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Oscar Niemeyer

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Ateu e comunista, o arquiteto Oscar Niemeyer, aos 100 anos, não é mais obrigado a votar há pelo menos 30. Mas, caso o Presidente Lula decidisse se candidatar a um terceiro mandato, Niemeyer votaria nele. “É o presidente que precisamos: sensível aos problemas do povo e patriota”, diz.

O arquiteto falou ao JT por e-mail, por ocasião do lançamento da coletânea Crônicas (Ed. Revan, 116 páginas, R$ 28 ), onde ele reúne textos inéditos e crônicas publicadas em diversos jornais brasileiros. No livro, é possível encontrar textos que falam desde a construção de Brasília, até divagações sobre o formato das nuvens no céu do Rio de Janeiro. Niemeyer conversou também sobre seus estudos de cosmologia e ateísmo. “Realmente eu não acredito em Deus”, afirmou.

No livro que o senhor está lançando, seus textos mais antigos são mais pessimistas do que os mais recentes. Por quê?
Acho que pela primeira vez vemos o futuro do País com mais esperança.–O Presidente Lula está voltado para a pobreza, o Brasil está progredindo, destacando-se no cenário mundial, e a luta em defesa da América Latina revela maior unidade. E Lula, com relação aos EUA, mantém a altivez indispensável.

Aos 100 anos, prestes a completar 101, qual é a vantagem de ainda ser comunista?
Acredito que o capitalismo está decadente e devemos levar em consideração a violência que um quadro como esse provoca. Quanto ao comunismo, o que queremos é tão pouco. Afinal desejamos a solidariedade que falta, as pessoas não mais se olharem como quê procurando defeitos umas nas outras. Todo o mundo deve ter qualidades; Lenin já dizia que 10% de qualidades seriam suficientes. O importante é a pessoa ter vontade de ajudar o outro, sentir prazer nisso. Um dia, um amigo de O Pasquim me indagou: “Oscar, e a vida?” E eu lhe respondi: “Mulher do lado, e seja o que Deus quiser.” Mais tarde, pensando melhor, achava que estava sendo egoísta; afinal, existem miséria e violência, coisa que eu esqueci.

No seu escritório o senhor possui um piano de cauda. Que som sai dele?
Alguns amigos chegam e tocam as músicas que a gente prefere: bossa nova, choros antigos, música francesa e americana e peças clássicas.

O que o diverte hoje em dia?
Há cinco anos, todas as terças-feiras, um amigo vem ao escritório para dar aulas de Filosofia e Cosmologia. Ninguém quer ser intelectual, mas é bom ser curioso e procurar se informar um pouco. Quando o assunto é Cosmologia, às vezes as verdades da ciências, que tanto a fantasia destrói, nos fazem mais insignificantes, menores diante da grandeza do Universo. Isso é bom, é útil para todos nós.

O senhor não acredita em Deus. Não acha que é muito triste saber que ao morrer vai virar pó?
Realmente eu não acredito em Deus. Meus avós Ribeiro de Almeida eram católicos demais. Na grande sala de visitas da casa onde morávamos em Laranjeiras (Rio de janeiro), minha avó transformava uma das cinco janelas em altar. A missa era ali rezada com a presença dos vizinhos. Daí eu aceitar com certo respeito os que realmente acreditam em Deus, o que não mais acontece comigo, infelizmente.

O senhor votaria no Lula, caso ele se candidatasse a um terceiro mandato?
É claro. O Lula é o presidente de que precisamos: sensível aos problemas do povo, patriota, atento a tudo que possa ofender a nossa soberania.

O senhor vai mesmo projetar um estádio para a Copa de 2014, no Brasil?
O estádio que acabei de desenhar não se destina a essa Copa. Foi apenas um tema que sempre me atraiu: um estádio monumental, capaz de ser utilizado de dia e de noite, mesmo nas ocasiões em que chove – até durante temporais –, evitando as mudanças de data.

g0396Em 1998, o senhor escreveu sua autobiografia. Acha que já está na hora de escrever outra?
Escrevi um livro de memórias. Nestes últimos cinco anos, trabalhei mais do que no resto de minha vida inteira. O que está me levando a escrever um novo texto sobre a minha trajetória de arquiteto, surpreso em verificar que, cinqüenta anos atrás, ao projetar o conjunto da Pampulha, as minhas idéias sobre a arquitetura eram as mesmas de hoje: a procura da forma nova e diferente, a preocupação em utilizar o concreto armado em todas as suas possibilidades e o desejo – até hoje mantido – de convocar os artistas plásticos para colaborarem com a minha arquitetura. Uma atitude que, mesmo durante a construção de Brasília, eu soube preservar, evitando adotar a arquitetura mais modesta que a pressa reclamava, voltando-me invariavelmente para esta arquitetura diferente, a criar surpresa, e que mais me agrada.

No dia 9 de novembro de 1988 morreram os operários Barroso, Walmir e Wiliam, na greve da Usina Siderúrgica Nacional. O senhor construiu um marco na cidade em homenagem aos operários mortos, que foi destruído por uma bomba em ação terrorista. Foi o único monumento seu destruído e o senhor chegou a dizer que não queria reformá-lo. Ainda pensa assim? Não tem vontade de mandar reformar?
O meu desejo, que eu hoje reafirmo, é ver o monumento a exibir as marcas da violência que se fazia presente naqueles tempos sombrios.

Como o senhor se sente chegando aos 100 anos e ainda tendo de ouvir dos jornalistas a pergunta: Quais são os seus projetos para o futuro?
Sinto-me muito bem. Estou numa fase especialmente feliz de minha vida pessoal e profissional. Não me faltam projetos de arquitetura.

3 Respostas para "Oscar Niemeyer"

Do caralho a entrevista!
Achei as perguntas muito boas. Essa sacada do final foi genial! “Pergunta embutida”!
Sensacional, como diria o primogênito lá em casa!

Todas as obras de Oscar neimeyar é visivel as mãos divinas. Lamento se ele não acredita em DEUS. Pois assim suas obras se tornam sem sentido.

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