Entrevista que fiz com o cantor Fagner, no dia 04/08/2008 para o Jornal da Tarde.
Ao lançar um DVD com o show histórico que fez em 2000, no Ceará, para mais de 40 mil conterrâneos, o cantor manda broncas e não deixa pedra sobre pedra.
Bossa Nova, além de não ser música brasileira, é coisa de mauricinho. Gilberto Gil deveria ter feito bem mais do que fez no Ministério da Cultura. O Calypso é a vingança do Norte contra a Bahia. As palavras de Fagner vão cortando em tiras a carne de seus alvos e fazendo a entrevista que tinha como mote o lançamento de um DVD gravado ao vivo em Fortaleza, em 2000, ganhar vida própria e ir por outros caminhos. O cantor vendeu, na época, mais de 700 mil cópias do CD do mesmo show, Fagner Ao Vivo. O artista que se define como ‘chato’, critica tudo o que considera ‘criticável’. Sem receios de desafetos.
Quando diz que falta qualidade na música, a que se refere?
A música ficou mais dançante, feita para que dêem pouca atenção ao que se diz. Está cheia de chavão. Não requer qualidade, ficou simplória.
Faltam artistas de qualidade no Norte e Nordeste?
Falta no Brasil todo. Norte e Nordeste, pelo contrário, abastecem o Brasil. O Zeca Baleiro é um talento. Sempre surge gente do Nordeste com qualidade, como o Lenine.
E fenômenos como o Calypso?
Eles fazem uma música que vem na esteira da dança. Fazem uma coisa de carimbó misturada com lambada. É música de espetáculo. Não é forró autêntico, são forrós envenenados, têm seu valor como espetáculo e como movimento de multidão. Hoje há muitas bandas de forró que arrasam, mas não têm qualidade. O próprio axé faz a meninada dançar. E só.
E isso prejudicaria o mercado como um todo?
Cada um tem seu espaço. (O Calypso) é a vingança do Norte contra a Bahia. A Bahia invadiu a praia do Norte fazendo micareta. Hoje, as bandas de forró estão no lugar do axé. Aviões do Forro e o Calypso dividem espaço.
Os artistas se omitem ao não contestarem a política do governo?
Estão acomodados. Falta um pouco de indignação, estão todos sem ideologia, a juventude está correndo atrás de trio elétrico. Antes, corria atrás do impeachment do Collor. É um momento político frágil, sem lideranças. Na música, todos estão comportados atrás de financiamento de leis e ficaram com medo de fazer críticas ao ex-ministro Gilberto Gil.
A que atribui esse comodismo?
A uma alienação. Falta de estímulo para questionar as coisas. A juventude está indo na esteira de um tipo de música para dançar. Todo prefeito do Brasil fica fazendo micareta. O País está alienado. A micareta é a grande força da alienação.
Você chamou Gilberto Gil de Pôncio Pilatos. Por quê?
Ele é um músico, um artista de importância grande. Na época de sua gestão, houve coisas para serem questionadas, como a queda do mercado de música no País. Houve projetos para redução de impostos nos quais ele não se envolveu. O Gil não se meteu. Ele, como artista e ministro, tinha de se envolver nisso. Foi omisso e, ao mesmo tempo, fez agenda de artista (enquanto era ministro). Precisamos de um ministro que lute, porque esta é uma luta inglória.
O senhor é contra a internet?
Sou contra as pessoas baixarem música de graça. A música, para chegar ali, teve gasto. Tenho iPod mas nunca usei. Comprei nos EUA. É fantástico ver as pessoas ouvindo tudo, mas que isso seja legalizado. Ainda tenho muitas fitas cassete.
Nunca se ouviu tanta música como hoje…
Ilegalmente. Se for legal, melhor. O disco é muito caro no Brasil, hoje se grava com menos investimento. Poderiam baixar os preços, mas isso tem de vir de cima para baixo.
No futebol, você atua como centroavante. Escalaria o Chico Buarque para o seu time?
O Chico é muito meu amigo, mas prefiro jogar contra ele. Ele tem uma maneira de administrar o time diferente. Temos leituras diferentes.
Isso quer dizer o quê?
Sou um jogador indisciplinado. Meu time é mais emotivo. Ele é tático, mais cabeça.
E o Ceará, tem condições de sediar jogos da Copa do Mundo?
Fortaleza é séria candidata a ter jogos da Copa do Mundo, é a porta da Europa. A politicagem é grande, mas temos cacife para isso. A CBF está com a corda no pescoço porque a pressão política vem de todos os cantos.
O governador do Ceará Cid Gomes tem cacife para trazer a Copa?
Ele é um governador novo, mas tem de rebolar também. O Cid faz coisas legais, apesar do episódio da sogra (Cid levou a sogra para passear em viagem oficial). O (seu irmão) Ciro Gomes sempre aparece como presidenciável e, aí, os paulistas aproveitam para bater nele por causa disso. Lamentável esse episódio da sogra. Ele foi ingênuo e poderia ter se tocado de que o Ciro é um alvo fácil.
Em sua opinião, que artista merece reconhecimento nacional e ainda não tem?
O Patativa do Assaré é o maior poeta do Brasil. E o Francisco Carvalho faz parte do rol dos maiores poetas da língua portuguesa.
Mais alguém?
O Zeca Baleiro, quando tira as coisas do espaço dele. Quando começa a fazer regravações, ele se perde.
Quem hoje ‘dorme no ponto’?
Bastante gente. A Bossa Nova é uma coisa fantástica, mas aturá-la durante um ano inteiro? É mole?
Enjoou da Bossa Nova?
Foi uma elite que a fez. Não é música autêntica brasileira, nunca vendeu no País. Falemos de música brasileira.
Músicas de Jobim e Vinicius não são brasileiras?
Vinicius foi o primeiro e único e Tom é gênio, mas não eram Bossa Nova, eles criaram canções. Aquele foi o melhor momento da música brasileira, mas o que eles fizeram não foram canções brasileiras. Eles são gênios. O movimento inteiro dizia ser Bossa Nova, com aquela batidinha.
E o João Gilberto?
Endeusam demais. Fez aquilo e ficou naquilo. Parou de criar, é o eleito da nata. Não se compara a Tom e Vinicius, que tiveram uma obra vasta. São melhores que João, produziram mais. É meu gosto e não se discute. Bossa Nova é música de mauricinho.
Há muitos conflitos entre músicos e a TV Globo. Passou por isso?
A Rede Globo é uma coisa, as pessoas que trabalham dentro dela são outra. Tenho minhas divergências com pessoas que estão lá e não gostam de trabalhar, mas não é com a Globo em si.
Em algum momento você foi prejudicado por essas pessoas?
Não sirvo a determinados interesses. Questiono, sou chato e cobro quando caricaturam o Nordeste, como nesse especial do Luiz Gonzaga (feito em maio pelo programa Som Brasil). Fizeram o velho se remexer no túmulo. É preconceito contra o Nordeste. A festa do Prêmio Tim (também em maio) para o Dominguinhos foi ridícula. Botaram pessoas cantando sem o menor compromisso. Não fui, recusei. Foram convidadas pessoas que estão em qualquer lugar e que não participaram da vida dele. Desafinaram e erraram as letras, são artistas que têm por trás diretores da Globo faturando em cima. Não querem perder essa mamata. A festa do Dominguinhos foi uma festa de penetra.
Você se considera polêmico?
Sou chato.
E a história de ser parecido com o beatle George Harrison, os planos de fazerem um show ? É real?
Iríamos nos encontrar e não conseguimos. Seria em Los Angeles, em 1979. Lamentei profundamente. Sobre ser parecido, é até possível, somos dois feios e magros. O George Martin (produtor dos Beatles) iria produzir um disco meu e eu não aceitei, foi um erro. Sou fã dos Beatles.
Por que não aceitou?
Tinha me comprometido com o Lincoln Olivetti e, para não faltar com a palavra, não fui. Foi bobeira, a maior burrice da minha vida.
[...] Clique aqui para ler a entrevista completa que fiz com o músico Raimundo Fagner [...]
seu amor é cebola cortada meu bem que logo me faz chorar cebola cortada fagner.
daqui a pouco mpb vai virar a casa da mãe joana entra Agnaldo Timóteo entra Rick E Renner entra Mamonas Assassinas e entra Amado Batista há há há há!
fagner é o furação da mpb.
2 Julho 2009 às 3:08 am
uma das melhores músicas do fagner é cebola cortada com letra como seu amor é cebola cortada meu bem que logo mee faz chorar seu amor é espinho de mandacaru que gosta de arranhar seu amor é cachimba meu bem que gosto de espiar.