Arquivos do Blog

Edgar Allan Poe é retratado como homem perturbado em ‘O Corvo’

Por Felipe Branco Cruz

A causa da morte do escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) sempre esteve envolta em mistério. O que se sabe é que ele foi encontrado delirando pelas ruas de Baltimore, nos EUA, vestindo roupas que não eram suas. Quatro dias depois, ele morreu. Durante esses derradeiros dias, suas últimas palavras teriam sido: “Está tudo acabado”, “Escrevam Eddy já não existe” e “Reynolds”.

Tomando como base a misteriosa morte de Poe, o longa O Corvo, dirigido pelo australiano James McTeigue, chega aos cinemas na sexta-feira (18), com John Cusack (de Alta Fidelidade) no papel do próprio escritor. O título tem como inspiração o nome de um dos poemas mais famosos de Poe, mas o roteiro do filme se apropria também de outros de seus contos de horror para acompanhar os cinco dias que antecedem a morte do autor, quando sua namorada é sequestrada por um serial killer. Junto com um detetive, ele percorre as ruas de Baltimore à caça do assassino.

O longa, porém, é uma obra de ficção. Poe nunca teve uma namorada sequestrada nem perseguiu bandidos. No entanto, em 40 anos de vida, sua prodigiosa imaginação produziu uma série de contos e poemas de horror, policiais e de suspense que inspiraram autores como Sir Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e Stephen King.

Considerado um dos maiores nomes da literatura americana, Edgar Allan Poe é o escritor de língua inglesa que mais teve seus escritos adaptados para o cinema – mais de 200 filmes -, perdendo apenas para William Shakespeare e Charles Dickens. Um dos diretores que mais adaptou suas obras foi Roger Corman, de 86 anos, famoso por seus filmes B e que levou às telonas oito títulos com a marca de Poe.

Um perturbado escritor
Cusack interpreta um Poe perturbado por suas histórias e por um bloqueio criativo, causado pela bebida e pela morte por tuberculose de sua primeira mulher. Sua vida só começa a voltar aos eixos quando ele conhece a nova namorada, Emily Hamilton (Alice Eve). Só que ela é sequestrada pelo serial killer, o que causa mais uma reviravolta em sua vida.

O longa não é uma adaptação literal do poema O Corvo, apesar de citar algumas passagens dele. Na realidade, o filme reproduz as principais cenas de morte tiradas dos seguintes contos do romancista: A Máscara da Morte Rubra, quando o anfitrião é morto em uma festa; Os Assassinatos da Rua Morgue, quando mãe e filha são mortas de forma violenta; O Poço e o Pêndulo, quando um homem é cortado ao meio por uma lâmina suspensa num pêndulo; e O Coração Denunciador, quando a vítima é enterrada viva embaixo de uma casa.

Mais ou menos na mesma época de Poe, na França, Julio Verne começou a lançar seus primeiros livros. Os dois autores, atualmente, são considerados os pais da literatura fantástica e de ficção. Há, inclusive, uma citação a Verne no longa, com um dos personagens perguntando a Poe se ele conheceu o autor francês.

O resultado é um filme de suspense que remete visualmente à franquia de filmes de Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr. no papel principal. Mas esse clima tem fundamento. Poe, na vida real, cursou a academia militar de West Point (do qual foi expulso), conhecia algumas técnicas de luta e sabia manusear armas. Portanto, não é de estranhar a figura franzina do escritor cavalgando e atirando em um maníaco.

Quem não conhece Poe, depois de mergulhar no universo sombrio e sangrento do filme, deve sair da sala de cinema com vontade de comprar a coletânea Contos de Terror e Mistério, que reúne boa parte dos casos apresentados em O Corvo.

Uma grande loucura em alto mar

Por Felipe Branco Cruz
De Las Vegas* 

Um pirata azarado do século 19, cujo grande sonho é ganhar o cobiçado prêmio Pirata do Ano, é o personagem principal da animação em 3D Piratas Pirados!, que estreia nesta sexta-feira (11). O longa é produzido pelo tradicional estúdio inglês Aardman, fundado em 1973 por Peter Lord e David Sproxton. Dentre os trabalhos mais conhecidos do estúdio estão A Fuga das Galinhas (2000) e Wallace & Gromit em A Batalha dos Vegetais, que ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2006.

Acompanhado de um bando de fiéis e loucos seguidores, o pirata Capitão (sim, esse é o nome dele, dublado por Hugh Grant), terá de enfrentar os terríveis Black Bellamy (Jeremy Piven) e Cutlass Liz (Salma Hayek) na disputa pelo cobiçado prêmio. Além disso, os oceanos não são seguros para a navegação, pois a Rainha Vitória (Imelda Staunton) sonha em exterminar piratas do mundo. O filme é baseado no livro de Gideon Defoe, The Pirates! in an Adventure with Scientists.

O diretor Peter Lord e o ator Hugh Grant receberam o JT em Las Vegas, onde contaram sobre como produziram o filme e se divertiram no processo. A técnica utilizada, de stop-motion (onde cada movimento dos personagens, feitos de massinha de modelar, é filmado quadro a quadro) é a mesma que deu ao estúdio o Oscar em 2006, por Wallace & Gromit, produzido por Lord. O diretor levou à entrevista o boneco original do pirata Capitão, usado nas filmagens, de 30 cm de altura e totalmente maleável. “Optamos pelo 3D por motivos comerciais, mas fiquei feliz em experimentar essa opção”, comentou. Como resultado, os bonecos ganharam uma dimensão mais real. “Na telona, fica mais verossímil de que eles tenham o tamanho de atores reais”, diz Lord.

Este foi o primeiro trabalho de Hugh Grant com animação. O ator já tinha sido convidado, pela própria Aardman, para dar voz a Roddy, de Por Água Abaixo (2006). Mas o papel acabou com Hugh Jackman. “O roteiro de Piratas Pirados! foi um dos mais engraçados que já li. Um humor bastante inglês”, diz. “E é incrível não me preocupar com meu rosto. Não precisei acordar às 4h da manhã para fazer maquiagem”.

No roteiro, o pirata Capitão navega pelos oceanos e encontra, em suas aventuras, o histórico HMS Beagle, que levou Charles Darwin (dublado por David Tennant) a fazer suas explorações e descobertas científicas ao redor do mundo. Darwin, que é mostrado como um nerd chato, decide ajudar Capitão apenas porque percebe que ele tem em seu navio um exemplar raríssimo da ave dodô (extinta em 1681). Ou seja, tratava-se do último exemplar de uma ave exótica, e uma chance para Darwin se tornar famoso. Para o Capitão, no entanto, seu dodô não passava de um papagaio um tanto diferente.

O tom satírico dado a personagens históricos se estende à Rainha Vitória, uma mulher descontrolada que só fica satisfeita cortando cabeças de piratas. “Não sei se a rainha Elizabeth II ficou ofendida por apresentarmos a Rainha Vitória de uma forma não tão adorável. Mas acho que ela nem viu o filme”, diz o diretor. Apesar de o enredo mostrar o pirata Capitão como um homem inocente, com gestos e ações voltados ao público infantil, a animação é repleta de piadas de duplo sentido, que só serão captadas pelos mais velhos na plateia. Para Grant, algo que não compromete a diversão geral. “As crianças entendem a situação, mesmo se não entendem uma piada por completo”, disse. “Quando namorava Elizabeth Hurley, em 1997, fomos ver Austin Powers. As crianças riam muito, mesmo sem captar a relação com James Bond no filme”.

Divertido, inocente, com ótimas sacadas, o filme tem grandes chances de fazer sucesso de bilheteria, assim como aconteceu com A Fuga das Galinhas, que rendeu US$ 224 milhões em todo o mundo. Peter Lord admite que está ansioso por uma continuação, também em 3D, baseada em outros livros de Defoe. “Tudo vai depender do primeiro filme”.

Hugh Grant, sempre mal comportado
O ator britânico Hugh Grant, de 51 anos, ficou famoso pelas participações em comédias românticas como Quatro Casamentos e um Funeral (1994), Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), O Diário de Bridget Jones (2001), entre outros, mas sucessos no cinema disputam atenção da mídia com sua agitada vida pessoal.

Recentemente, Grant divulgou o nome de sua primeira filha, Tabitha, nascida no fim do ano passado e fruto de breve relacionamento com a atriz chinesa Tinglan Hong, de 32 anos. E pôs em dúvida se os anos de badalação ficaram, mesmo, para trás. “A paternidade é incrível, mas não mudou minha vida”, disparou o ator em a entrevista em Las Vegas.

Grant e Tinglan acordaram que a guarda da criança seria da mãe. Nos anos 90, o ator namorava a bela atriz Elizabeth Hurley e a longa relação dos dois, de mais de dez anos, naufragou quando após um escândalo. Em 1995, ele foi preso em Hollywood após ter sido flagrado fazendo sexo em lugar público com a garota de programa Divine Brown. Nos anos 2000, Grant namorou a socialite Jemina Khan. Terminaram em 2007.

Engajado na política, Grant fez duras críticas ao partido conservador e à mídia inglesa, que grampeou seus números de telefones para obter furos jornalísticos. A campanha de Grant vai, inclusive, contra o primeiro-ministro David Cameron, que nada teria feito para impedir os grampos. “Temos de denunciar isso. É muito perigoso ficarmos calados”, disse o ator. “Os jornais são ligados ao partido conservador. A solução é mudar o governo”, falou. Constante alvo de paparazzi, Grant resumiu: “A imprensa sempre me atacou de forma furiosa, porque eu nunca me comportei”.

* O jornalista viajou a convite da Sony

Uma vida solitária regida pela compulsão ao sexo

Por Felipe Branco Cruz

Brandon Sullivan (o ator Michael Fassbender, de X-Men: Primeira Classe) está completamente nu e a câmera foca apenas seu órgão genital em close. Ele caminha entre a cama e o banheiro. A cena se repete outras vezes. Ao contrário do que uma intimidade possa sugerir, essa primeira cena do longa Shame, que estreia hoje, mostra apenas um homem nu. Mesmo tão íntima e escancarada, a imagem em nada revela sobre a complexa personalidade deste personagem. É ao longo do filme que o diretor inglês Steve McQueen tentará nos apresentar quem é Sullivan, um homem viciado em sexo.

Sullivan não consegue se conter. Sua vida se resume a assistir pornografia no computador de casa, visitar bordeis, fazer sexo casual com mulheres na ruas e até se masturbar no trabalho. Ele é bem-sucedido no escritório onde trabalha e mora sozinho. Sua vida parece que não mudaria até a chegada de sua irmã Sissy, interpretada por Carey Mulligan. A bela atriz também aparece nua em várias cenas. Mas, propositalmente, ela está feia, com uma barriga saliente e cabelos desgrenhados. A composição da personagem ajuda a entender que se trata de uma mulher perturbada e que precisa de ajuda. A atriz está em cartaz nos cinemas em outro filme, Drive, no qual vive uma mulher fracassada.

A chegada da irmã muda totalmente a rotina de Sullivan. Desequilibrada, ela busca laços familiares que o irmão é incapaz de lhe dar. Aliás, os dois, cada um à sua maneira, são carentes de afeto. No caso do irmão, essa falta de afeto é evidenciada por sua compulsão sexual. Já a irmã, por sua incapacidade de manter um casamento – ela acaba de sair do segundo. A relação deles será, portanto, repleta de altos e baixos, com violentas discussões no meio disso tudo. Numa dessas cenas, Sullivan agride fisicamente a irmã depois de ela flagrá-lo se masturbando no banheiro. No fim, ambos estão visivelmente envergonhados de suas situações.

De Carey Mulligan, vale citar sua interpretação para a música New York, New York, em que canta de forma bem mais lenta em relação à original, num restaurante de Nova York. Uma cena linda que leva o irmão, que está na plateia, às lágrimas. O que é bem significativo. É que, apesar de sempre estar se relacionando com diversas pessoas, Sullivan é um cara frio e solitário. E essa compulsão por sexo o consome e o faz sofrer. Quando uma mulher se envolve emocionalmente com ele, Sullivan não consegue consumar o ato, o que evidencia que o que ele faz é sexo e não amor.

Michael Fassbender também se entrega ao papel. Por esta atuação, no ano passado, ele foi premiado como melhor ator do Festival de Veneza. O filme chegou a ser cotado ao Oscar, mas, no fim, não foi indicado em nenhuma categoria. Sem tradução para o português, o título Shame reflete a essência do filme. Para Sullivan, fazer sexo de maneira descontrolada não é motivo de orgulho e, sim, de uma vergonha que ele se esforça em esconder.

Billi Pig – Uma história sem pé nem cabeça

Por Felipe Branco Cruz

Uma história sem pé nem cabeça, personagens sem função alguma e piadas sem graça transformaram a produção nacional Billi Pig, que acaba de estrear nos cinemas, em um filme entediante. A premissa até parecia boa: juntar vários tipos de personagens picaretas e fazê-los interagir para ver o circo pegar fogo. Mas não funcionou.

Na trama, Grazi Massafera vive Marivalda, uma aspirante a atriz, sem talento, que tem alucinações com um porco de brinquedo que fala com ela (a voz do bicho é dublada pela própria atriz). Seu marido Wanderley (Selton Mello) é dono de uma pequena agência de seguros no bairro de Marechal Hermes, no Rio. Quando a filha do dono de uma boca de fumo de São Cristóvão é baleada e fica em coma, o traficante Boca (Otávio Muller) vai buscar um milagre com Roberval, um padre tarado, vizinho de Wanderley, interpretado por Milton Gonçalves. Wanderley é quem negocia o pagamento do milagre entre o padre e o traficante.

Preta Gil está no elenco como Generosa, dona de uma funerária. A personagem não tem função alguma na história a não ser fazer piadas mórbidas. Há tantos elementos jogados no filme, fora de contexto, que é difícil citar todos. Para se ter uma ideia da variada fauna, há até um pato azul fosforescente e um show de Arlindo Cruz durante uma feijoada.

O diretor José Eduardo Belmonte justificou toda essa bagunça como uma homenagem às chanchadas brasileiras. O problema é que o resultado ficou aquém do talento de Belmonte, conhecido por filmes como A Concepção (2005) e Se Nada Mais Der Certo (2008). Nem a presença de atores conhecidos, como Grazi Massafera, Selton Mello e Milton Gonçalves, salvam este longa.

ENTREVISTA: SELTON MELLO

‘Eu pensei: aonde isso vai chegar? ‘

Com Billi Pig, Selton Mello está em cartaz em três filmes. Com data marcada para o próximo longa, ele não dispensa voltar às novelas após mais de 10 anos. O ator e cineasta fala de carreira e de contracenar com Grazi:

Pensa em voltar às novelas?
Dei azar. Me ofereceram dois personagens, um era mais novo que eu e outro teria três mulheres. Mas eu neguei. Eu acabei de fazer uma série em que tinha duas mulheres. Agora três? Eu gostei muito de fazer A Cura (seriado) e fiquei animado em fazer novela, não faço há mais de dez anos. Estou procurando…

Seus papéis no cinema são complexos. É proposital?
Sempre busquei essa pluralidade. Desde O Auto da Compadecida (1998), tento intercalar algo comercial com coisas radicais, como O Cheiro do Ralo.

A Mulher Invisível vai voltar?
Esse ano, não. Luana Piovani vai ter filho em breve. E acho que já se esgotou. Talvez eu possa fazer outra série da Globo, mas tenho outro filme para a mesma época. Gosto muito do poder de comunicação da TV. Cresci na TV. Normalmente me chamam para fazer comédia, mas gosto de fazer drama e é raro fazer.

E qual é seu novo filme?
É um projeto com uma dupla de diretores que assinam como ’300 ml’. Eles dirigiram um curta-metragem que fiz com Seu Jorge chamado Tarantino’s Mind. O longa se chama Soundtrack. O filme será rodado na Patagônia, falado em inglês. Também terá Seu Jorge e atores gringos. É um drama muito louco, rodado todo na neve, e se passa numa base onde estão pessoas do mundo todo. Eu interpreto um artista plástico. A ideia é filmar em agosto.

Como define a relação com cinema?
É o lugar que encontrei para me expressar. Tem atores que gostam de teatro, outros de TV. Eu me expresso melhor no cinema.

Mais uma vez, há mais de um filme seu em cartaz: O Palhaço, Reis e Ratos e Billi Pig…
Isso me desagrada um pouco. Fiz Reis e Ratos em 2009… O ponto positivo é que Billi Pig, O Palhaço e Reis e Ratos não têm a ver um com o outro. Estou achando que estou exposto demais e isso não me agrada. Mas são trabalhos honestos, então, tudo bem.

Com qual personagem você se identifica mais?
Mais com o Palhaço.

Falando nele, acha que vivemos uma tendência de resgatar o passado no cinema?
Faz sentido. O Palhaço conversa diretamente com O Artista e com A Invenção de Hugo Cabret. Estamos com saudade de algo que não sabemos o que é. Vivemos uma época doida, sempre estamos ligados nas redes sociais. O sucesso do Palhaço é falar de valores humanos. O Artista e Hugo Cabret também. Falamos a mesma língua.

Por que quis fazer Billi Pig?
Eu queria muito trabalhar com o (diretor José Eduardo) Belmonte. Ele é um diretor que eu admiro. Gosto muito de Se Nada Mais Der Certo.

Como foi contracenar com a Grazi?
Foi maravilhoso. A Grazi é humilde e queria aprender como se faz. E isso é nobre, não é qualquer atriz que tem essa disponibilidade. Ela foi uma ótima parceira. Aliás, uma das coisas que eu mais gosto no filme é a Grazi.

Houve muito improviso?
Grande parte do que eu digo no filme saiu da minha cabeça. Uma liberdade que até assustava. Eu improvisava e depois pensava: aonde isso vai chegar?

ENTREVISTA: GRAZI MASSAFERA

‘Trabalhar com Selton foi um mestrado’

Grazi Massafera faz sua estreia no cinema em um papel que remete às suas origens – Marivalda é uma aspirante a atriz que conversa com um porquinho de brinquedo, também dublado por ela. Grávida de seis meses, a atriz falou do receio de trabalhar com o diretor José Eduardo Belmonte, do apoio do marido Cauã Reymond e de seu amado sotaque:

No filme, sua personagem almeja um prêmio. Você se considera uma pessoa ambiciosa?
Para mim, o prêmio é o trabalho. A oportunidade de fazer um bom papel é o mais importante. É claro que, depois, realizado esse desejo, o prêmio é a constatação de que deu certo.

É sua estreia no cinema, e numa comédia. Difícil?
Bastante. A Marivalda tem um resgate da inocência. Eu puxei coisas da minha vida, da minha infância. Eu lidava com o rir de si mesmo em casa. Meu pai gostava muito dos Trapalhões. Agora, fazer isso virar um personagem é difícil, é brincar com coisa séria. Trabalhar com o Selton foi tipo um mestrado.

Você teve alguma orientação para atuar no cinema?
Meu marido (o ator Cauã Reymond) fez vários filmes no ano passado e eu observei os momentos dele em cena. Em casa, vi muita coisa com ele. Selton me deu dicas. Tive confiança no Zé (José Eduardo Belmonte, diretor) e fui tentando acertar. Tenho críticas em relação ao meu trabalho, mas me identifiquei.

Você passa texto em casa com o Cauã?
Eu morro de vergonha, não consigo. Depois do trabalho pronto, peço para ele assistir. Porque a minha visão é de público. Por meio do Cauã, tenho a possibilidade de ler muitos roteiros. E somos muitos sinceros um com outro. Mas não falamos só de trabalho, senão fica chato.

Belmonte pediu para você assistir a algum filme?
Não, mas eu vi filmes da Jayne Mansfield (sex symbol dos anos 50 e estrela de filmes B), Jennifer Jones e da própria Marilyn Monroe. A Marivalda tem um pouco disso. Achei legal essa coisa da loira meio bagaceira. Da novela Desejo Proibido (2007), eu tirei um pouco da Marilyn, que tem uma ingenuidade mais sensual. Vejo coisas e vou tentando dar o meu jeitinho.

Você interpretou uma caipira na TV e agora também em Billi Pig. Qual seu próximo desafio?
Queria fazer algo mais pesado, mais visceral. Um drama.

Um personagem com câncer terminal?
Que horror! Não, coisas do submundo. Tenho vontade de me jogar num papel mais visceral. Tem problemas na nossa vida que a gente deixa virar um câncer, mas não quero interpretar alguém com câncer.

Como conheceu o diretor José Eduardo Belmonte?
O Zé me chamou para fazer Se Nada Mais Der Certo (de 2008, protagonizado por Cauã Reymond). Na época, eu nem conhecia o Cauã, estava na novela Páginas da Vida. Eu assisti ao filme A Concepção e fiquei chocada. Estava acostumada com Sessão da Tarde. Pensei: ‘Meu Deus, não quero trabalhar com esse cara’. Por ironia do destino, conheci o Cauã e ele foi trabalhar justamente em Se Nada Mais Der Certo. Fui ao set algumas vezes acompanhar o Cauã e conheci melhor o trabalho do Zé. Ele trabalha sem vaidades.

Você ainda tem um sotaque forte. Faz algum trabalho com fonoaudiólogo para disfarçá-lo?
Não vejo isso como um problema. Eu amo meu sotaque.

Ele não é mais aquele bruxinho

Por Felipe Branco Cruz

O primeiro papel do ator inglês Daniel Radcliffe no cinema após o término da franquia Harry Potter é para um público completamente diferente daquele que se acostumou a assistir ao jovem bruxinho. No filme A Mulher de Preto, que estreia amanhã, Radcliffe interpreta o advogado Arthur Kipps. Seu personagem é pai de um garoto de 4 anos que pode perder o emprego no escritório de advocacia se não conseguir encontrar documentos que estão guardados dentro de uma mansão abandonada.

A escolha pelo papel é óbvia. O ator quer provar seu talento e não mais ser lembrado como o bruxinho de Hogwarts. Por enquanto, porém, é praticamente impossível desassociar a imagem de Potter a de Radcliffe. Afinal, foram oito filmes, mais de 400 milhões de livros vendidos e até um parque de diversão temático criado à imagem do famoso personagem.

A Mulher de Preto é uma história de terror e suspense ambientada no século 18. Na mansão abandonada, o advogado Kipps passa a ver uma misteriosa mulher de preto rondando o local. Antes mesmo de chegar a essa casa, ele já tinha sido hostilizado pelos moradores da pequena cidade onde está localizada. Há uma terrível crença local de que, sempre que a tal mulher de preto aparece, uma criança misteriosamente se suicida. Uma delas, inclusive, morre nos braços de Kipps depois de tomar água sanitária. Logo, a presença do rapaz é associada às aparições da mulher.

Assim, o personagem, além de lidar com uma assustadora assombração, tem de se preocupar com os vivos, que passam a ameaçá-lo. Tudo piora quando o fim de semana se aproxima, uma vez que seu filho virá à cidade para visitá-lo, e pode se tornar a próxima vítima da mulher de preto.

Dirigido por James Watkins (do terror Eden Lake, de 2008), o longa é baseado no livro homônimo de Susan Hill, com roteiro de Jane Golsmann (de Kick-Ass, de 2010). Com orçamento de US$ 16 milhões, até o momento, o filme já faturou US$ 46 milhões em bilheteria no mundo todo. Boa parte desse sucesso pode ser explicada pela legião de fãs de Harry Potter que se dispuseram a assistir a Radcliffe na nova empreitada.

Apesar de estar inserida no gênero de terror e até pregar alguns sustos, a produção é pouco original. Situações-clichês criadas com o único propósito de assustar permeiam o longa. Um desses momentos é a cena em que o personagem de Radcliffe entra na mansão e a porta se fecha imediatamente atrás dele, num grande estrondo. Ou quando uma cadeira, a cama e até um boneco de pelúcia se movem pela casa. Ou ainda quando luzes ora acendem ora se apagam misteriosamente.

A caracterização de Daniel Radcliffe convence. Além das roupas de época e da impostação vocal, Radcliffe exibe vasta costeleta e barba. Caso este fosse o primeiro filme da carreira do ator de 22 anos, e as críticas fossem escritas sem serem contaminadas pela influência de Harry Potter, certamente elas sairiam elogiosas à sua atuação. O ator emociona quando, no início da projeção, Kipps vê sua mulher morrer no parto do filho. Vale destacar também a ótima ambientação – cenário e figurinos compõem uma sombria e nebulosa cidade do interior inglês. Um cenário perfeito para sustos e assombrações.

No elenco, merece atenção a atriz Janet McTeer, que vive Mrs. Daily, uma mulher perturbada, que perdeu o filho em uma aparição da mulher de preto e a única pessoa que acredita nas visões de Kipps. Janet poderá ser vista ainda no cinema em Albert Nobbs, que estreia por aqui nessa semana e lhe rendeu uma indicação ao Oscar como atriz coadjuvante.

A Mulher de Preto pode não ser o melhor terror já feito, mas rende bons sustos, principalmente nos jovens fãs de Harry Potter.

O adorável humor irlandês

Por Felipe Branco Cruz

O filme O Guarda é um daqueles exemplos de produções de baixo orçamento que conquistam o público com um roteiro bem elaborado, ótimos diálogos e, principalmente, humor refinado. No caso, inclusive, um humor negro, que desfia piadas politicamente incorretas. O longa feito na Irlanda e com produção inglesa é uma joia rara. Infelizmente, por aqui o longa só foi exibido durante poucas semanas e em apenas uma sala no Rio de Janeiro , sem conseguir espaço nas salas paulistanas. Em março, a Sony lança o título em DVD (por enquanto somente para locação).

A qualidade do longa foi reconhecida internacionalmente – ganhou um prêmio de menção honrosa no Festival de Berlim no ano passado, uma indicação no Bafta (o Oscar inglês) por melhor roteiro original e uma no Globo de Ouro, como melhor ator de comédia ao protagonista, Brendan Gleeson. O ator irlandês bonachão interpreta o sargento Gerry Boyle, que contracena com o americano Don Cheadle, o agente do FBI Wendell Everett.

Cheadle recentemente interpretou o personagem Máquina de Guerra no segundo filme da franquia Homem de Ferro. O ator conversou com o JT por telefone e disse que só aceitou fazer O Guarda porque se divertiu muito lendo o roteiro (leia abaixo a entrevista).

O roteiro acompanha a rotina bucólica de trabalho do policial em uma pequena cidade da Irlanda onde quase toda a população não fala inglês, mas gaélico irlandês. As ocorrências para as quais é chamado se resumem a acidentes de trânsito e brigas de bar, e o sargento nem se preocupa em resolvê-los.

Um dia, porém, um rapaz é encontrado morto, com uma página da bíblia enfiada na boca e um vaso de flor entre as mãos. O crime atrai a atenção do policial do FBI Wendell Everett (Cheadle), que está na cidade investigando uma possível rota do tráfico internacional de drogas.

Politicamente incorreto
A primeira cena do longa dá bons indícios do que se esperar do filme. Um carro em alta velocidade passa pela viatura de Boyle, impassível. Somente quando escuta o barulho doa capotagem, o policial se mobiliza. Vai até o local do acidente e vê os corpos dos jovens que estavam no carro – estão todos mortos. Inabalável, Boyle tira do bolso de um deles alguns comprimidos de ecstasy e umas trouxinhas de cocaína e os guarda eu seu próprio bolso.

A primeira reunião entre os policiais irlandeses e americanos para discutir o assassinato do outro jovem é impagável. Nela, é despejada todo tipo de piada politicamente incorreta sobre americanos. Numa delas, Boyle diz: “Eu achava que todos os traficantes de drogas fosse negros.”

Enquanto Everett usa métodos científicos, Boyle tem como principal informante um garoto de bicicleta. Numa outra cena igualmente impagável, o americano precisa ouvir uma testemunha, mas Boyle se recusa a ajudá-lo, pois é seu dia de folga – nesses dias, ele sai com prostitutas.

Em comum, os dois homens da lei têm apenas o senso de justiça, já que todos os outros policiais do caso acabam subornados por bandidos. Entre boas sacadas, o enredo se desenrola a partir da investigação, até um desfecho realmente surpreendente.

Don Cheadle

‘Eu ri muito quando li esse roteiro’
O ator americano Don Cheadle, indicado ao Oscar de Melhor Ator por Hotel Ruanda (2004) forma com Brendan Gleeson uma improvável e hilária dupla em O Guarda. Seu personagem, o agente do FBI Everett, é alvo de piadas de humor negro e frequentemente é discriminado pelos irlandeses por sua origem. Tudo isso só ajudou Cheadle a aceitar o papel nesta modesta produção. O ator, que também pode ser visto em Homem de Ferro 2, conversou com o JT pelo telefone, de Culver City. Confira:

O que você acha do humor negro britânico?
É um humor muito mais sarcástico que o americano. E bem mais engraçado, na minha opinião.

Por que decidiu fazer o filme?
Ri muito quando li o roteiro pela primeira vez. Eu lia e ria. Foi o que me fez decidir. Trata-se de uma história interessante, com bons personagens que têm uma ótima relação.

Você se divertiu fazendo este filme?
Sim, me diverti muito. Brendan é um cara sensacional. E o diretor John Michael McDonagh tinha uma visão muito clara do que queria. É um diretor que pedia que colaborássemos com sugestões. E o resultado muito engraçado; é um tesouro, com ótimo diálogos.

Foi difícil entender o sotaque irlandês?
Para mim, foi como ir a um lugar selvagem, com pessoas que não entendem bem inglês. Mas eu consegui pegar o jeito rapidamente e passei a entendê-los muito bem. Mas a relação com eles vai além do sotaque, eles têm atitudes diferentes, formas de se relacionar diferentes, e por aí vai. Mas depois de um mês convivendo com eles eu já estava habituado. Eles são um povo com um senso de humor muito apurado.

Você foi indicado ao Oscar por Hotel Ruanda (2004) mas não levou a estatueta. O que você acha que falta para ganhar o Oscar?
Eu fui indicado na categoria de melhor ator. Acho que, talvez quando for indicado por um papel coadjuvante, então eu ganhe. Mas não fiz muitos filmes que poderiam ser indicados ao Oscar…

A volta da magia do cinema


Por: Felipe Branco Cruz

O grande favorito ao Oscar deste ano, que será entregue no dia 26 de fevereiro, é A Invenção de Hugo Cabret, do diretor Martin Scorsese, indicado em 11 categorias, entre elas as de melhor filme, diretor, roteiro adaptado e fotografia. O longa é a estreia do diretor no mundo dos filmes em 3D e com temática infantil. Mais do que isso. Trata-se de uma grande homenagem à história do cinema feita por um de seus maiores cineastas. Dentre os trabalhos de Scorsese, é impossível não lembrar de títulos como Taxi Driver (1976), Os Bons Companheiros (1990), Gangues de Nova York (2002) e Os Infiltrados (2006), com o qual ganhou o Oscar de melhor diretor (leia mais sobre ele abaixo).

Baseado no livro infantil homônimo (2008) de Brian Selznick, o longa conta a história do garoto Hugo Cabret, que vive escondido entre as paredes de uma estação de trem de Paris. Depois que seu pai (Jude Law) morreu em um incêndio, o garoto passou a ser criado pelo tio alcoólatra, que trabalha na estação dando corda nos relógios. Até que, um dia, o tio desaparece. Para não para ser pego pelo Inspetor (Sacha Baron Cohen) e levado a um orfanato, Hugo herda a tarefa do tio e passa a secretamente dar cordas nos relógios, para que ninguém perceba que o tio sumiu. A estação abriga uma loja de brinquedos, cujo dono, um senhor ranzinza Papa Georges (Ben Kingsley), confiscou do garoto uma caderneta com desenhos feitos por seu pai. Georges tem uma neta, Isabelle (Chloë Grace Moretz), de quem Hugo se torna amigo para tentar recuperar a caderneta perdida. Uma história infantil, mas que tem o público adulto como alvo.

O longa exibe com exuberância visual a Paris do início do século 20, com destaque para as deslumbrantes cenas de neve, em que parece possível tocar os flocos de gelo, dado o cuidado com que o efeito 3D é aplicado. Uma das qualidades do livro em que o filme foi baseado é que ele é repleto de belas ilustrações, que serviram de base para Scorsese criar seus cenários.

Aficionado por máquinas, Hugo aprendeu com o pai a consertá-las. A única que parece sem conserto é um boneco de corda chamado de autômato, capaz de escrever sozinho. O garoto acredita que, se conseguir fazê-lo funcionar de novo, ele escreverá uma mensagem de seu pai. O problema é que, para isso, Hugo precisa de uma chave em formato de coração. Essa busca levará Hugo e sua nova amiga Isabelle (e o público também) a uma incrível viagem pelo mundo do cinema e pela mente criativa do cineasta Georges Méliès, diretor do filme Viagem à Lua (1902), e um dos primeiros a produzirem longas de ficção científica. Em sua vida, Méliès produziu mais de 500 filmes mas, depois da Primeira Guerra Mundial, pouco mais de 30 sobraram.

Homenagem ao cinema
Além de ter sido um pioneiro no cinema, Méliès também foi um dos primeiros a usar efeitos especiais em seus filmes de ficção. Como tinha formação de ilusionista, o diretor usou sua experiência para levar, no início do século, essas sensações às suas produções. Além disso, o francês também foi um dos primeiros a usar storyboards (desenhos que indicam como cada cena deve ser filmada) para projetar seus filmes e cenários. Em Paris, ele construiu um incrível estúdio de cinema todo envidraçado que era para aproveitar a luz do sol, pois as câmeras da época não captavam muito bem a luz.

Todos esses detalhes são mostrados em Hugo Cabret. É como se fôssemos transportados para aquela época e assistíssemos o making off daqueles filmes. É um tributo e uma homenagem ao cinema e a Méliès. O Artista, filme que foi indicado a 10 Oscar, também homenageia o cinema e, por isso mesmo, é forte concorrente de Hugo Cabret. Ao que tudo indica, os jurados da Academia gostam de premiar trabalhos que homenageiem a sétima arte. Eis um desses exemplos. Talvez o melhor já feito até hoje.

A aventura de Scorsese nos mundos infantil e 3D
A lista de obras-primas de Martin Scorsese parece não ter fim. Taxi Driver, A Última Tentação de Cristo, Os Bons Companheiros, Vivendo no Limite, Gangues de Nova Iorque, O Aviador, Os Infiltrados e Ilha do Medo. Sem contar com as 11 indicações ao Oscar que A Invenção de Hugo Cabret teve neste ano, os filmes de Scorsese já receberam 64 indicações e levaram 15 estatuetas. Como melhor diretor ele ganhou por Os Infiltrados, em 2006.

Até Hugo, a maioria dos filmes de Scorsese traziam temática adulta, de violência, suspense ou drama. Até hoje, ele nunca tinha se aventurado numa fábula infantil e em 3D. A impressão que dá é que Scorsese, depois de ver como o 3D estava sendo usado de forma comercial e não artística, apenas como pretexto para cobrar caro na entrada do cinema, teria resolvido fazer um grande filme com a moderna tecnologia e, de quebra, ainda homenagear a sétima arte. As 11 indicações ao Oscar parecem dizer: ‘É assim que se faz cinema infantil e em 3D”.

Mas o trabalho do diretor de 69 anos não se limita à ficção. Como documentarista, já mostrou os bastidores de um show dos Rolling Stones, em Shine a Light, além da intimidade do ex-beatle George Harrison, em Living in the Material World. Bob Dylan também já mereceu um documentário e as lentes de Scorsese.

Não é a toa, portanto, que o diretor seja considerado com um dos maiores diretores americanos de cinema ainda vivo, ao lado de Francis Ford Coppola, George Lucas, Brian De Palma e Steven Spielberg. Do Brasil, Scorsese admira o cineasta Glauber Rocha e até já colaborou com a restauração de alguma de suas obras.

O vitorioso caso de Billy Beane

Por Felipe Branco Cruz

Billy Beane (interpretado por Brad Pitt), assiste boquiaberto a uma discussão entre os olheiros do Oakland Athletics, que buscam reforços para a próxima temporada do time no campeonato nacional de beisebol. Diversos nomes estão na mesa, mas as opiniões parecem nunca chegar a um consenso. Um deles, inclusive, descarta um atleta porque sua namorada é feia. “Um homem que tem namorada feia não tem autoconfiança e não serve para jogar beisebol”, filosofa. Com métodos como esses, não é de se estranhar que o Oakland é um dos piores times dos Estados Unidos.

Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo, que estreia hoje, é mais um filme com temática esportiva baseado em fatos reais que agrada em cheio o público americano. Mas, como o beisebol não é popular no Brasil, a distribuidora chegou a cogitar lançar o filme no País direto em DVD, sem passagem pelas salas de cinema. No entanto, graças a uma excelente atuação de Brad Pitt, à frente do elenco, e a uma história realmente empolgante, além, é claro, das seis indicações ao Oscar recebidas, a decisão foi repensada.

O longa é baseado na história real de Billy Beane, de 49 anos, contada no livro homônimo de Michael Lewis. Nele, o autor descreve como Beane conseguiu levar o modesto Oakland Athletics à elite do esporte nacional.

Ex-atleta e gerente do time, Beane tem um dilema nas mãos: precisa viabilizar um time vencedor para reerguer o clube, mas com um orçamento aquém de estrelas. A solução veio com Peter Brand (Jonah Hill, indicado ao Oscar como melhor ator coadjuvante), um economista gordinho, fanático por beisebol, que criou uma equação matemática capaz de avaliar os dados de cada um dos jogares a partir de suas estatísticas.

Como o beisebol só é popular nos Estados Unidos, Japão, Venezuela e Cuba, é bem provável que o espectador brasileiro fique um pouco perdido entre termos técnicos quando os personagens entrarem em discussões mais técnicas sobre as regras do jogo ou o desempenho dos atletas. Mas isso não impedirá o entendimento do filme, que além de tratar de gestão de negócios e matemática, fala também de superação, este sim um tema universal.

A reinvenção de um jogo
Personagem central da história, Billy Beane é apresentado como uma figura curiosa e antagônica – apesar de apostar numa fórmula matemática para ganhar seus jogos, é supersticioso ao ponto de nunca assisti-los, por achar que dará azar à equipe.

Quando o time começa a ganhar, quem leva o crédito é o técnico, interpretado pelo vencedor do Oscar Philip Seymour Hoffman, em um papel de pouco destaque. A tarefa de Beane não é nada fácil, como ele mesmo descreve o Oakland: “Existem times ricos e times pobres, e abaixo deles há um monte de porcaria. Debaixo disso tudo estamos nós.”

Ao chegar a essa conclusão, Beane percebe que não tem nada a perder e aposta todas as fichas na matemática desenvolvida por Peter Brand. Para o economista, beisebol se resume à capacidade dos jogadores em correr de uma base a outra. Para isso, ele descarta todos os outros atributos físicos dos atletas, e contrata apenas jogadores velozes. Isso tudo, é claro, baseado em seus cálculos de estatísticas. Neste ponto, o longa é revelador ao mostrar como atletas tidos como apostas se desvalorizavam no mercado a partir de avaliações tão subjetivas quanto a beleza de suas namoradas. Com suas contas, Beane consegue contratações a preços ínfimos.

O próprio Billy Beane é um exemplo desta desvalorização. Em sua juventude, ele tinha conseguido uma bolsa de estudos na Universidade de Stanford, mas desistiu da carreira acadêmica para tentar a vida como jogador de beisebol. Como não se destacou nos times pelos quais passou, foi descartado. Quando deu por si, tinha mais de 40 anos e nenhum diploma, e trabalhava como gerente de um pequeno time.

Além de Hoffman, o longa traz outros dois ganhadores do Oscar, os roteiristas Aaron Sorkin (A Rede Social) e Steven Zaillian (A Lista de Schindler) que assinam o enredo em conjunto. A direção ficou a cargo de Bennett Miller, o mesmo de Capote, que aliás deu o Oscar de melhor ator a Hoffman.

Mais do que uma história de beisebol, Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo é uma incrível história de superação e estratégia.

Entrevista: Nicolas Cage – O Motoqueiro Fantasma 2

Por Felipe Branco Cruz

Nicolas Cage, de 48 anos, mais uma vez vai encarnar no cinema Johnny Blaze, alter ego do personagem dos quadrinhos do Motoqueiro Fantasma, no filme Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança, que estreia amanhã. A despeito das críticas que massacraram o primeiro filme da franquia, Cage disse não se preocupar com a opinião dessas pessoas. “Crítico é um grupo de pessoas frustradas”, diz ele. O novo filme será lançado em 3D e trará impressionantes efeitos especiais. Um chamariz e tanto para os fãs de quadrinhos. O ator conversou com o Estado anteontem, por telefone, de Los Angeles. Nesta entrevista, Cage comentou ainda sobre um boato que afirma que ele é um vampiro de 140 anos. Além disso, o ator revelou que treinou Jiu-jítsu com Royce Gracie e que quer vir ao Brasil participar de algum festival de cinema.

Por que o personagem do Motoqueiro Fantasma é importante para você?
O Motoqueiro Fantasma foi o primeiro quadrinho que eu li na infância, quando tinha apenas 8 anos. Os quadrinhos da Marvel têm heróis que são realmente monstruosos como, por exemplo, o Hulk. A imagem de uma caveira flamejante numa motocicleta nunca saiu da minha cabeça. Nunca consegui imaginar algo mais assustador do que esse personagem que usa as forças do mal para o bem. Quando jovem, era difícil lidar com esse dualismo. Nós vivíamos num mundo de preto no branco quando o bom e o ruim eram bem definidos. Não existia meio-termo. Ninguém poderia ficar em cima do muro. O Motoqueiro conseguiu misturar isso como nunca tinha visto.

Você acha que existem semelhanças entre o Motoqueiro Fantasma e o Milton, de Fúria sobre Rodas?
Eles são dois personagens supernaturais que vieram de outra dimensão. O Motoqueiro Fantasma era um homem que se corrompeu e vai para o inferno. A grande diferença é que Johnny Blaze (o motoqueiro) está vivo e Milton é um morto que fugiu do inferno. São duas formas diferentes de atuação. Ao interpretar um homem morto, eu não tenho sentimentos. Enquanto o Motoqueiro sente a dor da transformação em caveira flamejante. Tenho que interpretar esses sons e movimentos.

Como foi acampar e gravar numa floresta mal assombrada?
Algumas filmagens aconteceram numa floresta da Romênia, que é considerada pelas pessoas que moram por lá como assombrada. Muitos acreditam nisso, eu inclusive. Eu quis ir lá especialmente por causa dessa história.

Você já ganhou um Oscar por Despedida em Las Vegas (1995) e na sua carreira fez ótimos filmes. Recentemente tem escolhido papéis que foram duramente criticados. Você concorda com essas críticas?
Eu não concordo com os críticos. O trabalho dos críticos é criticar. Na minha opinião, eles podem falar o que quiserem. Mas eu não vou ouvir o que eles têm a dizer.

E com relação às críticas de que a primeira parte de Motoqueiro Fantasma foi uma adaptação ruim? Acha que esta segunda parte é melhor?
Elas são diferentes. O Espírito de Vingança é bom porque pega a essência original das histórias em quadrinhos. O primeiro filme não conseguiu isso, mas também é bom. Escute bem: as críticas são formadas por um grupo bem pequeno de pessoas frustradas que só sabem criticar. Mas eles não são o povo. Eu não estou interessado nessas opiniões e nunca vou mudar minha honestidade profissional. Deixe que façam e digam o que quiserem. Não acredito neles quando dizem que o filme de Mark Steven Johnson (diretor do primeiro filme) não é bom. E a despeito disso, estou muito feliz em fazer o Motoqueiro Fantasma de novo. Eu simplesmente não escuto o que eles têm a dizer e acho que a maioria das pessoas também não.

Qual é a principal razão para você aceitar um papel no cinema?
Aceito quando acho que posso interpretá-lo honestamente. Quero fazer parte de algo sincero. Nesses trabalhos quero aprender novas formas de atuar, novos processos de criação ou algo no roteiro que me dê alguma experiência de vida. Se isso acontece, então posso atuar de forma honesta.

E sobre as adaptações de quadrinhos para o cinema, qual gosta mais?
Acho que a primeira adaptação de quadrinhos de heróis importante para o cinema foi o Super-Homem. Ele se tornou a mitologia contemporânea de milhares de pessoas. É uma mitologia comparada ao que foi a grega ou nórdica para as pessoas daquela época. Vejo policiais usando os logos do Batman e Super-homem debaixo de seus uniformes. Isso os inspira de alguma forma.

Você já afirmou que teria sido convidado a participar dos filmes Matrix e O Senhor dos Anéis, mas não fez por falta de tempo. Arrepende-se da decisão?
Não, não me arrependo. Vi todos os filmes do Senhor dos Anéis e Matrix. Amei esses filmes. E se tivesse feito, não me divertiria tanto como fã, como quando estou vendo um filme que fiz. Eu não vejo meus filmes como espectador.

Já veio ao Brasil? O que sabe sobre ele?
Infelizmente nunca fui ao Brasil. Sei que vocês têm uma comunidade muito entusiasmada de cineastas. Vocês fazem ótimo filmes. Anos atrás comecei a lutar Jiu-jítsu com Royce Gracie. Ele sempre falou muito do Brasil para mim. Não treino mais Jiu-jítsu, mas algum dia quero ir aí. Vocês têm ótimos festivais de cinema por aí, não têm?

Temos sim. Você pretende vir participar de algum deles?
Talvez eu possa ir no próximo. Eu definitivamente gostaria também de gravar no Brasil e com cineastas brasileiros. Acho que aprenderia muito como ator.

E essa história que circula na internet que você não é humano e sim um vampiro?
As pessoas poderiam escolher qualquer pessoa para dizerem que é um vampiro, mas me escolherem como próxima vítima. Isso não me chateia. Então vamos manter o mistério.

Eterna luta do bem contra o mal
Se no primeiro filme do Motoqueiro Fantasma, lançado em 2007, boa parte da projeção foi dedicada a explicar a gênese desse personagem meio humano meio demônio, nesta segunda parte a ação é contínua. Feito em 3D, Motoqueiro Fantasma 2: Espírito de Vingança promete impressionar com os efeitos especiais que transformam a cabeça de Nicolas Cage numa assustadora caveira flamejante, assim como mostrada nos HQs.

Johnny Blaze é um famoso piloto de motos que faz acrobacias. Após fazer um pacto com o demônio e ser amaldiçoado, Blaze passa a usar essa maldição para combater o mal e também evitar que ele seja arrastado para o inferno. Nesta segunda parte, dirigida por Mark Neveldine, o Motoqueiro está escondido numa floresta da Europa oriental quando é recrutado por uma seita secreta para evitar que um garoto seja transformado no anticristo. O Motoqueiro acredita que, a partir desta boa ação, quem sabe, ele consiga se livrar da maldição e voltar a ser humano novamente.

O personagem original foi criado pelo desenhista Mike Ploog, e pelos escritores Roy Thomas e Gary Friedrich. Sua primeira aparição foi no quadrinho Marvel Spotlight 05, em agosto de 1972. Assim como no filme, nos quadrinhos, Blaze sofria dores lancinantes e psicológicas sempre que se transformava no Motoqueiro Fantasma. Dentre os principais vilões, estão todos os tipos de demônios, como o filho de Mefisto, Blackheart.

Meryl Streep de ferro

Por Felipe Branco Cruz

Meryl Streep, indicada ao Oscar 17 vezes, ganhadora em duas delas (Kramer versus Kramer – 1980, como coadjuvante, e A Escolha de Sofia – 1982, no papel principal), é novamente a favorita a receber a estatueta de melhor atriz no dia 26 de fevereiro pela brilhante atuação em A Dama de Ferro, que estreia na sexta-feira. Meryl interpreta a ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher. A atriz está praticamente irreconhecível, em atuação realmente convincente. O papel já rendeu a ela o Globo de Ouro e o Bafta (Oscar britânico) de melhor atriz. No festival de Berlim, que acontece nesta semana, Meryl Streep receberá um Urso de Ouro honorário.

Amada por uns e odiada por outros, Thatcher entrou para a história como a primeira mulher a ocupar esse cargo no país, e perpetuou-se no poder por mais de uma década – foram 11 anos, de 1979 a 1990. Sem ceder a pressões dos trabalhadores, Thatcher tomou decisões polêmicas para reduzir gastos do governo e aplicou uma política liberal. Com isso, fez inimigos nos sindicatos, além de declarar guerra contra a Argentina pela disputa territorial das ilhas Malvinas.

Esta, no entanto, é a faceta mais conhecida da Dama de Ferro, apelido que ganhou por se mostrar uma mulher durona. O que vemos no cinema é a história de uma mulher idosa, que vive sozinha e tem alucinações com o ex-marido morto. É este o recorte do filme: a velhice de Thatcher. Em seus poucos momentos de lucidez, ela se recorda do passado e, a partir de suas lembranças, somos apresentados à sua biografia.

Nascida Margaret Hilda Roberts em 13 de outubro de 1925 em Grantham, Thatcher era filha de comerciantes e cresceu em meio aos bombardeios da 2ª Guerra. Seu pai, simpatizante do partido conservador, passou à garota valores liberais, que a acompanhariam pelo resto da vida. Na vida política, ela se elegeu para a Câmara dos Comuns e depois seria designada Secretária do Departamento de Educação e Habilidades até chegar ao posto máximo de primeira-ministra.

Talvez, resida aí a deficiência do filme. Quem for ao cinema para conhecer a trajetória política de Thatcher sairá frustrado. Pontos-chave da carreira são mostrados rapidamente, como por exemplo o assassinato de um assessor de campanha ou o episódio em que escapou de um atentado à bomba em um hotel. O quarto explode, Thatcher sobrevive. E é só o que sabemos. As inúmeras greves que marcaram o mandato de Thatcher são citadas em pouco mais de cinco minutos, e nenhuma é aprofundada. A senilidade da personagem parece fazê-la esquecer dos detalhes de seu passado.

Na Guerra das Malvinas, travada contra a Argentina em 1982, Thatcher aceitou o confronto por alegar que não negociaria com mafiosos. Ela seguiria a tradição inglesa de não abandonar seus filhos, mas os defenderia. Na realidade, a guerra serviu para que a opinião pública ficasse a favor da primeira-ministra, que naquele momento tinha os piores índices de seu governo.

Ou seja, o filme nunca mostra a Dama de Ferro como uma vilã, e sim como uma mulher que soube se impor num ambiente machista. Quando ia para casa, ela se mostrava mais doce, apaixonada pelo marido. Há, porém, outro modo de assistir ao filme, que é se deixar levar pela atuação brilhante de Meryl Streep. Em alguns momentos, a história fica em segundo plano, enquanto admiramos o realismo da interpretação da atriz.

No caminho do Oscar de Meryl está Viola Davis
Talvez a única atriz com chances de tirar o Oscar de Meryl Streep é Viola Davis, indicada por sua atuação em Histórias Cruzadas. Na categoria de Melhor Atriz, concorrem ainda Glenn Close (Albert Nobbs), Rooney Mara (Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres) e Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn).

A força da indicação de Viola é corroborada pela vitória no prêmio de Melhor Atriz do Screen Actors Guild Award (SAG), o sindicato de atores de cinema e televisão norte-americanos. Nos últimos dois anos, as atrizes que levaram o prêmio também ganharam o Oscar: Sandra Bullock (Um Sonho Possível, 2010) e Natalie Portman (Cisne Negro, 2011). No SAG, Viola concorreu com Meryl Streep, Glenn Close e Michelle Williams, além de Tilda Swinton, por Precisamos Falar Sobre o Kevin, esquecida pelo Oscar.

Histórias Cruzadas se passa na década de 60 quando a segregação racial era institucionalizada em alguns estados dos Estados Unidos. No filme, Skeeter (Emma Stone) decide escrever um livro sobre as mulheres negras que trabalham como domésticas para mulheres brancas ricas. Para escrever a obra, Skeeter contará com a ajuda da governanta Aibileen (Viola Davis). A partir dessa amizade, a escritora conhece outras mulheres que relatam suas experiências numa sociedade racista.

O sensacional novo trailer de Homem Aranha

Muito foda mesmo

Invasão alienígena domina a Rússia

Por Felipe Branco Cruz

O ator americano Emile Hirsch, de 26 anos, já provou seu talento ao interpretar o difícil papel de Christopher McCandless, no filme Na Natureza Selvagem (2007). Na ocasião, ele perdeu 18 quilos para representar a fase mais complicada da jornada de McCandless no Alasca.

O ator participou de filmes como Milk – A Voz da Igualdade (2007), em que teve papel de destaque. Portanto é de surpreender que Hirsch tenha aceitado embarcar num projeto como A Hora da Escuridão, que estreia hoje, segundo filme autoral do diretor Chris Gorak, que se notabilizou pela direção de arte de Clube da Luta (1999).

O longa, que também será lançado em 3D, conta a história de dois investidores do mundo digital que vão buscar recursos na Rússia. Lá, eles conhecem duas garotas numa casa noturna. Nessa mesma noite, estranhas luzes descem do céu e, ao pousar na cidade, começam a desintegrar todas as pessoas. Obviamente, os jovens conseguem escapar e o que se vê é uma sucessão de sequências cinematográficas já amplamente exploradas em outros filmes sobre invasões alienígenas. Como, por exemplo, carros abandonados, cidade às moscas e lixo pelas ruas.

O roteiro é pobre e, por isso mesmo, que é de se estranhar o porquê de Emile Hirsch, um ator já tarimbado em filmes densos e bem-elaborados, tenha aceitado um papel tão bobo. Se ignorar que este é mais um filme sobre invasão alienígena e se deixar levar pela diversão simples e pura, certamente o espectador não sairá frustrado com os efeitos especiais, que são, sem sombra de dúvida, eletrizantes.

Aliás, é aí que reside a maior qualidade do longa. Os aliens são invisíveis, portanto o diretor teve de se desdobrar para criar momentos de tensão e perseguições a seres que não podem ser vistos. Algumas dessas imagens lembram daquelas já vistas em O Predador (1987), cujo vilão também é invisível. O alien de A Hora da Escuridão é composto praticamente de energia e é mais fácil localizá-lo à noite, pois a energia do monstrengo acende as lâmpadas dos postes, os alarmes dos carros etc.

Apesar de ser uma invasão global, o filme acompanha essa devastação apenas pelos olhos dos protagonistas. Ficamos sabendo aos poucos que a destruição chegou a grandes cidades, como Nova York, Londres e Paris. Por serem formados basicamente de energia, a princípio parece ser praticamente impossível destruir os aliens. Aos poucos, no entanto, os sobreviventes vão descobrindo maneiras de utilizar essa energia contra os invasores.

A Hora da Escuridão não se trata de um primor cinematográfico, com grandes sacadas. O longa nem pretende reinventar os filmes de alienígenas. Mas consegue, no entanto, divertir e fazer valer o ingresso.

Pouca história e muita ação

Por: Felipe Branco Cruz

Apenas dois filmes irão estrear amanhã em São Paulo dentro do circuito comercial, na antevéspera do réveillon. Nada mais natural, já que o movimento nos cinemas costuma diminuir nesta época do ano. Assim, o destaque da semana fica a cargo do longa-metragem Imortais, dirigido por Tarsem Singh, também responsável por Espelho, Espelho Meu, inspirado na fábula da Branca de Neve, com Julia Roberts no papel da Rainha e que deverá estrear em 2012. Imortais é produzido pela dupla Mark Canton e Gianni Nunnari, que também trabalhou no longa 300, com Rodrigo Santoro (2007). O filme tinha tudo para ser uma superprodução, mas não passa de uma bobagem repleta de efeitos especiais, paisagens idílicas e uma total falta de coerência.

O filme segue a linha de 300, com personagens fortões e várias cenas sangrentas de batalhas. Também lembra Fúria de Titãs ao misturar deuses gregos e bestas mitológicas. O problema é que o roteiro não está minimamente preocupado em ser verossímil com a mitologia. O resultado é um apanhado de histórias e personagens que nunca tiveram nenhuma relação, mas que, na produção, parecem ser íntimos. Um desserviço àqueles que querem conhecer mais sobre a mitologia grega.

Na história, o Rei Hipérion (interpretado por Mickey Rourke) declara guerra contra os gregos e planeja libertar os Titãs que estão presos no Monte Tártaro. Para isso, ele busca o arco de Epirus, forjado no Olimpo pelo deus da guerra, Ares. Para impedi-lo de achar o arco, Teseu, um plebeu, lidera um exército de rebeldes, além de contar com a ajuda de deuses do Olimpo, como Zeus e Atenas.

O problema é que, na mitologia grega verdadeira, Teseu nunca foi plebeu e se tornou rei depois de matar o Minotauro no labirinto. Até há a cena da morte do Minotauro no filme, mas não é tão importante assim e, depois dela, Teseu não vira rei. Henry Cavill vive o papel de Teseu e Freida Pinto é a mocinha Faedra, um oráculo que é perseguido pelo rei Hipérion. Já a australiana Isabel Lucas encarna a deusa Atenas.

Apesar de já terem desempenhado bons papéis em outros filmes, a atuação dos atores se resume a poses e gritos de raiva contra o mundo. Até seria possível considerar o filme uma boa diversão, mesmo com os desvios das histórias originais, mas uma coisa é inconcebível: deuses como Zeus, Atenas e Poseidon são mostrados como fracos e passíveis de erros e, pasmem, mortais. Como deuses podem ser mortais? Essa é uma pergunta que a trama não responde. Um deus mortal é algo inaceitável até mesmo para um filme como esse. O que não deixa de ser irônico, já que o título do filme é Imortais. Tanta mudança nas figuras mitológicas faz lembrar o filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios (2010), que altera, sem qualquer critério, feitos históricos (leia mais sobre esses filmes ao lado).

Os efeitos especiais, em compensação, são bem-feitos. A vila onde vive Teseu, nas encostas do mar Egeu, é linda. Os cenários das batalhas, como o forte onde os gregos se abrigam para lutar contra o Rei Hipérion, também impressionam. Essa majestosa construção parece com o forte do Abismo de Helm, do filme O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (2002).

O espectador que for assistir a Imortais esperando encontrar um filme semelhante a 300 deve sair decepcionado. O máximo que verá será um punhado de efeitos especiais em uma história sem pé nem cabeça.

Os Muppets estão de volta

Por: Felipe Branco Cruz

Caco, o sapo, já é um senhor de quase 60 anos, mas continua em plena forma. Miss Piggy, sua eterna namorada, é claro, não revela a idade. Um dos casais mais emblemáticos do show business está de volta no filme Os Muppets, que estreia nesta sexta-feira (leia a entrevista com eles abaixo). A Disney, detentora dos direitos dos Muppets, decidiu não traduzir mais nenhum nome de seus personagens para o português, portanto, não estranhe se no filme Caco for chamado de Kermit.

Criados nos anos 50 por Jim Henson, os Muppets começaram como personagens do Vila Sésamo e ganharam o próprio programa nos anos 70. Nessa mesma década, a atração passou a ser transmitida também no Brasil. Na década de 90, uma versão em desenho animado, o Muppet Babies, foi exibida no programa da Mara Maravilha, no SBT. Distantes da TV por quase uma década, quem explica por que ficaram tanto tempo assim longe da tela é o próprio Caco, que veio a São Paulo para divulgar o filme e recebeu a reportagem do JT num hotel de São Paulo. “Na verdade, nunca paramos. Gravamos discos, fizemos especiais, entre outras coisas”, disse Caco. Miss Piggy foi entrevistada em Los Angeles, pelo repórter do Grupo Estado Luiz Carlos Merten. Durante a conversa da reportagem com o sapo de bom coração, realidade e fantasia se misturaram. É que mesmo vendo o profissional responsável por manipular o boneco, quando Caco começa a falar, é difícil não entrar na onda e interagir com o Muppet, como se ele fosse de carne e osso.

O longa conta a história de Walter, um muppet, irmão de Gary (Jason Segel), um humano. Walter é um dos maiores fãs dos Muppets e sonha em vê-los de volta. Os dois viajam para Los Angeles, junto com Mary (Amy Adams), a noiva de Gary. Lá, descobrem que Tex Richman (Chris Cooper) quer perfurar um poço de petróleo em plena Hollywood Boulevard, onde fica o teatro dos Muppets. Walter decide ajudá-los reunindo todo o grupo, inclusive Gonzo, Miss Piggy e Animal, para um Teleton. Fofo e com um roteiro inocente, Os Muppets é repleto de números musicais. Um prato cheio para conquistar novos fãs e encher de nostalgia os mais velhos.

Como é de praxe, há participações especiais que vão desde o vocalista do Foo Fighters, Dave Grohl, até a namorada de Justin Bieber, Selena Gomez. Todos interpretando a si próprios. Selena, que tem 19 anos, não chegou a ver Muppets na TV e brinca com isso no longa. “Não sei quem são vocês, mas meu agente disse que seria bom para mim participar do filme”, diz ela, na sua única fala no filme.

Entrevista: Caco, o Sapo

‘Sempre acreditei que eu e Piggy ficaríamos juntos’

Finalmente, você e Miss Piggy vão viver juntos?
Sempre acreditei que ficaríamos juntos para sempre. Mas nossa relação tem de ser revista a cada hora. Fale comigo daqui a uma hora e eu vou dizer como estamos.

O relacionamento de vocês é assim porque Piggy é uma garota muito instável?
É porque ela foi criada num estábulo (uma brincadeira com as palavras em inglês unstable, que significa instável, e estable, estábulo). Ela é muito temperamental e gosta que suas vontades sejam feitas na hora. Mas é muito doce.

E como seria o filho de vocês?
Seria assustador! Acho que o nosso filho se chamaria Frigs (mistura das palavras frog, sapo, com pig, porco). Sou um anfíbio e ela é um mamífero.

No filme, vocês fazem piadas com vocês mesmos.
Sim. Fazemos isso. Nós chamamos de “quebrando a quarta parede”. Conversamos com o público. Gosto de fazer referência ao próprio filme dentro do filme.

Como são as participações especiais de atores de carne e osso?
É sempre divertido. Temos Dave Grohl, Jim Parson, Selena Gomez, Whoopi Goldberg, Jack Black. Mas foi bom também atuar com Jason Segel, Chris Cooper, Amy Adams, Emily Blunt e Rashida Jones. Sempre falo da Rashida, mas não conte para a Miss Piggy. A personagem de Rashida me maltrata muito no filme. Rashida é filha de Quincy Jones! Isso não é legal? Depois de 30 anos com Miss Piggy, me sinto atraído por mulheres fortes como Rashida.

Nossa! E se Miss Piggy souber dessa atração?
Espero que ela nunca saiba. A Miss Piggy é uma estrela e não se mistura. Ela só faz suas cenas separada de outras atrizes, ela usa chroma key. Tomara que Miss Piggy nunca saiba.

Como vocês pretendem conquistar o público mais novo, que não conhece vocês?
Na verdade, o filme nos mostra como se fôssemos ultrapassados. Mas, há 12 anos, estamos trabalhando sem parar. O pessoal da década de 70, 80 e 90 já apresentou os Muppets aos filhos.

Como vê a diferença entre os Muppets e os filmes digitais?
Se eu fosse o Shrek, você não estaria conversando aqui comigo. Você nunca me conheceria. Se fizermos outro filme e eu voltar ao Brasil, vou lembrar de você porque nós conversamos ao vivo. Sapos têm boa memória.

Entrevista Miss Piggy

Por Luiz Carlos Merten, de Los Angeles

‘Fiz o filme porque a produção me deixou ficar com os sapatos’

Estive no Hollywood Boulevard, encontrei a estrela de Caco na Calçada da Fama, mas não a sua. A senhora não tem?
Veja como são as pessoas. Não sabem reconhecer o verdadeiro glamour. Caco é um bom rapaz, mas daí a acharem que é um astro, isso é um reflexo da mediocridade dominante. O dia em que o brilho for reconhecido nesta indústria, eles darão minha estrela, a moi.

Glamour, residência em Paris. O que a senhora está vestindo?
Chama-se vestido, meu bem.

Não, eu quero saber a grife.
E lá isso importa? Que eu use, isso sim é importante. Não importa o tecido, o corte, a elegância c’est moi.

O que a fez aceitar a ideia de um novo filme?
O fato de ele haver sido feito especialmente para moi e também porque a produção me deixou ficar com todos os sapatos que uso. São lindos.

Caco diz que o verdadeiro sentido da volta dos Muppets é a vitória da amizade. O que acha disso?
Concordo. Amizade, mas com glamour.

A história de amor de vocês é platônica. Caco surgiu nos anos 1950, está ficando idoso, mesmo que se mantenha bem. Qual é o futuro de vocês?
O Caco pode ficar sentado na lagoa, caçando moscas e vai achar que a vida é perfeita, desde que tenha amigos. Eu quero muito mais, sou cosmopolita. Amigos, sim, mas os sapatos, um passeio de limo. Moi, o que quero é diversão.

Dois belíssimos momentos do filme ‘Rio’

Amanhã, no JT, eu publico a minha crítica do filme. Até lá curtam dois belíssimos momentos do filme ‘Rio’. Lindos.

Bom Dia, Nova York

Harrison Ford, Diane Keaton e elenco falam sobre ‘Uma Manhã Gloriosa’,
comédia que narra os bastidores de um programa de TV matutino

Felipe Branco Cruz
De Nova York

Rachel McAdams durante a coletiva de imprensa, em NY

Rachel McAdams durante a coletiva de imprensa, em NY

Harrison Ford, Rachel McAdams, Diane Keaton, Jeff Goldblum e Patrick Wilson entram numa sala do 29º andar do hotel Waldorf Astoria, em Nova York, para conversar com cerca de 30 jornalistas do mundo inteiro sobre o filme Uma Manhã Gloriosa, que estreia amanhã no Brasil. O que vem à cabeça, antes do próprio Ford se pronunciar, é de que ele personifica Han Solo (de Guerra nas Estrelas), Rick Deckard (de Blade Runner) e Indiana Jones. Celebrizado por interpretar homens durões, Ford agora está investindo no humor. E nesta comédia, são justamente o mau humor e o sarcasmo de seu personagem, um âncora de telejornal, as apostas para levar o público às gargalhadas.

“Não me inspirei em nenhum jornalista da vida real para criar meu personagem”, diz Ford. Em seguida, o ator passa o microfone para Rachel McAdams e depois a Diane. Por fim, Goldblum explica como compôs seu Jerry Barnes, diretor de emissora. O ator, que ficou conhecido em Independence Day (1996) e em A Mosca (1986), começa a falar descontroladamente, buscando fundamento na história de vida de vários jornalistas para explicar seu papel. Alguns colegas da imprensa bocejam e fica a cargo de Ford, finalmente, quebrar o gelo. “Não sabia que para interpretar precisasse de tanto potencial”, diz. O grupo de jornalistas ri.

O filme é, no entanto, de Rachel, que faz uma desastrada, porém competente jornalista. “Conversei com produtores executivos dos programas Good Morning America (ABC) e Today Show (NBC) para criar Becky”, diz. E não faltaram elogios a Ford e Diane. “Eles são incríveis e elevaram o nível do filme. Gostei de ver Harrison Ford fazer um homem nervoso e estressado”.

No canto da mesa, Diane interrompe. “Acho que é um filme sobre a amizade que surge entre o personagem de Harrison e de Rachel. Trata-se da história de um homem muito, muito, muito velho…é brincadeira, Harrison!.. .que fica amigo de uma garota linda e fabulosa”, diz a atriz.

Dirigir atores como Ford, Diane e Rachel, segundo Roger Mitchell, foi fácil. “Diane é ótima para comédias. Ela topa tudo. Tive uma ideia de colocá-la vestida como lutadora de sumô e ela achou o máximo”, diz Mitchell. “Rachel é muito aberta a novas ideias. Ela se mostrou uma boa comediante e a cada dia trazia uma ideia nova que captávamos ao vivo”, diz.

Um dos desafios da produção de Uma Manhã Gloriosa foi transformar a cinzenta Nova York numa cidade ensolarada. “Como muita coisa acontece dentro do estúdio de televisão, precisávamos mostrar cenas externas com bastante luz. Além disso, o programa do qual Rachel é a produtora, começa de manhã e tínhamos de captar o belíssimo nascer do sol que, em Nova York, se alinha exatamente com uma de suas ruas paralelas”, explica Mitchell. A solução foi colocar alguns filtros na câmera para obter o efeito desejado. “Fizemos ótimas imagens”, garante o cineasta.

Programas matutinos
Ford aproveitou para comentar sobre os programas matutinos. Ele lembrou que, nos Estados Unidos, há vários canais 24 horas de notícias, que hoje se atêm mais a demorados perfis de famosos do que ao noticiário do dia. “O que os cidadãos têm de exigir é informação de qualidade. Queremos saber o que está acontecendo no mundo e isso pode ser passado nos matutinos”, diz o ator. Sua principal fonte de informação, no entanto, é o rádio. “É mais claro e não depende de uma foto para te contar uma história”, justifica.

Depois das explicações de praxe sobre direção, roteiro, enquadramento, escolha de trilha sonora etc, chegava o momento de falar sobre amenidades. E como o personagem de Ford se mostra um cozinheiro de mão cheia, questionam se ele gosta de cozinhar. “Adoro cozinhar em casa. Gosto de carne e Donuts. Não acho graça nesses caras que dizem que um bom vinho tinto pode acabar com sua vida”, afirma o ator. E de qual prato mais gosta? “Do prato fundo”.

Ao final, os produtores avisam que os jornalistas não devem se levantar até que os atores tenham deixado a sala. Ford se impressiona com a notícia, mas aproveita para fazer graça. Quando está quase saindo da sala, vira-se e aponta o dedo para um jornalista sentado lá no fundo: “Ei, você aí no canto! É para ficar sentado até sairmos”. Ford dá um sorriso e, junto com os outros, deixa a sala.

No papel de rabugento, Harrison Ford diverte
É possível que o público brasileiro se identifique fácil com Uma Manhã Gloriosa, que estreia amanhã. O longa-metragem fala sobre uma jornalista a quem é dada a missão de renovar e aumentar os índices de audiência de um fracassado programa matutino, nos moldes de vários programas que temos na nossa televisão, como Mais Você (Globo), Hoje em Dia (Record), Manhã Gazeta (Gazeta) e Dia Dia (Band).

Becky Fuller (Rachel McAdams) é produtora do Daybreak, programa matinal de uma fictícia rede de televisão. Colleen Peck (Diane Keaton), uma senhora respeitável e ex-miss, é a apresentadora desse programa. O diretor do canal, Jerry Barnes (Jeff Goldblum), quer acabar com a atração e dá um prazo para Becky melhorar os índices de audiência, senão, todos serão mandados embora. Becky consegue convencer o respeitado, casca-grossa e premiado jornalista investigativo Mike Pomeroy (Harrison Ford) a dividir a bancada do programa com Colleen, na esperança de que ele dê alguma credibilidade ao Daybreak. O problema é que o jornalista despreza esse tipo de produção, é incapaz de dizer a palavra “fofo” e irá fazer de tudo para atrapalhar o andamento do trabalho.

A grosso modo, é como se um jornalista do porte de William Waack (Jornal da Globo) – mas mal-humorado – que já ganhou dois Prêmios Esso (o mais importante do jornalismo brasileiro), passasse a dividir a bancada do Mais Você com Ana Maria Braga e tivesse de exibir reportagens sobre animais de estimação, moda, beleza e outras amenidades, além de receitas culinárias.

Roger Mitchell é o diretor do longa. É dele a comédia romântica Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), com Julia Roberts e Hugh Grant. Uma Manhã Gloriosa traz em seu DNA, portanto, a irreverencia e o sabor de Notting Hill e seus personagens excêntricos, mas consegue também ser completamente diferente. Não se trata de uma comédia romântica que conta a história de amor de um casal e, sim, de um filme inteligente e engraçado. Nas salas de Nova York, onde o longa foi exibido para os críticos, o comentário geral era de que essa era uma das melhores comédias do ano. O que é verdade. Quem se destaca mesmo é Rachel McAdams. Parece que o filme foi feito para ela. A interpretação que faz, de uma personagem elétrica e desastrada, é espontânea. Ford, por outro lado, convence completamente como o jornalista durão. Os embates ao vivo que seu personagem tem com o de Diane são impagáveis. Uma Manhã Gloriosa é um dessas filmes em que é impossível não deixar se contagiar.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 339 other followers