Simone

‘Eu tenho alguns recordes que até hoje ninguém bateu’
Por: Felipe Cruz
Com mais de 30 anos de carreira e prestes a fazer 60 de idade, a cantora Simone lança, após cinco anos, seu primeiro disco de inéditas. O trabalho traz composições de Adriana Calcanhotto, Erasmo Carlos, Martinho da Vila e Marina. E, pela primeira vez, surge uma música própria da cantora, feita em parceria com Hermínio Belo de Carvalho. Simone recebeu o JT em uma suíte do Hotel Copacabana Palace na última quinta-feira, no Rio. Falou de música, mas também revelou suas crenças espirituais sem medo de ser feliz.
O que é melhor, canção de quem sofre ou de quem é feliz?
Eu geralmente canto coisas que vivi ou gostaria de ter vivido. Quando você está feliz, as pessoas percebem que você está bem. Mas há canções como a do Roberto Carlos, que diz ‘Você foi…’ (Detalhes). Mesmo que esteja vivendo uma relação maravilhosa, emociona.
Já que falou do Roberto. Você não foi convidada para participar do show em homenagem ao Rei, no Teatro Municipal?
Não me convidaram. Somente depois que dei uma entrevista para um jornal de São Paulo é que vieram falar comigo. Disse para eles que se eu tivesse sido convidada antes eu teria tempo para pedir autorização ao meu patrocinador (Banco Bradesco) que é concorrente do Roberto (Itaú) .
No palco você só se apresenta de branco. E as outras cores?
Gosto do azul, amarelo, rosa e lilás. Há mais de cinco anos que eu só uso jeans. Tenho vários. Em apenas duas ocasiões eu não usei jeans. No casamento da Ana Maria Braga e no do Faustão. Optei por isso. É mais prático. Se me convidam para um evento e eu não puder ir de jeans, então prefiro nem ir. A única cor que não uso é preto, mas estou tentando usar. O marrom eu até uso, com um casaco. Agora, para cantar, tem de ser branco.
Algum significado espiritual?
Sim. Dentro da Fraternidade Branca (espécie de religião de Simone), a cor significa pureza em ascensão. Dentro da Fraternidade, eu sou filha do mestre Serapis Bey (quarto raio). Se eu fosse do Candomblé, coisa que eu nunca fui, apesar de ser baiana, eu seria filha de Oxalá, de frente e de costas. E tudo remete a Jesus. São coincidências, como por exemplo o fato de eu ter nascido à meia noite do dia 25 de dezembro.
Como descobriu a Fraternidade Branca?
Foi na década de 70, no Rio de Janeiro, com o guru Mário Trancoso, no templo Gotas de Orvalho. Acredito na espiritualidade. Acho que Deus está em todas as coisas da natureza. Deus não faz mal, não é vingativo. Ele está aí para todo mundo. As principais coisas da vida são de graça.
Você sempre foi muito espiritualizada?
Quando criança eu via coisas projetadas. Sabe? Crianças projetadas na parede. Eu via essas crianças. Nunca frequentei nada. Sou uma pessoa completamente virgem em religião. Não sei se tinha medo. Minha mãe era muito católica e vivia rezando. Minha família me levava para a igreja e lá dentro eu vomitava e desmaiava durante a missa. Mas era por causa do calor da Igreja do Bonfim, em Salvador. Mandavam eu ficar de jejum para comungar e eu não aguentava, ou me davam muita coisa para comer, aí eu botava tudo para fora. Nunca fui de ajoelhar para rezar. Deus não é aquele que aponta e diz que tudo é pecado e manda você pagar uma prenda. Deus não castiga nada. Deus é bom. Nós é que não somos.
Conta melhora essa história de ver as coisas projetadas.
Eu via e escutava.
Ainda hoje?
Sim, até hoje eu vejo. E digo para eles: se é para o bem fique. Se não, vá embora.
E essas visões já lhe deram algum conselho?
O meu guru Mário (Trancoso) me disse que eu ouviria vozes. Hoje escuto uma apito intermitente no meu ouvido que ficou após eu ter tido uma queda de pressão em Nova York. Eu sou muito sensitiva.
E no palco?
Às vezes eu sei como vai ser o show. Tudo depende das pessoas. Se eu sou chata e o cara que está na minha frente é chato, então não rola. Se a energia está fluindo as coisas fluem também. É tudo energia. Se você acordar e dizer que o dia vai ser uma merda, ele vai ser. Não dá para ficar puxando tudo para baixo. Se você pensar o contrário, levar as coisas pelo lado bom, então melhora. É uma via de mão dupla. É como ressaca. Bebeu demais, vai acordar mal.
Por que só agora a escolha por gravar uma canção própria?
Porque eu sou uma pessoa muito insegura. Admito que não domino o violão. Não sei também se é uma coisa de exposição pessoal ou se é algo que eu realmente não sei fazer. Eu não ando com um gravador na mão para registrar todas as ideias que tenho o tempo todo. A canção Vale a Pena Tentar, que gravei só agora, eu fiz há muito tempo em resposta à música Proposta, do Roberto Carlos. Mandei a canção para o Roberto e ele disse que gravaria, mas acabou não gravando. Um dia eu estava tocando essa música no violão. Mostrei para duas pessoas que gostaram e criei coragem. Não acho que ela seja uma bobagem. A letra e a melodia são bonitas e se encaixam no contexto do meu disco, apesar de percebermos que ela não foi feita hoje. Jamais a colocaria no disco só porque fui eu que compus.
E por que não compõe outras músicas?
Talvez, se eu me dedicasse mais. Eu até tentei compor e pensei em mostrar para o Ivan Lins. Mas em seguida pensei que ele é um cara com uma criatividade louca e faz coisas deslumbrantes. Ele tem mais o que fazer do que ouvir minhas composições. Como é que eu vou ter a cara de pau de chegar para ele e mostrar? Não vou não…
Ficou mais fácil fazer música?
Sim, tanto para gravar, fazer vídeos, divulgar. Mas acho que nada substitui você ter o disco na mão. Eu fiquei um tempão elaborando, pensando nele. Não dormia, tinha dor de barriga, me irritava, tinha minhas crises, ia para análise, o cabelo ficou branco. Aí o disco fica pronto, e eu que gravei ainda nem o tenho na mão, mas já é possível baixá-lo na internet. Como é que isso acontece? Me sinto uma palhaça, tem muita coisa envolvida na criação de um disco. É como um jornalista escrever o texto e outra pessoa e assinar por ele.
Você tem mais de 40 músicas em trilhas sonoras de novela…
Eu tenho tudo isso? É muita coisa. Mas é ótimo se tiver música na novela. Ela ajuda muito a divulgar o trabalho. Não sei se ajuda a vender mais, mas que divulga, divulga. Não temos mais os grandes especiais para nos apresentar.
Você está há um bom tempo sem aparecer na mídia. Por quê?
Só quando lanço disco. Vou ao Serginho (Groisman), ao Faustão, na Hebe. Antes tínhamos os especiais de fim de ano na televisão, hoje não mais.
Sente falta disso na TV?
Sem dúvida que esses programas poderiam ajudar a música nacional. O País é musical. Temos o programa Som Brasil, mas ele é exibido às 2h da manhã. Quem assiste nesse horário? Eu já estou dormindo e os jovens estão saindo para a boate. Na minha época voltávamos para casa às 2h da manhã. Agora é o horário que os jovens saem. No Faustão é mais difícil de ir. Vou dar um toque nele. Tenho o celular dele (risos).
Na década de 80 você bateu recordes. É possível repetir os feitos?
Lotei durante nove dias seguidos o Ginásio do Ibirapuera, levei 35 mil para o Mineirinho e 220 mil para a Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Mas hoje eu não conseguiria mais algo deste tipo. O cenário mudou. A Ivete pode fazer isso. O Zezé di Camargo & Luciano também. Da Bahia, o Chiclete com Banana consegue. Mas eu fiz história e alguns recordes até hoje não foram batidos. Só no Rock In Rio que juntaram 200 mil pessoas.
Por falar em Rock In Rio, uma vez você disse que ficou impressionada com a performance de Angus Young, guitarrista do AC/DC, durante o festival.
Como ele consegue balançar a cabeça daquela forma? Como ele não quebra o pescoço. Que energia. O que eu soube é que tem roqueiros loucos e outros caretas. Ele é careta, não?
Estão cogitando trazê-los novamente. Você iria ao show?
Só se for com protetor auricular. Uma vez eu fui a uma boate e tive que sair para comprar uma massinha para por no ouvido. O chão tremia. O que era aquilo? Como as pessoas conseguem? Quando eu saio de um show meu, demoro para dormir… Essa garotada vai perder a audição muito cedo. É impossível resistir à quantidade de som que é jogada na sua cabeça. Mas não adianta falar, os jovens vão continuar fazendo isso.
Quando você era mais jovem, foi apadrinhada por alguns músicos da MPB. Hoje, aos 59 anos, não pensa em apadrinhar um novo talento?
Sem dúvida. Uma vez eu tentei fazer isso junto com o Faustão. A minha ideia era gravar um disco só com músicas de novos compositores. Pedi para que me mandassem fitas K7 e essa sala (apontando para o hall do quarto de hotel com aproximadamente 10m²) ficou lotada até o teto de material. Mas nenhuma delas deu para aproveitar. Mandaram qualquer nota. A única pessoa de quem eu fui madrinha foi o Neguinho da Beija Flor. Mas acho importantíssimo que os veteranos apadrinhem os artistas mais novos.

Adorei essa entrevista, foi direta, e me deu informações complementares dessa grande artista, que é Simone Bittencourt. To ansioso para ouvir um proximo disco dela, mas nessa vez, no ano de dois mil e dez, ela tem que lançar um disco com novos compositores, o que deixaria sua carreira ainda mais brilhante como é. valeu.
A cantora Simone pra mim é uma Deusa. Existe uma música interpretada por ela, que a considero uma oração. Um dia se eu tivesse o privilégio de encontrar com ela, pediria para cantar a música YOLANDA. Me faz lembrar o nascimento de uma filha, aliás tivemos só duas. A lembrança é da mais velha. É uma hist´ria muito bonita que fizemos da música com a nascimento da filha
Valeu mesmo
pedro