Teatro no meio do mundo
Matéria originalmente publicada no Jornal da Tarde e no O Estado de S.Paulo
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Por: Felipe Branco Cruz
Durante 35 dias, cinco integrantes do Coletivo Teatral Sala Preta, de Barra Mansa (RJ), enfrentaram drásticas mudanças de temperaturas, que variavam de 7ºC a 34ºC, ônibus lotados, caminhões, barcas e pequenos botes, viajando pela Floresta Amazônica, pelos Andes e região litorânea, numa viagem pela área fronteira entre o Equador e a Colômbia. Foram mais de 700 quilômetros de percurso, com a finalidade de realizar oficinas culturais e encenar peças teatrais para adultos e crianças que vivem em povoados esquecidos por órgãos públicos e vitimados pela violência do conflito armado colombiano. O objetivo do grupo, que acaba de voltar dessa aventura: levar cultura a esses lugares e chamar a atenção para a questão dos Direitos Humanos.
Essa não é a primeira vez que a trupe – composta pelos atores Suzana Zana, 25 anos, Danilo Nardelli, 24, Bianco Marques, 24, Marcelo Bravo, 24, e Rafael Crooz, 24 – viaja ao Equador em missão cultural. No ano passado, eles foram até o país para participar da Red Ecuatoriana de Festivales, mostra internacional que passou há um ano por cidades como Manta, Guayaquil e a capital Quito. Foi nessa época que conheceram os integrantes da Humor y Vida, uma ONG equatoriana. “Recebemos o convite deles para voltar este ano, para a Revuelta a la Mitad Del Mundo por Una Cultura de Paz”, diz Rafael Crooz.
A Revuelta, cuja quarta edição foi realizada no mês passado, é um projeto que busca fomentar intercâmbio cultural, promover a cidadania, a paz e integração social, proteger o meio ambiente e combater qualquer tipo de discriminação e xenofobia por intermédio das artes audiovisuais, cênicas e circenses. O grupo percorreu localidades como El Palmar, Puerto el Carmen, Lago Agrio, Túlcan, Chical, San Lorenzo e Palma Real, oferecendo oficinas de arte. Além dos brasileiros, a caravana incluiu um espanhol, um surinamês, quatro colombianos e um equatoriano.
“A sensação de iminente conflito por lá é real”, diz Crooz. Logo na primeira parada do grupo, em El Palmar, eles puderam sentir isso. O local fica a 20 minutos de carro do lugar onde o líder guerrilheiro colombiano das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Raúl Reyes, foi morto, em 2008, após uma ação do exército da Colômbia dentro do território equatoriano. “Fomos avisados para não manifestarmos posições políticas, porque poderia ser perigoso”, completa Crooz.
Nsses pequenos vilarejos – raramente, com mais de 2 mil habitantes –, não há água encanada, rede de esgoto, escolas, hospitais ou qualquer outra presença do Estado. Durante a expedição, os brasileiros comiam apenas frutas, enlatados e peixes. Por onde passava, o Coletivo Teatral Sala Preta encenava a peça infantil O Cascudo Douradinho em: Amiga Lata, Amigo Rio, de Thiago Cascabulho, sobre um peixe cascudo que vive num rio poluído. “Adaptamos a peça para o espanhol. Toda a fronteira com a Colômbia é definida por rios, como Putumayo e San Gabriel”, conta Bianco Marques.
Animais no ônibus
Na bagagem de volta, o grupo trouxe histórias e experiências. Uma delas ocorreu entre as localidades de Tulcán para Chical, percurso que eles fizeram num caminhão do exército, descendo dos Andes, a uma altitude de 4.723 metros acima do nível do mar. “A estrada margeava as montanhas e a roda do caminhão ficava perto da beira do penhasco”, lembra Danilo Nardelli. Antes de entrarem no caminhão, o capitão ordenou ao motorista que não parasse em nenhuma hipótese. “A ordem não foi cumprida e com isso paramos em lugares belíssimos dos Andes”, explica Marcelo Bravo.
Em cada cidade, eram recebidos com frutas e alimentos pela população. E entre os presentes ganharam três galinhas (uma delas batizada de Carmen Sancocho) que não tiveram coragem de matar. Os animais, então, passaram a viajar com eles no ônibus.
A parte mais difícil da viagem, no entanto, ficou reservada para o último povoado: Palma Real, que fica no meio de um rio e em cima de um mangue. “O mangue era repleto de excrementos humanos e de animais e lixo que os moradores jogavam. A população vive em palafitas e não existem ruas, e sim pontes de madeiras que ligam as casas”, lembra Crooz.



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