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Conselhos do Dr. Ozzy
Por: Felipe Branco Cruz
Dependendo do ponto de vista, a justificativa para pedir conselhos médicos e amorosos ao Príncipe das Trevas, Ozzy Osbourne, soa estranhamente válida. Vamos partir do princípio que seu médico “só” estudou Medicina. Ozzy, apesar de nunca ter pisado numa faculdade do gênero, já engoliu uma abelha quando dirigia a 110 km/h e foi declarado morto duas vezes. Sua família foi eleita a mais disfuncional da civilização ocidental e, por ter mordido um morcego – cena que o consagrou, aliás –, ele teve de tomar, durante semanas, várias injeções antirrábicas. Que médico já passou por isso? Talvez nenhum.
Aos 62 anos, o roqueiro já foi diagnosticado (erroneamente) com mal de Parkinson, quebrou o pescoço ao cair de um quadriciclo e sobreviveu a um acidente de avião. Agora, pense de novo: que seres humanos já passaram por isso? Sem contar que o eterno vocalista do Black Sabbath é uma lenda viva do rock. Sim, lenda viva. O fato de ainda respirar pode ser considerado um milagre. Afinal, durante toda a vida, ele consumiu, sem moderação, praticamente todo tipo de droga e sobreviveu a muitas overdoses.
Naquele que pode ser considerado quase um livro de autoajuda, Confie em Mim, Eu Sou o Dr. Ozzy – Conselhos do Maior Sobrevivente do Rock (Ed. Benvirá), o Príncipe das Trevas responde a questões como: “Meu filho começou a fumar para impressionar a namorada. Como faço para ele parar?” ou “Achei pornografia no computador do meu filho. O que faço?”. Além da experiência de vida, Ozzy também é pai de família. Dessa forma, supõe-se que ele teve de lidar com muitas dessas questões em casa. Para ele, isso o torna suficientemente qualificado para respondê-las.
Seu trabalho de conselheiro amoroso começou quando um representante do Sunday Times Magazine o convidou para ser colunista de saúde e relacionamentos há cerca de um ano. Os conselhos fizeram tanto sucesso que Ozzy compilou as melhores respostas e as lançou neste livro.
Numa pequena introdução, ele justifica por que o escolheram como o homem certo para conselhos. “Provavelmente, há ratos nos laboratórios do Exército dos Estados Unidos que viram menos substâncias químicas na vida do que eu (…). Tenho mais parafusos de metal em mim atualmente do que um móvel da Ikea.”
A obra é dividida por temas de dicas: médicos, alimentares, familiares, queixas comuns, amizades, sexo, entre outros. O livro é organizado em forma de perguntas e respostas. Apesar de toda a loucura de Ozzy, suas respostas, na maioria das vezes, são até sensatas. E outras hilariantes. Um desses exemplos é quando ele responde a um garoto sobre como fazer uma garota atingir o orgasmo: “Sempre fiquei tão ocupado em me dar um orgasmo que não prestei muita atenção nisso. Mas, se você descobrir, me avise”.
Numa outra pergunta, Ozzy responde a um jovem como convencer uma mulher a dormir com ele. “Sempre tive uma grande cantada para a mulherada”, escreve Ozzy. “Depois de uma noitada, eu dizia: ‘Posso ir para a sua casa para assistir à televisão?’ Eu achava que era uma tirada brilhante (…), só que ninguém nunca caiu nessa. Na maioria das vezes, elas me diziam: ‘Eu não tenho televisão’.”
Mesmo dando o que chama de bons conselhos, Ozzy tem bom senso ao afirmar que, em alguns casos, o melhor é deixar a leitura de lado e ir ao médico. No mais, a única solução infalível do livro é boas gargalhadas.
Velha conhecida
Para se inspirar e ficar longe das ‘tentações’ da internet,
jovens autores redescobrem os prazeres da máquina de escrever
Felipe Branco Cruz
Mayra Lopes, de 24 anos, sentia saudades de um amigo que estava morando em outro país. Por um motivo bobo, os dois tinham brigado. Para se desculpar, ela resolveu mandar-lhe uma carta. Mas não uma carta qualquer, porque ela datilografava o texto usando uma máquina de escrever. Nervosa e arrependida, chorava. Suas lágrimas mancharam o papel e borraram o texto. Ela não passou a limpo e enviou o texto assim mesmo, com todas as marcas. “A pessoa percebeu que foi um pedido de desculpas cheio de emoção e me perdoou. Isso nunca seria possível caso eu a enviasse por e-mail”, diz Mayra.
A poesia dos textos escritos sem um meio digital passou a atrair jovens com menos de 30 anos que, em tempos de supercomputadores e iPad, veem na máquina de escrever uma inspiração. Segundo a escritora Marci Kühn, de 24 anos, o que os jovens buscam é emular a sensação que seus autores favoritos sentiam quando escreviam. “Quando se fala em Manuel Bandeira, Graciliano Ramos ou Clarice Lispector, você não os imagina atrás de um computador e sim de uma máquina de escrever.” Ela é apenas uma entre vários de sua geração que preferem o charme da velha máquina à sisudez do computador.
No caso de Mayra, a atração pelo método transcende o saudosismo. Dona de uma Remington, que ganhou de aniversário há dois anos, ela justifica sua opção pelo objeto dizendo que, ao sentar-se diante dele, não há nada para distraí-la, como sites na internet e MSN. “Se pudesse compraria mais, para deixar na estante, como enfeite”, conta. “Mas uma coisa não exclui a outra, também uso computador.”
O equipamento traz outras vantagens. Há quem goste dos barulhos, do ‘plim’ de quando se chega ao final da linha, das teclas mais duras… Marci conta que, ao debruçar-se sobre a máquina, contempla o papel em branco, o que a obriga a pensar em cada palavra antes de escrever, porque não dá para corrigir os erros. “Quando olhamos para a tela do computador temos a impressão de que tudo já está pronto”, diz ela. Foi sem permitir-se as vantagens de um editor de texto de computador que ela escreveu seu primeiro livro, No Mar e Outros Contos, de 66 páginas. Detalhe: a obra é vendida pela internet em formato de e-book.
A mesma ironia persegue a carioca Daniela Lima, de 28 anos, formada em Física pela UFRJ e estudante de jornalismo. Os dois livros que escreveu foram feitos à máquina, mas só são vendidos digitalmente. “Gosto das coisas físicas, de vinil, de livros, nada digital e, ironicamente, meus livros ainda não foram publicados em papel.” Em seu notebook analógico, forma como ela chama sua máquina de escrever, ela também digita contos e textos que depois são transcritos para seu blog: danielalima.com. Mayra faz a mesma coisa no blog pointlesswriting.wordpress.com.
Mesmo com essas modernidades, os macetes ao digitar permanecem: é preciso bater nas teclas com todos os dedos e de forma correta. “Catar milho é muito feio”, diz a professora de datilografia Elen Ferreira, de 44 anos. Ela é dona da LED Informática, na região do Jardim Tremembé, uma escola de datilografia que, para não falir, migrou para a era digital. Elen, que herdou o negócio da mãe e atua no ramo há 30 anos, começa os ensinamentos na máquina, depois passa para o computador. “Há alguns anos, ainda exigia-se diploma de datilografia para prestar concurso para juiz de direito.” Hoje, só manuseia a máquina de escrever quem quer.
Maurício de Sousa
Tive a felicidade de encontrar com a pessoa que atualmente é a mais importante para o incentivo da leitura e da educação brasileira.
Sem comentários para o CARA, que através de suas historinhas em quadrinhos me incentivou imensamente o gosto pela leitura.
