Nando Reis
O cantor e compositor não mediu palavras e defendeu posições polêmicas, como ser favorável ao aborto, ao casamento gay e à descriminalização da maconha
Por: Felipe Branco Cruz
O paulistano Nando Reis, 47 anos, lança na semana que vem seu novo trabalho Bailão do Ruivão, um álbum onde ele reúne canções bregas que o influenciaram, como Fogo e Paixão, do Wando, ou a lambada Chorando se Foi, da banda Kaoma. Para falar do disco, o cantor e compositor recebeu na última quinta, em sua nova casa no Pacaembu, a reportagem do JT. Nando não mediu palavras e o bate-papo rendeu. Entre outras coisas, defendeu posições polêmicas como ser favorável ao aborto, ao casamento gay e à descriminalização da maconha.
Como essas músicas bregas foram parar no seu disco?
Nunca gostei que as coisas fossem definidas como bem e mal, certo e errado ou brega e culto. Há a intenção nesse disco de mostrar que não distingo gêneros. Detesto música sectária que pregue qualquer tipo de coisa. Detesto música messiânica que acha que fala a verdade. Não sou político. Eu faço música. Então, eu gravei essas músicas porque as acho lindas e porque elas me tocaram em momentos distintos e de formas distintas. É uma forma de mostrar parte do meu gosto.
Se você não gosta de música “messiânica” e não é “político”, porque compôs uma canção como ‘Bichos Escrotos’, que tem conotação política e foi regravada nesse disco?
Minha música atual é autobiográfica e romântica. Mas ela também é extremamente política no sentido de que ela diz aquilo que eu acho fundamental: a defesa da individualidade. O que vemos na política é essa exibição de hipocrisia que acontece nos debates presidenciais falando sobre questões superficiais tentando convencer certos grupos mais preconceituosos em busca de um voto. Escrevi no Twitter que estou irritado com a política e recomendei a leitura de um artigo falando sobre ateísmo. Fui ao mesmo tempo rechaçado e aplaudido. Escrevi, por exemplo, a música Igreja há 24 anos e tenho vontade de cantá-la novamente. Hoje medimos o valor das pessoas olhando se elas se ajoelham ou não. Sou a favor do aborto, a favor do casamento gay e nunca poderia ser candidato porque faço parte de um pensamento minoritário.
Você é a favor do aborto mesmo?
Sou a favor da descriminalização da droga. Sou a favor da admissão de que o álcool mata mais do que a maconha e que não fazemos nada contra isso. Eu sou a favor sim, de que mulheres não morram fazendo abortos em condições suicidas. Eu não sou a favor da morte do feto ou contra a vida. Não sou o diabo. Sou a favor do pensamento científico. A favor de um olhar que não esteja dependente dos dogmas religiosos. Sou a favor da liberdade, do direito de escolha. Então, eu sou a favor da discussão de todos esses temas polêmicos. Parece que ser contra o aborto é ser do bem. Se você é a favor do aborto, você é do mau. Não se trata disso. Aliás, acho ridículo o Serra e a Dilma se tratarem como bem e mal. Os dois são uma merda.
São questões polêmicas…
Vamos esclarecer isso. Eu sou contra a forma como o aborto está sendo tratado nessa questão, como se houvesse assassinos de fetos e santos que protegem as crianças. Estou falando de saúde pública. De uma questão complexa que envolve submissão, preconceito contra a mulher, abuso de crianças, de pobreza. Essa é a discussão. Não sou a favor do aborto como bandeira. O aborto está sendo tratado como se fosse o tópico da nação. É moralismo, hipocrisia.
Essa posição tem a ver com o fato de você ser ateu?
Bicho, evidentemente estamos desviando do assunto principal que é o meu novo disco. Mas, eu não acredito em Deus. Ao mesmo tempo eu tenho admiração e sou impactado pelo milagre da vida. Sou evolucionista. É uma corrente. Da mesma maneira que um cara é evangélico, judeu, muçulmano. Se acreditasse em Deus, todas as cagadas que eu fiz na vida eu colocaria a culpa nele. É uma opção de pensamento. Acho hipócrita quem diz que acredita em Deus e acha que pode rezar e depois fazer um monte de merda. Você tem de acertar as contas só com a sua consciência. Se existe Deus, é a minha consciência.
Voltando à política, em quem vai votar para presidente?
Eu votei na Marina Silva. Mas no segundo turno, vou estar fora do Brasil, na Patagônia.
Você se irrita em as pessoas discordarem de suas opiniões?
Não. Digo sabendo que podem gostar ou não. Subo ao palco sabendo que as pessoas podem gostar ou não. Não faço as coisas para agradar a ninguém. Não faço disco para vender. Faço por expressão. Eu me comunico com o meu trabalho e sei exatamente o tipo de risco das posições polêmicas. Se quisesse agradar, só escreveria coisas legais. Mas não quero ser polêmico. Eu não sou o Lobão.
Para fazer esse disco, você declarou que tocar as músicas dos outros era como se livrar do fardo de conviver com você mesmo.É um fardo conviver com você?
Tenho prazer em viver. Acho um tesão estar vivo. Embora eu ache que tem uma parte da vida que é nebulosa. Pago um preço pela maneira como vivo. Não é convencional. Não agrada a todas as pessoas. Tenho cinco filhos, me casei e gosto dessa ideia. Esse fardo é uma noção de humildade. Mas sou reconhecido como um bom músico. E para isso, não precisei colocar silicone, ser bonito, feio, bicha ou ateu. Sou a favor da diversidade. Na verdade eu queria ser o Roberto Carlos. Mas se não sou o Rei, eu sou o Reis.
Você acha esse seu novo trabalho mais corajoso?
Pode ter gente que ache um disco covarde por gravar com a MTV e só ter sucessos. É corajoso porque inaugura uma coisa que nunca fiz: gravar músicas que não são minhas. Ao botar a minha voz nessas canções, eu vou ser comparado com a versão original, feita por grandes cantores. Frequentemente, sou execrado como cantor. É por isso que o disco é corajoso
As pessoas acham que você não canta bem, certo?
Tem gente que adora a minha voz. As mulheres com quem casei, sempre falaram bem da minha voz. Eu gosto da minha voz. Mas tenho noção de que eu não tenho uma extensão vocal ou timbre de voz. Não sou o Milton Nascimento, que tem aquela voz maravilhosa. Tem uma tendência grande de quem vai fazer crítica que é só apontar os defeitos. Tá bom. A minha voz não é a melhor do mundo. E daí? E se um cara que não tem a melhor voz do mundo faz a obra que eu faço, faz os discos que eu faço e atinge as pessoas que eu atinjo? Eu não tenho a voz da Cassia Eller, mas escrevi O Segundo Sol, e ela cantou porque a minha voz fez aquela música.
Tem oito anos que você saiu do Titãs. Foi a coisa certa a ser feita?
Foi. Claro que foi. E isso não tem nada a ver com a diminuição da importância do grupo ou do que eu fiz. Isso teve a ver com decisão pessoal e rumo de vida.
Você ainda tem amizade com os outros titãs, de chamar para um café, um churrasco?
É curioso isso. Porque esse desligamento e essa nossa não continuidade de convivência é uma forma de respeito. A forma que eu convivo com os Titãs é muito peculiar. Não é comum. O fato de eu não chamar o Branco Mello para um churrasco não significa que eu não tenha ele como amigo. Eu não preciso de nenhuma picanha para dizer que eu os amo. Mas não encontro mais com eles. Só se for por acaso, em eventos de música, por exemplo.
Você tem 47 anos. É avô de uma menina de 6 meses. Como é essa nova vida de avô?
É igual à vida de neto. Eu pretendo ser bisavô, trisavô. Só não pretendo a imortalidade porque uma hora enjoa. Mas acho natural que meus filhos tenha filhos. A minha neta se chama Luzia Aurora.
E o Theodoro, que é o pai da Luzia, participa do seu novo disco também.
Tocar com o Theodoro dá sentido a tudo o que eu fiz na música. É emocionante. Admiro a música dele. Fiquei super emocionado. Convidei ele, claro, porque ele é meu filho. Porque ele é musico e tenho proximidade da música dele. Sou fã dele.
Hoje, como avô, tem alguma coisa do passado que você não queria que eles soubessem?
Claro que tem. Eu não sou um santo. Aprendi a ser pai sendo pai. Tenho cinco filhos. Sou um homem pouco convencional, perturbado, emotivo. Tem coisas que eu fiz que eu tenho vontade de não ter feito, que magoaram as pessoas. Não posso apagá-las. Não me reprimo e não sofro. Posso mostrar para eles que sou esse pai maravilhoso que sobe no palco. Mas eu sou uma bosta de pai que pode ter feito uma cagada. Mas prefiro não falar mais sobre isso. Não queria nem responder a essa pergunta.

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