uma personalidade, sei que jamais teria a chance de entrevistá-lo, ou de ver uma cena histórica como a do Gorbachev, ou entrar num presídio de segurança máxima nos EUA, como já entrei, ou entrevistar um astronauta que já pisou na lua, se não estivesse exercendo o jornalismo. Alguém já disse que jornalista é um especialista em generalidades – sabe um pouco sobre tudo mas não sabe profundamente sobre nada. É isso: eu acho que é um “curso” divertido de generalidades, onde você é seu próprio professor.

Qual seria a grande virtude de um bom jornalista?

G - Eu acho que a primeiríssima é não perder a capacidade de se espantar diante dos fatos, e não se deixar contaminar pelo tédio e pela tal “frigidez editorial”. Eu tento manter a primeira; essa capacidade de se espantar, de ver as coisas com os olhos de uma criança descobrindo as coisas pela primeira vez. As coisas que você vê, com certeza serão novidade para alguém que vai ler aquilo. O importante é o jornalista não brigar com a notícia. Tratar a notícia com reverência. Isso é uma das dez mil lições que aprendi na convivência com Joel [Silveira]. É como um crente a entrar no Vaticano. Você se sentir pequeno, olhar para o teto do Vaticano e se sentir minúsculo. É meio como a atitude do repórter diante da notícia: não brigar com ela, mas reverenciá-la, de preferência.

Baseado em sua experiência jornalística na grande imprensa, que dicas você daria para quem está ingressando agora no jornalismo?

geneton_politica1.jpgG - Dificilmente haverá outra profissão em que exista tanto sentimento e que você passe com tanta rapidez da euforia ao desânimo, em tão pouco tempo. Num dia você diz “estou fazendo a melhor profissão do mundo” e, no dia seguinte, você pergunta “meu Deus do céu, por que eu não fui fazer outra coisa?” (risos). É muito fugaz essa coisa do jornalismo. Aquela “glória”, entre aspas, do jornalismo dura minutos. Se durar um dia você já pode acender uma vela (risos). Aquele furo de reportagem que você pensa que vai mudar o mundo, derrubar um papa, um presidente da República, aquilo tudo desaparece em 15 segundos. Televisão, então, é o tempo da pessoa comer uma pizza, ir à cozinha beber água, e o trabalho que você demorou, às vezes, semanas para fazer, literalmente se evapora no ar.

Então acho que você tem de resistir a esse sentimento de, às vezes, inutilidade, e não se deixar contaminar por ele. E, principalmente, manter a curiosidade. Isso parece óbvio, mas existem jornalistas que não são curiosos, que parecem meio entediados, não querem saber, não se interessam, se previnem contra a riqueza dos assuntos e da vida. Eu acho que é até uma atitude de vida – não apenas jornalística, mas existencial também – você achar que vai sempre descobrir alguma novidade, e contar aquilo que você vê de uma maneira interessante para alguém e influenciar a maneira de outra pessoa ver o mundo. Mas sem pretensão, pois jornalista é um bicho notoriamente pretensioso. Tem uma frase do Evandro Carlos de Andrade, que foi diretor de jornalismo aqui da TV Globo: ele dizia que se Deus entrasse na redação do Jornal Nacional iria se sentir humilhado (risos). Ele dizia isso, obviamente brincando, para ilustrar essa vaidade exagerada dos jornalistas e a noção de que é mais importante do que é na verdade.

Não sei se foi no seu blog “Sopa de Tamanco” que eu li aquela história de que o jornalista está na redação, quando o chefe chega e diz: “Deus vai chegar na Terra. Faça uma matéria sobre ele!”. E o jornalista pergunta: “Contra ou a favor?”…

G - Não, não foi no meu blog. Mas tem uma história onde um jornalista vira pro outro e pergunta: “Você pode me dizer o que eu penso sobre esse assunto, por favor?” antes de escrever o artigo (risos). Esse é o lado mais folclórico da redação. É possível fazer uma enciclopédia sobre isso. O Joel contava que um dia ele estava concentrado, batendo à máquina na redação de um jornal, com aquele ar grave, achando que iria mudar a história da humanidade, e o Nelson Rodrigues parou na frente dele, com aquele cigarro no canto da boca, ficou olhando sem dizer nada, virou-se e, quando Joel levantou os olhos, Nelson falou: “Patético!”. E foi embora. Eu sempre tento me guiar por isso para sempre ter a noção de que a gente é um pouco patético, mesmo, mas continua datilografando, sem problema.

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Como surgiu a idéia de fazer o blog Sopa de Tamanco? Como está sendo esta experiência de escrever para um blog?

G - Para dizer a verdade eu fui até um retardatário nesta coisa de Internet. Primeiro criei um site, o geneton.com.br, para juntar textos que estavam esparsos. Alguns tinham sido publicados em livros, outros eu tinha guardados em casa, então eu quis juntar tudo num lugar. Até tive dúvidas se valia a pena, mas hoje estou achando que vale, só por um motivo: a minha principal atividade é mesmo fazer entrevistas e lá estão disponíveis hoje algumas entrevistas que, de outra maneira, poderiam estar perdidas ou trancadas no centro de documentação de um jornal. Se você der uma busca no Google por “Paulo Francis” ou “Ivan Lessa”, “Mino Carta”, “Joel Silveira” ou vários outros, você vai cair no meu site. Nem sei por quais mecanismos. Não sei se é por antigüidade, afinal já faz quase três anos que estão lá, mas em alguns casos aparecem até mesmo na primeira página de resultados do Google. Então é só por isso que eu mantenho lá: porque se alguém estiver interessado em conhecer esses personagens…

Eu não uso aquele blog para falar de coisas pessoais. Não escrevo aqueles diários públicos que, geralmente, as pessoas fazem na Internet. São entrevistas e reportagens. E o Sopa de Tamanco surgiu meio como uma brincadeira. A gente estava conversando aqui, no corredor, com Tony Marques, editor do Fantástico, e falamos de uma briga. Aí ele usou essa gíria que eu nem conhecia, e que é gíria de lutador de luta livre: “Ah, isso é sopa de tamanco, é pau puro!”. E eu disse: “Então vamos criar um blog com esse nome, que é bom, só para falar mal”. Diferentemente do geneton.com.br que tem só entrevistas, a idéia do blog é falar mal de todo mundo. Às vezes fico espantado quando ele é citado em outros blogs e tem uns picos de visitação, chegando a mil por dia. Acho muito, porque hoje existe esse fenômeno das nanoaudiências.

A tendência, hoje, são audiências minúsculas, divididas, repartidas em milhões de pequenas partículas, e é o que se chama de nanoaudiência. Os blogs são pequenas audiências. Milhões de blogs e todos eles tendo pequenas audiências, ao contrário de antigamente quando era apenas uma pessoa falando para milhões ao mesmo tempo. Então achei bom ter mil visitas, mas temos altos e baixos. Eu fiquei na dúvida também sobre o quanto valeria a pena, mas resolvi esquecer esse lado. Eu disse: “Sabe de uma coisa? Tem gente que faz peça de teatro para uma ou duas pessoas. Por que a gente não pode escrever para uma ou duas pessoas também? Então vamos continuar”.

No meu delírio, fico imaginando um teatro (risos). Aí alguém me diz: “Tem trezentas pessoas” e eu fico imaginando “meu Deus do céu, eu jamais subiria num palco na frente de trezentas pessoas para falar, pois sou um péssimo orador”. Mas escrever para 300 pessoas lerem, para mim está ótimo. Não tenho esses delírios megalomaníacos de ficar imaginando que o Brasil inteiro vai ler as bobagens que a gente escreve. A gente tem feito aquela brincadeira “Quem continua solto?” – de vez em quando eu pergunto “Fulano de tal continua solto?”, “o Senado continua solto?”. Até já esgotei um pouco a lista de todas as implicâncias que a gente tem. Tenho que renovar um pouco a lista.

GENETON: “UMA VEZ SENTI O BAFO DO JOSÉ SARAMAGO”

Segunda parte: POLÍTICA

No seu livro “Dossiê Brasília: Os segredos dos Presidentes” você explora uma área até então desconhecida das suas reportagens: a política. Isso facilitou ou dificultou na hora de entrevistar os ex-presidentes? Você deixou de fora algum trecho de uma dessas entrevistas?

geneton_politica3.jpgG - A política não me era totalmente estranha porque trabalhei na sucursal do Estado de São Paulo no Recife entre 75 e 80, e também cobria política. E peguei uma época muito rica lá, que foi a volta dos exilados. Me lembro de Miguel Arraes voltando do exílio, num domingo de manhã chuvoso, as pessoas invadindo a pista de pouso e ele acenando. Um momento bonito. Lembro de ter viajado com Ulysses Guimarães às pressas no dia em que mataram o operário Manoel Fiel Filho em São Paulo. Foi no início de 76, logo depois da morte do Vladimir Herzog. Um momento gravíssimo do governo Geisel que acabou provocando a demissão do comandante do Segundo Exército. Foi a segunda morte, e o Geisel resolveu intervir. Minha função era ouvir o Ulysses Guimarães sobre isso. Casualmente, ele estava de passagem pelo Recife e iria embarcar para Aracaju. Embarquei para Aracaju junto com ele, que na época era o presidente do MDB e líder da oposição. Mostrei um telex para ele, com a notícia. Ele tomou um susto e falou: “Isso é grave. Deixa isso lá no saguão do aeroporto de Recife. Assim que subirmos no avião a gente vê”.

No avião, fiquei perto dele, esperando a hora de tentar ouvi-lo. Ele pegou o jornal Estado de SP na página de editoriais e, um minuto depois, estava dormindo, segurando o jornal … (risos). Já escrevi, brincando, que a partir desse dia fiquei na dúvida sobre a função dos editoriais. Serão soporíferos? (risos) Quando ele acordou, notei que estava fugindo um pouco de falar sobre o assunto, porque era realmente grave, naquele momento, alguém falar uma palavra fora de contexto. Poderia-se inclusive ser cassado, como houve casos. Perguntei: “O senhor quer falar?”. Ele disse: “Não, primeiro vamos descer.” Descemos em Aracaju e ele foi recebido com banda de música no aeroporto. Ele desceu acenando para todo mundo como se fosse quase um candidato à presidência da República.

Mas ele estava evitando falar sobre aquele assunto. Durante uma entrevista coletiva na assembléia de Aracaju, ninguém tocou no assunto. Quando perguntaram se alguém tinha mais alguma pergunta, levantei o dedo e perguntei a ele o que o MDB tinha a dizer sobre aquilo. Ele respondeu, meio “pisando em ovos”, que era um momento grave e que o MDB iria se pronunciar. Quando ele saiu, eu estava na porta e ele foi cumprimentando um por um. Apertou minha mão e falou baixinho no meu ouvido: “Você soltou o seu petardo, não foi?”. De madrugada, ele recebeu os repórteres no hotel e fez uma declaração mais ou menos formal sobre aquela crise. Disse que, se houvesse um agravamento na situação, admitiria como recurso a utilização de “soluções de força”, o que poderia ocasionar um conflito no Brasil. Pela manhã, um dos repórteres da comitiva foi acordado por um funcionário do hotel que disse: “O Dr. Ulysses quer falar com um de vocês”. Ulysses pediu para que não fosse utilizada a expressão “soluções de força”. Nunca mais esqueci essa frase.

“Soluções de força” já é uma expressão branda, digamos assim, e ele já achava que poderia complicar…

G - Sim, porque teve a cassação de Alencar Furtado e de alguns nomes do MDB que haviam denunciado as violências do governo militar. O Geisel não brincava em serviço: cassava. E naquele momento Ulysses Guimarães estava evitando uma expressão que pudesse criar uma crise. Nesse período também tive a chance de ouvir Miguel Arraes, Teotônio Vilela, Paulo Brossard (jurista que depois virou ministro da Justiça) e Lula quando era metalúrgico.

Cobri a primeira visita de Lula, já famoso, de volta à Pernambuco, quando já tinha sido capa da revista Istoé e estava começando a aparecer como o “fenômeno” metalúrgico. Ele foi ao Recife em 78, e me lembro de duas coisas: uma, do quanto ele dizia palavrão; outra, quando ele foi visitar Dom Helder Câmara – foco de resistência ao governo militar no Recife. Lembro que Dom Helder morava em uma casa minúscula que tinha um poster na parede com a frase de Martin Luther King – “eu tenho um sonho…” – e foi com sua mulher e um filho pequeno, Sandro. Lula falou para Dom Helder: “Esse menino aí é meu filho. O nome dele é Sandro. Tem nome de cabeleireiro, mas é macho.” Dom Helder riu da cena. Lembro também de uma declaração engraçada que ele deu. Perguntei: “O que o senhor vai fazer depois que sair da presidência do sindicato?”. Ele disse: “Quando acabar esse meu mandato eu quero voltar à vida doméstica, dar mais atenção à minha mulher e meus filhos. O que eu sei é que não tenho vocação pra política.”

Engraçado isso, né? Virou presidente da República. Obviamente deve ter mudado de opinião… Republiquei os trechos mais importantes desta entrevista no livro Dossiê Brasília. Acho que foi uma boa coisa o fato de ter entrevistado os presidentes sem estar exercendo jornalismo político. É aquilo que eu disse antes: é sempre saudável você ver as coisas pela primeira vez.

Aquele estranhamento…

G - É. Eu acho que um repórter de Brasília que já deve ter entrevistado trezentas vezes o Fernando Henrique ou o Collor provavelmente não teria curiosidade de fazer algumas perguntas. Já me perguntaram as coisas mais loucas. Certa vez, numa bienal de livros em Recife, alguém me perguntou: “Como é o cheiro dos presidentes?”. Sinceramente, não me lembro de nenhum deles cheirar mal.

Ou o bafo, né? (risos)

G - Olha, uma vez senti o bafo do José Saramago. Eu até botei no blog: “Confissão inconfessável: Prêmio Nobel estava com mau hálito” (risos). Mas sobre o personagem que mais me marcou, entre os presidentes, acho que foi o Collor. Jornalisticamente, talvez seja o personagem mais rico dos quatro. Primeiro, pelo lado trágico da história: um cara com quarenta anos de idade chegar a ser presidente da república – que não é uma republiqueta, apesar da gente ter nosso complexo de inferioridade – e, literalmente, jogar pela janela a chance de entrar para a história, como primeiro presidente eleito depois daquele período. Isso eu achei inacreditável. Ele, descrevendo a cena do impeachment, foi algo que me impressionou muito.

Ele no quarto…

G - No gabinete do presidente. Eu imaginei que na hora do impeachment ele devia estar cercado de assessores, com a TV ligada e contando os votos. E ele falou que ficou sozinho, no gabinete, sem ver nem ouvir nada, apenas o rumor que vinha da rua a cada voto. Isso é uma atitude bem Collor mesmo, né? Quando o voto final foi comemorado como um gol – ele conta que pensou: “Está tudo perdido”. Chamou o ajudante de ordens e foi embora. Então você vê o presidente descrevendo a própria desgraça! Já o caso do Sarney mostra a diferença entre as personalidades. O Sarney tinha um certo deslumbramento – sem ser esta palavra -, com o exercício do poder. Você imagina: um vice-presidente que entrou para compor a chapa do Tancredo Neves, de repente, por uma conspiração do destino, assume a presidência da República num momento grave do Brasil. E dois meses depois ele está passeando com Gorbachev pelos jardins do Kremlin, discutindo o futuro da humanidade.

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De uma hora para outra ele passou a circular entre os poderosos…

G - Ele se sentia orgulhoso. “Pô, estava passeando pelo Kremlin com Gorbachev e ele virou pra mim e disse: ‘Não entendo esse Ronald Reagan. Esse cara fica me ligando e querendo me dar lição de como governar’.” Outra cena engraçada, que também desmistifica um pouco o poder, é o Sarney dizendo que teve uma audiência com Ronald Reagan na Casa Branca. Estava lá o staff, o secretário de Estado e todo mundo na mesa. Quando a reunião estava no final, Sarney virou para o presidente Reagan e disse: “Presidente, o senhor poderia me dizer, como presidente dos EUA, país mais importante do mundo, o que vai acontecer com a humanidade nestes próximos anos?”. Reagan riu, virou para o assessor dele e falou: “Conta pra ele aí”. Sarney ficou meio chocado, pois esperava uma declaração grandiosa. Sarney tem estas histórias. Achei muito interessante quando ele contou sobre os bastidores.

Por exemplo: ele foi quase intimado pelo Ministro do Exército a assumir a presidência na noite em que o Tancredo ficou doente e foi para o hospital. Sarney disse que não queria assumir porque isso iria contra a expectativa da opinião pública por um presidente da oposição. Quando ele disse que não queria assumir, Leônidas Pires Gonçalves – que viria a ser o Ministro do Exército e era amigo pessoal de Sarney – , ligou para ele de madrugada e disse: “Olha, a gente já está com problema demais aqui. O Tancredo está no hospital numa cama. Por favor, não crie mais problema. Você é o presidente da República. Boa noite, Presidente”. E foi assim. Esse é o título do livro que Sarney disse que está escrevendo: “Boa noite, Presidente”. Foi assim que ele soube que iria mesmo assumir, querendo ou não, a presidência da República.

GENETON: “FORAM 20 ANOS DE CONVIVÊNCIA”

Terceira Parte: JOEL SILVEIRA

Na sua opinião quais seriam os grandes nomes do jornalismo atualmente?

geneton_joel3.jpgG - Eu admiro muita gente. Considero um privilégio ter vindo do Recife para cá, cumprindo um pouco aquela sina do nordestino de cair mapa abaixo até parar no Rio ou em São Paulo, e ter convivido com alguns de meus ídolos jornalísticos, como Paulo Francis, por exemplo. Eu o lia no Pasquim, no tempo da faculdade. Para mim, ele era uma figura meio mítica, que me deixava até meio constrangido. Conheci Paulo Francis pessoalmente aqui na Rede Globo e tivemos dez anos de convivência profissional. Era engraçado, porque eu até o evitava um pouco, por constrangimento. Minha relação com ele era a de um fã com o ídolo. Sua imagem pública era a de um homem ranzinza e agressivo, mas pessoalmente era uma pessoa muito generosa. Devo muitas coisas a Paulo Francis. Certa vez, ele me ligou de Nova York e disse: “Compre o Globo neste domingo. Você terá uma agradável surpresa.”

Fiquei imaginando o que poderia ser. Quando vi, ele havia escrito quase uma coluna inteira sobre meu livro “Dossiê Drummond”, dizendo que tinha sido a melhor entrevista de Carlos Drummond de Andrade que ele já tinha lido; que a vida acadêmica no Brasil era uma droga e jornalistas como eu é que preenchiam as lacunas que a academia deveria preencher. Foi um dos maiores elogios que recebi em minha vida. Me senti muito lisonjeado e, para mim, foi como um diploma de jornalismo.Meu último encontro com ele foi inesquecível. Eu estava em uma livraria em Piccadilly, no centro de Londres e, por puro acaso, estava na seção de clássicos. De repente, sinto um tapa nas minhas costas. Era Paulo Francis, que me disse: “Meus parabéns! Você está na única seção que presta nessa livraria.” E esta foi a última coisa que ouvi dele.

 Eu tentava trabalhar como uma espécie de “assessor” de Paulo Francis em Londres, sugerindo entrevistas para ele fazer na TV. Percebendo meu entusiasmo, ele certa vez me disse: “Você viu aquele filme ‘Seven’?” Eu disse que sim. Com a minha animação em sugerir matérias e entrevistas, ele disse que eu parecia um dos personagens do filme: “Você se lembra do que o Morgan Freeman disse para o Brad Pitt no final do filme? ‘O mundo é um belo lugar e vale a pena lutar por ele’. Eu concordo com a primeira frase.”

Depois convivi com Joel Silveira. Nossa relação extrapolou para uma coisa muito mais pessoal . Foram 20 anos de convivência. Fizemos dois livros juntos. O texto de Joel Silveira sobre seu encontro com Getúlio Vargas, publicado em “Tempo de Contar”, deveria ser reproduzido e distribuído em todas as escolas de jornalismo. É uma lição de como transformar um encontro fugaz em uma matéria. Mas essa é uma lição de todos os mestres; não só do Joel.

É como no caso em que ele não conseguiu entrevistar Hemingway. Ele disse que, mesmo se não entrevistasse, já dava matéria…

G - Em jornalismo aprendi o seguinte: não se desperdiça uma chance.

geneton_curiosidades1.jpgJoel ficou constrangido de abordar Hemingway, que estava bebendo em um bar em Paris, no pós-guerra. Ele até disse, brincando, que o pior que poderia acontecer seria levar um soco e ser o primeiro jornalista brasileiro a apanhar de Ernest Hemingway. Por constrangimento, perdeu esta chance de abordá-lo. Também tenho minhas frustrações, no sentido de que deveria ter insistido mais com algumas figuras, como Glauber Rocha, por exemplo, que era meu ídolo. Tive a chance de conhecer Glauber Rocha quando estudei cinema em Paris, durante uma sessão exclusiva para críticos franceses de “A Idade da Terra”, no início de 81. Glauber já estava doente e isso me deixou meio constrangido de insistir em uma entrevista com ele.

Estava com um amigo e fui apresentado a Glauber: “Este é Geneton, lá do Recife.”. Então Glauber perguntou por um amigo dele, de Recife. Depois virou para os críticos franceses e falou, com o francês carregado de sotaque nordestino: “Está aqui a juventude brasileira, estudando cinema em Paris. Esta é a juventude que vai fazer cinema!”. Depois da exibição de “A Idade da Terra”, um filme que estraçalha a narrativa tradicional do cinema, Glauber – que estava a três fileiras de distância – virou e nos perguntou, juntando os indicadores: “E aí? Vocês fizeram as ligações?”. Acho até bom eu ter ficado com essa imagem de Glauber Rocha em vez da imagem de uma entrevista.

Teve um escritor pouco conhecido aqui, Antônio Carlos Villaça, autor de “O Nariz do Morto”, que considero genial. Era uma figuraça. Vivia pobre, despojado de bens materiais. Chegou a morar de favor na sede do Pen Club. Eu o conheci pessoalmente; uma figura fisicamente estranha, mas os livros que ele deixou, como “O Nariz do Morto”, são exemplos de alta literatura. Cheguei a pensar em entrevistá-lo. Quem tiver interesse em conhecer a obra de um autor deve procurar, claro, seus livros. Mas as entrevistas permitem, eventualmente, que se revele algo sobre o homem e o que ele pensa.

A pessoa por trás do texto…

G - Isso fecha um ciclo de curiosidade sobre os autores. A única vantagem de você escrever e publicar é que, de certa maneira, você não morre. Dá a ilusão de ser um antídoto contra a morte. É engraçado dizer isso, mas a morte dos outros não me incomoda muito. Paulo Francis disse, certa vez, algo que fez o maior sucesso no Brasil: “Eu estou tecnicamente morto!”, por se sentir deslocado no mundo medíocre das celebridades. Hoje, considero Paulo Francis e Joel Silveira tecnicamente vivos, porque a obra deles ficou ao alcance de nossas mãos. A pequena parte que me cabe, como jornalista, é zelar pela memória deles e transformar tudo o que tenho sobre eles em livros e artigos. Assumi o compromisso de reunir tudo o que tenho de Paulo Francis num livro – duas ou três entrevistas que fiz com ele, entrevistas que ele gravou para a Globo, histórias que ouvi, inclusive as que contei aqui.

Fecharei um ciclo pessoal. Tudo o que ouvi de Paulo Francis e, eventualmente, poderá servir para os outros estará nesse livro. Pretendo fazer o mesmo sobre Joel. Sou meio rato de biblioteca. Guardo tudo. Em casa, tenho uma fita que gravei em 1973 com Caetano Veloso. Com o tempo, vira uma relíquia. Acho um absurdo quando vejo colegas jornalistas, após entrevistarem a maior celebridade, não guardarem a fita. É um sintoma do já citado imediatismo que contamina a profissão. Esse tipo de memória tem de ser preservada.

No caso de Joel Silveira, além da convivência pessoal e profissional, guardei cerca de dez diálogos gravados com ele, ao longo de 20 anos. Eu e ele pensamos em reunir isso em um livro, pois terá utilidade ao menos para jornalistas e estudantes.

Joel Silveira teve alguma inspiração no jornalismo literário americano?

G - Não. Ele foi anterior. Sobre isso, que a justiça se faça. Até Joaquim Ferreira dos Santos escreveu um artigo sobre isso: as matérias de Joel Silveira foram anteriores às do Novo Jornalismo Americano. Sérgio Augusto reproduziu no livro “As Penas do Ofício” uma crônica sobre o livro de Joel, “Inverno da Guerra”, onde ele diz que se Joel Silveira tivesse escrito aquela cobertura de guerra nos Estados Unidos, teria virado um roteirista de Hollywood, porque aquilo é cinematográfico. A matéria de Joel sobre os grã-finos de São Paulo foi escrita na segunda metade dos anos 40. Depois da morte de Joel, ouvi algumas gravações que fiz com ele. Numa delas, ele diz que esse texto dos grã-finos era mais uma crônica do que uma reportagem. Pretendo reunir todas estas histórias e conversas de Joel Silveira em, pelo menos, dois livros que estou devendo.

Você diz que a casa de Joel Silveira na rua Sá Ferreira, era na realidade a escola de jornalismo da rua Sá Ferreira. Hoje, se pudéssemos eleger uma nova “escola de jornalismo” onde seria este lugar e com quem?

geneton_curiosidades2.jpgG - Eu aconselharia as estantes de jornalismo das livrarias. O Brasil vive uma crise do texto jornalístico. Não sou eu quem faz esse diagnóstico, nem tenho essa pretensão. Zuenir Ventura já falou sobre isso. Caímos no extremo oposto ao que antigamente se chamava “nariz de cera” – introduções intermináveis, marcadas por aquela sub-literatura que jornalista adora fazer, eu inclusive. Com o tempo houve esta modernização, tentou-se fazer com que o texto jornalístico fosse mais objetivo, até que caímos nesse extremo oposto – que Nélson Rodrigues chamaria de “aridez lunar”: o texto sem vida nem graça. Uma frieza que matou, aos poucos, o jornalismo. Você abre o jornal e parece que foi tudo escrito por uma só pessoa. Não é possível que entre os leitores não exista alguém que prefira um texto com um toque minimamente pessoal. Um exemplo: li uma entrevista com Itamar Franco onde não se via uma linha descritiva sequer sobre onde e como ele estava, como foi o encontro com o repórter. Nada. Apenas aspas e aspas. Para um leigo, passa a impressão de que o jornalista é o inimigo número um do texto e da informação. A palavra de ordem parece ser “não passe de dez linhas”, como se escrever e ler tivesse virado um fardo. É lamentável constatar que nos dias de hoje não existiria lugar para um Joel Silveira.

Rubem Braga tem um texto genial. A descrição que ele faz, no livro “Crônicas da Guerra na Itália”, da partida deles de navio para a cobertura da guerra na Europa é alta literatura. É algo que jamais seria publicado, hoje, em jornal. É um assunto sobre o qual os diretores de jornal deveriam fazer um exame de consciência: por que um repórter como Joel Silveira não conseguiria publicar um texto nos dias de hoje? Por que os jornais fecharam as portas para este tipo de jornalismo? Isso expõe a banalidade de um jornalismo que qualquer pessoa medianamente inteligente e alfabetizada é capaz de fazer. O jornalismo que exige mais dedicação e informação dá trabalho e, talvez, a atitude mais fácil seja abandoná-lo. O bom texto jornalístico, hoje, é uma exceção.

O texto de Nélson Rodrigues também era genial. Ninguém usava adjetivos como ele. Nélson falava como escrevia. Das pessoas que conheci como repórter, só duas faziam isso: Gilberto Freyre e Nélson Rodrigues. Uma das cenas que testemunhei que vão contra a mitologia do jornalismo foi uma entrevista que fiz com Nélson Rodrigues para o Diário de Pernambuco. Ele marcou a entrevista comigo na hora de um jogo da seleção brasileira. Era estranho, porque ele escrevia no Globo sobre futebol, e a entrevista não era sobre isso. Como é que ele podia marcar uma entrevista na hora de um jogo? Achei que ele tinha se enganado…

Quando cheguei ao apartamento, ele levantou a mão e falou: “Conterrâneo!!”. Eu lembrei a ele que o jogo seria na hora da entrevista, mas ele disse que não tinha problema. Era Brasil x Peru. Quando a seleção entrou em campo, ele colocou a mão no peito e falou: “Tira o som desse aparelho! O Brasil me faz mal! O Fluminense me faz mal!”. Isso tudo durante a entrevista! De repente o Brasil fez um gol e ele solta uma expressão que, até então, eu nunca tinha visto ninguém usar: “Que coisa beleza!”. Depois confundiu o replay daquele gol com um segundo gol. E eu pensando: “Meu Deus do céu, como é que ele vai escrever sobre isso?”. Enquanto isso, falávamos de outros assuntos. Lembro de Nelson Rodrigues lamentando que os jovens não se matavam mais por amor: “No meu tempo, existia um pacto suicida entre os jovens apaixonados. Eles morriam de amor. Era lindo. Hoje ninguém se mata por amor!”

Quando acabou a entrevista, ele pegou o telefone e ligou para o Hotel Nacional. Pediu para falar com a cozinha: “Meu amigo, aqui fala Nélson Rodrigues. Qual é o prato do dia, hoje?”. Ao receber a resposta, agradeceu, desligou e me perguntou: “Você me acha muito reacionário?”. Respondi que não. No dia seguinte, comprei o Globo para ver o que ele havia escrito sobre o jogo. Estava lá: “O Brasil brilhou contra o Peru”. Acredito que ele escreveu aquela crônica antes do jogo, pois não teria dado tempo. Nélson Rodrigues era tão genial que nem precisava ver um jogo para escrever sobre ele. Esta tarefa de anotar placar é para os “idiotas da objetividade”. Para Nélson Rodrigues bastava fazer aquelas frases grandiosas. Tenho o livro “O Reacionário” autografado por ele, com a dedicatória: “Ao amigo doce e truculento Geneton”. Entrevistar Nélson Rodrigues foi uma oportunidade que não deixei escapar.

Nesta época, eu a torcida do Flamengo sonhávamos em entrevistar Carlos Drummond de Andrade, que era super arredio. Eu tinha uns contatos com ele pelo telefone. O pretexto apareceu quando o Jornal da Globo, aquele telejornal do fim da noite, apresentava frases de pessoas famosas, e eu ligava para ele para pegar umas frases. O engraçado é que ele mesmo atendia ao telefone, quando hoje qualquer suplente de sub-celebridade tem dez assessores de imprensa e secretárias que não deixam você nem chegar perto. Já Carlos Drummond de Andrade adorava falar ao telefone mas tinha horror de contato pessoal. No fim das contas fiz a ele 76 perguntas sobre os mais diversos assuntos. Liguei com a desculpa de que queria publicar um livro sobre os 60 anos do poema “No meio do Caminho” em 1988. Para minha triste surpresa, ele morreu 17 dias depois da entrevista, que foi publicada no Jornal do Brasil no caderno Idéias, no sábado. Na terça-feira, ele morreu. A entrevista virou uma relíquia que transformei no livro “Dossiê Drummond” que acaba de ser relançado. Quando liguei para fazer a entrevista, Drummond estava com a filha doente, no hospital. Qual era a atitude civilizada que eu deveria ter tido? Não fazer a entrevista naquela hora! Mas às vezes acho que a falta de civilidade pode conspirar a favor da memória jornalística. É o que aconteceu neste caso: esta entrevista virou um documento biográfico importante sobre Carlos Drummond de Andrade. Então eu fico satisfeito quando consigo estas coisas, porque acho que o papel do repórter é esse: o de você, sem pretensão, produzir memória.

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GENETON: “A GRANDE ENTREVISTA HOJE É BIN LADEN”

Quarta parte: CURIOSIDADES

Sei que você entrevistou Anthony Burgess, autor de Laranja Mecânica, clássico da ficção e do cinema. Como foi esse encontro? Que fato curioso você poderia nos contar do encontro com ele?

G - Eu admirava Anthony Burgess, entre outros motivos, porque o filme que Stanley Kubrick fez baseado no livro “Laranja Mecânica” me marcou muito. Aproveitei que estava morando em Londres em 1985 e fiz vários contatos, durante meses, por carta, com o agente de Burgess, tentando marcar a entrevista. O agente me perguntou se o livro tinha saído no Brasil. Anthony Burgess na época não morava em Londres. Estava fugindo dos impostos ingleses. O assessor marcou um encontro durante uma visita dele à cidade. A entrevista foi no hall de um hotel, com a esposa de Burgess acompanhando tudo. Algumas cenas foram marcantes. Quando Burgess comentou que um amigo brasileiro – Araújo Neto, então correspondente do Jornal do Brasil na Itália – lhe havia dado de presente um disco de Chico Buarque, a mulher dele interrompeu a entrevista para comentar sobre esse disco. Ele deu uma bronca nela! Uma situação constrangedora, mas a entrevista foi genial, pois Burgess tinha aquela ironia inglesa…

Quando perguntei, por exemplo: “Você acha que será lembrado como escritor?”, ele respondeu: “Eu gostaria de ser lembrado como alguém que contribuiu de alguma maneira para o mundo, como Adolph Hitler”. E falou isso como se fosse a coisa mais banal do mundo! Em outro momento, quando perguntei sobre a função política do escritor, ele disse que nós, latinoamericanos, damos importância demais à política. “Num lugar civilizado a política é uma coisa secundária”. Ele terminou a entrevista dizendo “Atenção, meus amigos brasileiros, por favor, mandem o pagamento pelos meus livros, porque nunca recebi um centavo”. Os livros dele foram publicados aqui e ele nunca recebeu nada em direitos autorais! É uma vergonha. Terminei cobrado em nome do Brasil…

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Das inúmeras entrevistas que você fez qual delas você destacaria como a principal?

G - É difícil. Algumas entrevistas, com o tempo, parecem privilégio, como a de Nélson Rodrigues, que vou lembrar para sempre. Não só a entrevista, mas o fato de ter assistido a um jogo de futebol com Nélson Rodrigues. Existem também cenas marcantes, como quando entrei no presídio de segurança máxima para entrevistar o assassino de Martin Luther King, James Earl Ray. Era um homem bastante articulado, falava bem. Negou o assassinato até o fim. Levei o livro que ele havia escrito e, no final da entrevista, fiquei na dúvida se pedia ou não a ele um autógrafo. “Esse sujeito matou um herói americano e eu vou pedir um autógrafo a ele?”. [Nota da Edição: Geneton Moraes Neto descreve esse fato em detalhes no blog Sopa de Tamanco].

Lembro também da entrevista que fiz em 95 para o Fantástico com a sobrevivente do Titanic, Milvina Dean, em Southampton. Fazia muito frio. Em vez de fazermos imagens em ambiente fechado, combinamos com o cinegrafista de levar a entrevistada ao porto de onde partiu o Titanic. Quando ela saiu do carro, já no local, deu aquela rajada de vento à beira mar… Ela começou a tremer. Fizemos a melhor cena da reportagem – ela de costas, olhando para o mar -, e a levamos de volta ao carro. Comentamos: “Essa mulher escapou do Titanic e agora vai morrer na mão da gente?”.O que marca nessas entrevistas são estas cenas surrealistas, como no dia em que marquei uma entrevista com um homem que foi ferido durante o atentado que matou o presidente Kennedy. Marcamos encontro em Dallas, em frente ao Depósito de Livros Escolares do Texas, de onde Lee Oswald atirou em Kennedy. Eu não o conhecia. Quando cheguei lá, vi um texano típico de botas, chapéu e paletó. Ficamos os dois rondando a calçada, até um de nós perguntar se um era o outro… Houve também cenas melancólicas, como quando fiz a entrevista em São Francisco, na Califórnia, para o Fantástico, há dois anos, com o militar que soltou a bomba atômica em Hiroshima… Só gosto de tragédia (risos). O pessoal aqui brinca comigo, dizendo que em reportagem minha sempre tem alguém que matou alguém… Pois quando cheguei na casa desse senhor, encontro um velhinho colhendo pêras no jardim. Uma cena de solidão.

Considero, jornalisticamente, os perdedores mais fascinantes do que os vencedores, pois têm toda uma história humana. Houve um momento melancólico em outra matéria sobre o caso Kennedy, sobre um agente secreto que havia sido encarregado de vigiar os passos de Lee Oswald antes do atentado, o grande fracasso da vida desse homem. Ele chegou a ir até a casa do Lee Oswald, porque o homem que mataria Kennedy havia distribuído uns panfletos de propaganda pró-Cuba, mas ninguém imaginava que ele poderia vir a matar o presidente. Rodamos horas para chegar até a casa deste agente, em Kansas. Ele estava lá, viúvo, morando só com o filho excepcional. Pensei: um dia esse homem estava no olho do furacão e agora estava ali, solitário, num lugar remoto do Kansas, dando entrevista para um repórter brasileiro…

Quando eu morava em Londres, tentei entrevistar Jerry Lewis, ídolo da minha infância. A resposta do agente dele foi a mais fria possível: “ele NÃO vai dar entrevista para você, porque a prioridade será dada à imprensa inglesa”. Yoko Ono só aceitou ser entrevistada com a condição de não se falar na morte de John Lennon. Nesse circo das celebridades, o assessor “sopra” o seu nome para o entrevistado cinco minutos antes de você chegar à sala. Assim, cria-se um clima de falsa “intimidade” entre a você e a celebridade – que trata você pelo primeiro nome.

Minha entrevista com Woody Allen caiu no colo, literalmente. O estúdio entra em contato com O Globo, diz que Woody Allen estará em Londres e quer conceder uma entrevista exclusiva para divulgação de seu novo filme. Você, então, recebe em casa um telefonema convidando para o grande encontro. É uma troca de interesses. Quando cheguei ao local da entrevista, tinha jornalista de diversos países. A assessora me alertou que eu não dissesse a ninguém ali que eu iria fazer uma entrevista exclusiva com ele. Como geralmente funcionam estas entrevistas? Entram grupos de 4 jornalistas em uma pequena sala, onde ficam 15 minutos com Woody Allen, fazem 3 ou 4 perguntas e saem. No meu caso, seria uma exclusiva numa suíte com vista para o Hyde Park. Uma situação daquelas que jamais aconteceria na sua vida caso você não trabalhasse para um jornal. De repente, ele entrou. Comentou comigo que produzia filmes em série, um atrás do outro, porque, se parasse e olhasse de lado, enxergava sobre o ombro uma nuvem escura – a morte. Comentei que ele, Woody Allen, não poderia se comparar a um anônimo, ao que ele respondeu com uma frase de efeito: “Eu quero a imortalidade hoje, no meu apartamento, e não daqui a 100 anos.”

Nossa conversa foi super afável. Disse a ele: “Você não gosta de dar entrevistas. Por que decidiu me conceder esta?”. Ele respondeu: “Vou ser sincero: uma vez por ano eu gosto de saber o que vocês têm para me perguntar. Mas estou dando esta entrevista porque o diretor do estúdio disse que a melhor maneira de conseguir espaço nos jornais é concedendo entrevistas. Publicar um anúncio do novo filme custaria uma nota”. Aproveitei a chance e fiz uma entrevista quase biográfica. Citei o filme novo apenas de relance. Quando perguntei se ele tinha algum ídolo brasileiro, esperava que ele dissesse o nome de algum jogador de futebol. Mas ele disse: “Machado de Assis”. Ele ganhou uma tradução de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e achou geniais a ironia e a elegância do escritor.

Depois de tantos anos de jornalismo existe ainda uma personalidade que você gostaria de entrevistar?

G - A grande entrevista hoje é Bin Laden. É um sonho irrealizável. Existe um “Lado B” do 11 de setembro a que as pessoas não atentam muito, como o fato de os terroristas líderes terem sido recrutados em Hamburgo, numa mesquita considerada um antro de radicais. Entramos com uma pequena câmera escondida nesta mesquita. Conseguimos gravar a cena de um grupo rezando. Quando acabou, tentamos falar com o líder da mesquita, mas fomos recebidos com hostilidade. “Não queremos vocês aqui porque vocês fazem reportagens negativas contra o Islã. E desligue a câmera!” Ele deve ter notado alguma luz acesa. Não tivemos escolha, num lugar daquele.

O líder dos terroristas do 11 de setembro, Mohamed Atta, era um brilhante aluno de arquitetura. Entrevistei um professor dele, a tradutora e um amigo. Tinham uma simpatia pessoal por Mohamed Atta e pintaram dele o quadro de uma vítima do extremismo. Um estudante que foi convertido e fez aquela loucura. Para eles, é difícil de acreditar, até hoje, que ele tenha feito aquilo. Mohamed Atta já tinha uma certa hostilidade contra o ocidente, mas foi catequizado.Seu fervor religioso o impedia de apertar a mão de uma mulher. Daí para ser “convertido” numa mesquita e se tornar um terrorista suicida foi um passo. 

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Qual foi a principal dificuldade/perigo que você enfrentou para conseguir uma notícia?

G - Em algumas ocasiões você é tratado com hostilidade. Como quando tentamos reconstituir os passos dos terroristas do 11 de setembro em Hamburgo, na Alemanha. Em Londres entrevistamos um palestino que caiu nas graças da Al-Qaeda. Ele tem um jornal lá, publicado em árabe e recebeu o convite – que todos os jornalistas do mundo morreriam de inveja – para entrevistar Bin Laden nas cavernas do Afeganistão, antes do 11 de setembro. Ele foi, fez fotos, escreveu um livro. Então, já que não conseguimos entrevistar o Bin Laden resolvemos entrevistar uma pessoa que esteve próxima dele. Ele conta umas coisas interessantíssimas, como por exemplo: Bin Laden não deixou que ele gravasse a entrevista, só anotasse. Conversando com os assessores do Bin Laden, soube por que ele evitava gravações: como Bin Laden poderia vir a ser, um dia, o líder do mundo islâmico, não queria deixar um documento em que ele corresse o risco de cometer um erro ao citar uma passagem do Alcorão ou mesmo um erro de concordância. Bin Laden deu a ele duas pistas sobre o motivo desse ódio que ele desenvolveu contra os Estados Unidos. Primeiro, porque Bin Laden lutou para expulsar os soviéticos do Afeganistão e aqueles guerrilheiros foram usados como bucha de canhão pelos Estados Unidos e depois descartados “como um lenço de papel”. Isso criou um ressentimento. Depois, na primeira Guerra do Golfo em 91, Bin Laden achou um sacrilégio intolerável soldados americanos terem ficado baseados em lugares sagrados dos muçulmanos na Arábia Saudita – Meca e Medina. Aquilo, para ele, foi a gota d’água que juntou com mil outras coisas, e gerou esta hostilidade.

Já foi confidente de alguma revelação bombástica que pudesse mudar os rumos do país, se divulgada, mas que por algum motivo não pôde vir a público?

G – Eu me lembro de coisas não foram a público, mas não eram muito graves. Há uns cinco anos, fomos entrevistar um ex-piloto kamikaze que mora em Niterói. Ele tem um trauma sobre o qual não gosta muito de falar: a bomba atômica de Hiroshima. Guarda até hoje um sentimento anti-americano. Não perdoa os EUA por Hiroshima. Quando falamos sobre o 11 de setembro ele disse, com o sotaque carregado: “No, avión em prédio World Trade Center, no. Agora, jogar avión no ‘Pentagôno’, militar: pode!” (risos) Depois da entrevista, a filha dele ligou para a gente, pedindo que, por favor, não se divulgasse essa declaração. Não era nada grave, mas poderia expor o entrevistado. Preferimos não divulgar.

A outra situação foi numa entrevista com Arnaldo Jabor, muitos anos atrás, quando ele disse que o universo audiovisual brasileiro estava dominado pela tradição de radialistas incompetentes. Falou mal do Silvio Santos e dos Bloch. Um dia depois ele me telefonou e pediu para retirar aquele negócio de Silvio Santos e de radialistas incompetentes. Houve vários casos de celebridades que se arrependeram do que falaram numa entrevista e ligaram depois, pedindo para não publicar alguma coisa. Uma vez, toquei num detalhe pessoal muito delicado da vida do Roberto Carlos. Um dia depois, a assessora dele me ligou, dizendo que Roberto Carlos havia ligado para ela à meia-noite, preocupado, pedindo para que aquilo não saísse na entrevista.

E o que foi que ele falou?

G - (Risos) Nada de muito grave: o acidente que ele sofreu quando era criança….

Foi um dos motivos pelos quais ele proibiu o livro…

G - É engraçado, porque é um negócio que já está superado. Mas virou um tabu. Ninguém toca nesse assunto com ele. Fiquei meio queimado com Roberto Carlos por ter tocado nesse assunto.

Mas você não publicou?

geneton_curiosidades5.jpgG - Não. E com Chico Buarque também teve um problema: ele deixou de falar com o Fantástico por minha causa. Ele tem horror de jornalista. Fizemos uma entrevista com ele, e ele foi super afável e bem humorado. Pelo clima, foi quase uma conversa de boteco. Chico Buarque até me disse que tinha a frustração de não ter sido jogador de futebol: em viagens pela África, para impressionar os africanos, dizia que tinha sido reserva de Sócrates na seleção brasileira de 82. Brinquei: “E alguém acreditou?” Ele: “Não!”. Nesta entrevista, ele fez até uns paralelos bonitos entre o futebol e a composição musical. Disse que, quando compunha uma música, sentia como se fosse aquela mesma iluminação que dá no jogador na hora do passe; o lampejo improvisado… Ao compor ou escrever um livro, quando tem aquela “sacada”, ele tem essa mesma sensação. Mas perguntei a ele sobre uma história que considero totalmente inofensiva, sobre um irmão alemão, por parte de pai, que ele nunca viu – e hoje deve estar com 70 anos.

Chico disse que o pai falava isso: que tinha tido um caso na Alemanha e deixou um filho lá. Perguntei a ele: “É verdade essa história?”. Ele disse: “È. Meu pai teve esse caso e até brincava: como tinha a pele muito alva, quando estava na Alemanha, perguntavam a ele: ‘O senhor é filho de alemão?’ e ele respondia ‘não, eu sou pai de um’ “. Daí saiu dentro do Fantástico uma chamada sobre este irmão de Chico Buarque. É a velha diferença entre a cabeça do artista e a do jornalista. Lógico que ele esperava que a matéria fosse sobre o clipe que ele estava fazendo. Mas saiu aquela chamada com a voz do Cid Moreira, algo nessa linha: “Daqui a pouco, a história do irmão que Chico Buarque não conhece, na Alemanha”. Chico Buarque não chegou a falar depois comigo, mas vi, pelos comentários que fez na imprensa, que ficou furioso quando viu a chamada. Achou aquilo sensacionalista. Ficou com medo de a mãe ouvir aquilo e pensar que fosse outra coisa. Resultado: dois anos depois, quando alguém tentou fazer uma gravação com ele, ele perguntou se era para o Fantástico. Diante da confirmação, ele se recusou a gravar.

Texto e entrevista: Felipe Cruz
Transcrição e fotos:
Cris Camargo
A entrevista acima foi feita a serviço do Instituto Millenium

1 Resposta para "Geneton Moraes Neto"

Hi, cool site, good writing ;)

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