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Esses amigos valem por um milhão

Por: Felipe Branco Cruz

É fácil reconhecer uma grande prova de amizade quando ela ocorre em situações extremas, como em meio a uma guerra ou diante de uma doença incurável. É em momentos como esses, por exemplo, que é possível saber se uma pessoa é realmente sua amiga. Difícil é descobrir uma boa história de amizade dentro de situações comuns, corriqueiras, e que, ainda assim, seja uma grande história. A jornalista catarinense Cleusa Slaviero, de 49 anos, usou a máxima do poeta Vinicius de Moraes – “a gente não faz amigos, reconhece-os” –, para contar, pelo menos, 17 boas histórias sobre esse nobre sentimento, que foram listadas no livro Sobre Amizade (Editora Compactos).

No livro há, é claro, grandes provas de amizades, daquelas de arrepiar, sobre pessoas que se sacrificaram em prol do amigo. Mas há também histórias singelas, entre duas pessoas que foram amigas durante toda a vida. “No fim, eu tinha 55 casos de amizades. Minha maior preocupação ao escolher aqueles que entrariam no livro foi a justamente mesclar histórias extraordinárias e comuns”, explica Cleusa. Todas as histórias descritas são reais e seus protagonistas, pessoas conhecidas da autora ou indicada – por amigos, é claro. “Uma amizade não precisa ter um componente incrível. Pode surgir de um relacionamento muito simples”, diz Cleusa.

Histórias simples e incríveis
Há na obra a história de Isabel Val, que fugiu com a família da guerra de Angola e encontrou abrigo e amizades verdadeiras no Brasil. E também a da fluminense Maria Salete Barbosa, que teve amigos que lhe deram estudo, trabalho, viagens e companheirismo.

Cleusa conta que, entre os homens, os casos de amizade quase sempre envolvem dinheiro. “Há um preconceito muito grande em torno desse assunto e queria colocar no livro o caso de um homem rico e sua relação com os amigos. As pessoas pensam que o rico só quer se relacionar com outro rico ou que os amigos estão com ele por interesse”, diz a autora, que apresenta no livro o personagem Joel Malucelli. “Ele me disse que tinha 200 mil amigos e pediu para que eles contassem sua história. E foi assim que fiz.”

As histórias de amizade relatadas por Cleusa vêm de todo o País, de cidades como Araras (SP), Curitibanos (SC), Curitiba (PR), Barra Mansa (RJ), e até outros países, como Japão, de onde vem a de Debora Almeida. “É um caso de amizade que sobreviveu à distância. Hoje elas se falam sempre pela internet”, conta a autora.

Cleusa diz que resolveu escrever o livro após a morte do irmão. Ela estava na faculdade e os amigos a ajudaram no trabalho de conclusão de curso. “Sugeriram que eu fizesse um livro-reportagem sobre amizades”. O trabalho ficou pronto e serviu de base para esta obra, que foi posteriormente revisada e adicionada de novas histórias. Dos dois anos de pesquisa, o que fica da obra é que, uma das coisas mais importantes que uma pessoa pode conquistar é sua amizade. E, contrariando o Rei, ensina que antes de querer ter um milhão de amigos, melhor mesmo é ter um só, desde que leal.

Conselhos do Dr. Ozzy

Por: Felipe Branco Cruz

Dependendo do ponto de vista, a justificativa para pedir conselhos médicos e amorosos ao Príncipe das Trevas, Ozzy Osbourne, soa estranhamente válida. Vamos partir do princípio que seu médico “só” estudou Medicina. Ozzy, apesar de nunca ter pisado numa faculdade do gênero, já engoliu uma abelha quando dirigia a 110 km/h e foi declarado morto duas vezes. Sua família foi eleita a mais disfuncional da civilização ocidental e, por ter mordido um morcego – cena que o consagrou, aliás –, ele teve de tomar, durante semanas, várias injeções antirrábicas. Que médico já passou por isso? Talvez nenhum.

Aos 62 anos, o roqueiro já foi diagnosticado (erroneamente) com mal de Parkinson, quebrou o pescoço ao cair de um quadriciclo e sobreviveu a um acidente de avião. Agora, pense de novo: que seres humanos já passaram por isso? Sem contar que o eterno vocalista do Black Sabbath é uma lenda viva do rock. Sim, lenda viva. O fato de ainda respirar pode ser considerado um milagre. Afinal, durante toda a vida, ele consumiu, sem moderação, praticamente todo tipo de droga e sobreviveu a muitas overdoses.

Naquele que pode ser considerado quase um livro de autoajuda, Confie em Mim, Eu Sou o Dr. Ozzy – Conselhos do Maior Sobrevivente do Rock (Ed. Benvirá), o Príncipe das Trevas responde a questões como: “Meu filho começou a fumar para impressionar a namorada. Como faço para ele parar?” ou “Achei pornografia no computador do meu filho. O que faço?”. Além da experiência de vida, Ozzy também é pai de família. Dessa forma, supõe-se que ele teve de lidar com muitas dessas questões em casa. Para ele, isso o torna suficientemente qualificado para respondê-las.

Seu trabalho de conselheiro amoroso começou quando um representante do Sunday Times Magazine o convidou para ser colunista de saúde e relacionamentos há cerca de um ano. Os conselhos fizeram tanto sucesso que Ozzy compilou as melhores respostas e as lançou neste livro.

Numa pequena introdução, ele justifica por que o escolheram como o homem certo para conselhos. “Provavelmente, há ratos nos laboratórios do Exército dos Estados Unidos que viram menos substâncias químicas na vida do que eu (…). Tenho mais parafusos de metal em mim atualmente do que um móvel da Ikea.”

A obra é dividida por temas de dicas: médicos, alimentares, familiares, queixas comuns, amizades, sexo, entre outros. O livro é organizado em forma de perguntas e respostas. Apesar de toda a loucura de Ozzy, suas respostas, na maioria das vezes, são até sensatas. E outras hilariantes. Um desses exemplos é quando ele responde a um garoto sobre como fazer uma garota atingir o orgasmo: “Sempre fiquei tão ocupado em me dar um orgasmo que não prestei muita atenção nisso. Mas, se você descobrir, me avise”.

Numa outra pergunta, Ozzy responde a um jovem como convencer uma mulher a dormir com ele. “Sempre tive uma grande cantada para a mulherada”, escreve Ozzy. “Depois de uma noitada, eu dizia: ‘Posso ir para a sua casa para assistir à televisão?’ Eu achava que era uma tirada brilhante (…), só que ninguém nunca caiu nessa. Na maioria das vezes, elas me diziam: ‘Eu não tenho televisão’.”

Mesmo dando o que chama de bons conselhos, Ozzy tem bom senso ao afirmar que, em alguns casos, o melhor é deixar a leitura de lado e ir ao médico. No mais, a única solução infalível do livro é boas gargalhadas.

Ficção científica tupiniquim

Por: Felipe Branco Cruz
Fonte: Jornal da Tarde

O escritor Jorge Luiz Calife, 59 anos, não tem celular. “Acho chatíssimo aquela caixinha tocando toda hora”, diz. Mas é considerado um dos grandes autores brasileiros de ficção científica hard, segmento em que os textos são elaborados com rigor científico, com inspiração na astronomia, biologia, genética e computação. Os personagens de Calife, presentes na trilogia Padrões de Contato, escrita há 26 anos, usavam apetrechos tecnológicos que só agora vemos nas ruas, tais como tablets (descrito na obra como videoprancheta), conexões sem fio, memórias digitais no lugar de papel, imagens em 3D, telefones celulares e videoconferências. “Nem toda a tecnologia me entusiasma. Mas eu teria um tablet se não fosse tão caro”.

A trilogia conta a história de Angela, uma humana que se tornou imortal após ter contato com a tríade, uma super inteligência galáctica. Embora a obra seja bem completa, ainda faltava contar os primeiros anos de vida de Angela. Sua história é revelada no novo livro de Calife, publicado recentemente, Angela Entre Dois Mundos, pela editora Devir Livraria. Padrões de Contato, Horizonte de Eventos e Linha Terminal, que compõem a trilogia, lançada entre 1985 e 1991, foram também relançadas em volume único, pela mesma editora. “No Universo, quase tudo é possível. Mas fazer contato com uma super inteligência como a tríade, só seria possível se ela quisesse fazer contato conosco”, diz.

Angela Entre Dois Mundos mostra como a personagem humana – mas que nasceu e cresceu nas luas geladas de Saturno – chega à Terra, no século 25, e encontra um mundo alterado pela mudança climática, com humanos vivendo em residências aéreas, nas nuvens. O planeta é totalmente controlado pela corporação Norland. “As videopranchetas já apareciam no filme ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’. Até tinha o logotipo da IBM, que pesquisava sobre o assunto na época em que o filme foi lançado, em 1968”, diz.

Calife faz parte de um seleto grupo de autores que escrevem ficção científica hard. Alguns expoentes desse segmento são Arthur C. Clarke, de 2001: Uma Odisséia no Espaço, H. G. Wells, de A Máquina do Tempo, Isaac Asimov, de Eu, Robô, e Júlio Verne, com seu clássico 20 Mil Léguas Submarinas. Calife ganhou reconhecimento quando, no início da década de 80, Arthur C. Clarke agradeceu a ele, no livro 2010: O Ano Em Que Faremos Contato, pelas ideias dadas pelo brasileiro para a continuação da obra.

Reconhecimento internacional
À época, Calife e Clarke trocaram diversas correspondências, nas quais um comentava o trabalho do outro. “Agradeço ao Sr. Jorge Luiz Calife, do Rio de Janeiro, por uma carta que me fez pensar seriamente numa possível continuação de ‘2001: Uma Odisseia No Espaço’”, escreveu Clarke, na parte do livro dedicada aos agradecimentos. “Mandava um postal do Rio de Janeiro e ele me retornava com um do Ceilão. Se eu tinha alguma dúvida, perguntava para ele e ele respondia”, conta Calife. “A ideia das residências aéreas, que está em meu livro, foi sugestão dele”, revela.

Arthur Clarke talvez tenha sido otimista demais com suas previsões, ao acreditar que o mundo seria muito diferente em 2001. Mas Calife defende o colega. “O futuro previsto por ele aconteceria se a União Soviética tivesse colocado homens na Lua em 1968 ou 69”, explica. “Se isso tivesse acontecido, os americanos teriam construído bases lunares e enviado homens a Marte. Tudo isso foi abandonado quando a União Soviética caiu”.

Hoje, Calife mora em Pinheiral, município de 22 mil habitantes, no interior do Rio de Janeiro. A decisão de viver numa cidade pequena, tomada na década de 90, foi motivada pela violência na capital carioca. “Em Pinheiral, eu tenho uma visão do céu que não se consegue nas grandes cidades. Outro dia, vi a Estação Espacial Internacional, deslizando como uma grande estrela no crepúsculo. Ela é tão brilhante quanto Vênus”. Quando Calife começou a escrever seus livros, a internet ainda era um projeto militar. O autor diz que há informação em todos os lugares. É só saber procurar. “Uma das ideias do meu livro, sobre cidades verticais, são baseadas nas ideias de Paolo Soleri e de Buckminster Fuller. A primeira vez que li sobre eles foi numa edição americana da Playboy”.

Calife escreve sobre temas difíceis, mas também se dedica à literatura infantil, em obras como Onde o Vento faz a Curva, Cecília no Mundo da Lua e Rex, O Cachorro que Tinha Medo de Trovoada. “A linguagem muda. Mas o trabalho de criação de histórias e personagens é o mesmo. As crianças são mais exigentes do que os adultos”.

Velha conhecida

Para se inspirar e ficar longe das ‘tentações’ da internet,
jovens autores redescobrem os prazeres da máquina de escrever

Felipe Branco Cruz

Mayra Lopes, de 24 anos, sentia saudades de um amigo que estava morando em outro país. Por um motivo bobo, os dois tinham brigado. Para se desculpar, ela resolveu mandar-lhe uma carta. Mas não uma carta qualquer, porque ela datilografava o texto usando uma máquina de escrever. Nervosa e arrependida, chorava. Suas lágrimas mancharam o papel e borraram o texto. Ela não passou a limpo e enviou o texto assim mesmo, com todas as marcas. “A pessoa percebeu que foi um pedido de desculpas cheio de emoção e me perdoou. Isso nunca seria possível caso eu a enviasse por e-mail”, diz Mayra.

A poesia dos textos escritos sem um meio digital passou a atrair jovens com menos de 30 anos que, em tempos de supercomputadores e iPad, veem na máquina de escrever uma inspiração. Segundo a escritora Marci Kühn, de 24 anos, o que os jovens buscam é emular a sensação que seus autores favoritos sentiam quando escreviam. “Quando se fala em Manuel Bandeira, Graciliano Ramos ou Clarice Lispector, você não os imagina atrás de um computador e sim de uma máquina de escrever.” Ela é apenas uma entre vários de sua geração que preferem o charme da velha máquina à sisudez do computador.

No caso de Mayra, a atração pelo método transcende o saudosismo. Dona de uma Remington, que ganhou de aniversário há dois anos, ela justifica sua opção pelo objeto dizendo que, ao sentar-se diante dele, não há nada para distraí-la, como sites na internet e MSN. “Se pudesse compraria mais, para deixar na estante, como enfeite”, conta. “Mas uma coisa não exclui a outra, também uso computador.”

O equipamento traz outras vantagens. Há quem goste dos barulhos, do ‘plim’ de quando se chega ao final da linha, das teclas mais duras… Marci conta que, ao debruçar-se sobre a máquina, contempla o papel em branco, o que a obriga a pensar em cada palavra antes de escrever, porque não dá para corrigir os erros. “Quando olhamos para a tela do computador temos a impressão de que tudo já está pronto”, diz ela. Foi sem permitir-se as vantagens de um editor de texto de computador que ela escreveu seu primeiro livro, No Mar e Outros Contos, de 66 páginas. Detalhe: a obra é vendida pela internet em formato de e-book.

A mesma ironia persegue a carioca Daniela Lima, de 28 anos, formada em Física pela UFRJ e estudante de jornalismo. Os dois livros que escreveu foram feitos à máquina, mas só são vendidos digitalmente. “Gosto das coisas físicas, de vinil, de livros, nada digital e, ironicamente, meus livros ainda não foram publicados em papel.” Em seu notebook analógico, forma como ela chama sua máquina de escrever, ela também digita contos e textos que depois são transcritos para seu blog: danielalima.com. Mayra faz a mesma coisa no blog pointlesswriting.wordpress.com.

Mesmo com essas modernidades, os macetes ao digitar permanecem: é preciso bater nas teclas com todos os dedos e de forma correta. “Catar milho é muito feio”, diz a professora de datilografia Elen Ferreira, de 44 anos. Ela é dona da LED Informática, na região do Jardim Tremembé, uma escola de datilografia que, para não falir, migrou para a era digital. Elen, que herdou o negócio da mãe e atua no ramo há 30 anos, começa os ensinamentos na máquina, depois passa para o computador. “Há alguns anos, ainda exigia-se diploma de datilografia para prestar concurso para juiz de direito.” Hoje, só manuseia a máquina de escrever quem quer.

Maurício de Sousa

Tive a felicidade de encontrar com a pessoa que atualmente é a mais importante para o incentivo da leitura e da educação brasileira.
Sem comentários para o CARA, que através de suas historinhas em quadrinhos me incentivou imensamente o gosto pela leitura.

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