
‘Tenho a pretensão de escrever a história da música brasileira’
Conhecido hoje como o pai do governador do Rio, o ex-crítico carnavalesco e ex-produtor cultural se dedica a biografar as grandes figuras da música nacional
Por: Felipe Branco Cruz
Carioca e vascaíno, o jornalista Sérgio Cabral, pai do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, já se acostumou com o fato de o filho, hoje em dia, ser mais conhecido do que ele. Depois de se aposentar como crítico carnavalesco e produtor musical, o jornalista se dedica exclusivamente à pesquisa de grandes músicos. “Tenho a pretensão de, por meio destas biografias, escrever a história da música brasileira”, diz. Tanto é que, no fim de 2008, Cabral relançou pela editora Lazuli os livros sobre Tom Jobim e Nara Leão, figuras com as quais manteve relacionamento muito próximo. Por telefone, o pesquisador ainda falou ao JT sobre política, funk e o rebaixamento do Vasco para a segunda divisão.
Voltará a surgir no Brasil um movimento tão expressivo quanto a Bossa Nova?
Condições para isso nós temos. O Brasil continua a produzir talentos. Nossa música está cada vez mais rica e variada. Temos uma das melhores, se não a melhor, música do mundo. Mas eu não sou capaz de adivinhar o futuro. Fui produtor de discos e toda vez a gravadora me perguntava se o disco seria um sucesso. Eu respondia: “Quando souber disso, eu abro uma gravadora e fico milionário.” Eu não tenho a menor ideia do que vai fazer sucesso. Não sei prever o futuro. Mas acho que pode surgir, sim, um novo movimento.
A conjuntura da época era favorável para o surgimento da Bossa Nova?
Sim. A Bossa Nova foi o resultado de um trabalho que já vinha de muito tempo. Desde 1930 a música brasileira passa por uma evolução e um enriquecimento. Por exemplo, Ary Barroso e Noel Rosa estavam um passo à frente. Rosa, quando menino, viu publicada na revista Fono-Arte uma crítica de sua música Com Que Roupa que a chamava de revolucionária. Rosa conseguiu fazer um casamento da letra e das rimas com o ritmo que ninguém havia feito na história do Brasil. Hoje, escutamos Com Que Roupa sem nenhum frisson, mas já foi uma coisa absolutamente nova. Outro exemplo é o samba Inquietação, de Ary Barroso, de 1933. É uma harmonia absolutamente moderna para a época. Ninguém fez igual. E a história vai se sucedendo, com Dorival Caymmi, Geraldo Pereira, Custódio Mesquita, Garoto e Radamés Gnattali. Com o Ruy Castro, eu participei de uma mesa redonda na Academia Brasileira de Letras e ele disse que a Bossa Nova iria acontecer de qualquer jeito naquela época, mesmo que não fosse da maneira que conhecemos hoje.
Por que relançar as biografias de Nara Leão e Tom Jobim?
Mudei de editora e a nova vai reeditar todos os meus livros. Os dois foram escolhidos por conta dos 50 anos da Bossa Nova.
Já existem muitas biografias de músicos brasileiros. Por que ainda não temos nenhuma de João Gilberto?
Sei que a amiga dele, a Edinha Diniz, autora de uma maravilhosa biografia da Chiquinha Gonzaga, andou pensando em fazer a biografia do João. Mas, pelo visto, está sendo bem difícil. Nisso eu não me meto, até porque eu não escrevo biografia de gente viva. Às vezes, o próprio artista me pede para escrever a biografia dele e a minha resposta é que só escrevo de gente morta. Digo: “Espero que você tenha muito tempo de vida.”
O senhor é biógrafo ou repórter?
Sou repórter. Descobri que a biografia é um jeito de continuar sendo repórter. Com a vantagem de que eu escolho o ritmo que eu quero. Adoro quando alguém faz uma análise dos meus livros e diz que há um excesso de dados. O que eles usam como restrição, eu encaro como elogio. Muitos dos meus biografados foram meus amigos. Convivi com eles. O único com quem não convivi e gostaria de ter escrito uma biografia foi Noel Rosa. Eu não o conheci porque ele cometeu comigo a indelicadeza de morrer 23 dias antes de eu nascer.
Um projeto de lei em tramitação na Assembléia Legislativa do Rio que propõe definir o funk como movimento cultural ganhou na semana passada repercussão internacional. O que acha do funk carioca?
Existe projeto disso? É uma bobagem. Os parlamentares se dão ao luxo de cometer cada bobagem, mesmo os deputados mais sérios. Não existe funk carioca. Ele não é carioca, ele é americano. O funk apenas estourou na favela. Existem várias coisas cariocas: o choro, o maxixe, o samba carioca, a bossa nova, a marchinha carnavalesca… Para que pegar o funk? O funk é americano.
Não tem simpatia pelo funk?
Não é isso. Funk é igual ao twist. No meu espetáculo teatral Sassaricando, os atores cantam a música: “Mulata bossa nova, caiu no huly-guly.” Você sabe o que é huly-guly? É o funk da época. Essas músicas passam. Algumas demoram mais, outras menos. O funk não vai ficar. Tudo que é moda importada não demora muito. O que fica é o que é da nossa tradição, da nossa cultura, da cabeça e do coração do brasileiro. O chorinho, por exemplo, nasceu em 1870 e é uma música difícil de tocar. Para ouvir a pessoa precisa ter uma certa sensibilidade musical, para perceber sutilezas. O choro é patrimônio nosso e está aí desde 1870.
Está desanimado com o carnaval deste ano?
Desanimado, não. Estou aposentado. Sou um folião e cronista carnavalesco aposentado. Não trabalho mais no carnaval como trabalhei por mais de 30 anos.
Está por dentro do carnaval de São Paulo?
Não conheço bem. Quando morei em São Paulo, em 1972, frequentei escolas de samba e vi que as coisas estavam crescendo. O que eu sei é que São Paulo está dando grandes sambistas. Tem coisas maravilhosas acontecendo, como, por exemplo, o Quinteto em Branco e Preto.
A aposentadoria fez com que você parasse com suas pesquisas sobre música?
Não. Parei de trabalhar para jornal, televisão, etc. Mas eu estou escrevendo a biografia do Ataulfo Alves. Eu tenho a pretensão de contar a história da música brasileira por meio de suas grandes figuras. Nessa história, não poderia faltar o Ataulfo. Além disso, quero com ele resolver um problema pessoal. Eu acho que, quando eu escrevia em jornais, dava muita força para o Carlola, Zé Keti, e não para o Ataulfo. Além disso, o centenário do Cartola foi comemoradíssimo e este ano é o centenário do Ataulfo. Não quero que ele fique esquecido.
Quando a gente digita no Google ‘Sérgio Cabral’, não aparece mais nada do senhor, só do seu filho…
Há um Sérgio Cabral mais famoso do que eu. Eu escrevo aos domingos no jornal Lance!. Propus aos editores que eu passasse a assinar “Sérgio Cabral, o pai”, com vírgula e letra minúscula mesmo. Mas eles não concordaram.
Como é passar a ser reconhecido como o pai do seu filho?
Estou acostumado. Na verdade, a gente passa a vida querendo que nossos filhos sejam melhores do que nós. Felizmente, eu consegui.
O governador do Rio defende idéias polêmicas, como a legalização do aborto e das drogas. O que pensa disso?
Concordo com tudo o que meu filho fala. Eu torço muito por ele.
Como carioca, não tem críticas naturais ao governo?
Mais do que tudo, ele é meu filho. Não tenho críticas.
Ele passou a ser um dos postulantes à presidência da República?
Ele é candidato à reeleição do governo do Rio de Janeiro… Se ter um filho governador já me deixa todo metido a besta, imagine ser o pai do presidente da República…
Como encarou o rebaixamento do Vasco, seu time?
Foi uma grande tristeza. Telefonei para amigos corintianos, tricolores cariocas, botafoguenses e palmeirenses para saber como me comportar. Me disseram que dói na hora, mas depois a gente se acostuma. O clube foi muito mal administrado pelo Eurico Miranda. O novo presidente, Roberto Dinamite, tinha que assumir o lugar do Eurico mesmo.
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17 Março 2009 às 10:49 am
Terminei de ler a biografia do Tom, de fato é um capítulo para a construção da história da música brasileira.
Apenas não sei se o autor leu a edição do livro que está sendo comercializada: existem erros grosseiros de digitação, concordância, nomes de pessoas e datas, que por vezes comprometem até o sentido do texto…tão grosseiros que duvido que tenham sido cometios pelo autor…lamentável.
Gostaria que essa informação chegasse até ele, tenho “compilados” os horrorres pra ilustrar a tragédia!
Silvana