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Enfim, um escritor sem estilo

Morreu hoje um dos grandes jornalistas e humoristas brasileiros, Millor Fernandes. Em homenagem a ele, publico abaixo um soneto escrito por ele em 1945, na Revista O Cruzeiro. Quando eu ainda estudava jornalismo, gostava de recitar esse poema, que não quer dizer absolutamente nada, mas é muito sonoro!

Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se parte carmo tu que esperepéia
Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso
sem ter mavorte fide lastimina
és todavia piso de horroroso
e eu reclamo – Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco
martume ezole, ezole martumar
que tua para enfim é mesmo um taco.

e se rabela capa de casar
estrumenente siba postguerra
enfim irá, enfim irá pra serra.

Fonte: http://www2.uol.com.br/millor/aberto/poemas/001.htm

Morre Chico Anysio, gênio do humor da TV brasileira

Por Cristina Padiglione, com Felipe Branco Cruz

Despediu-se do riso, dos palcos e da vida de múltiplas personas, em consequência de problemas cardiorrespiratórios, ontem às 14h52 no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, após três meses de internação, um dos grandes mestres do humor, o cearense Francisco Anysio de Oliveira Paula, aos 80 anos. Chico Anysio não resistiu a uma parada cardiorrespiratória e morreu de falência múltipla de órgãos decorrente de choque séptico causado por infecção pulmonar. O velório será hoje no Theatro Municipal do Rio. O corpo será cremado amanhã, em cerimônia restrita à família.

Nascido em Maranguape, em 12 de abril de 1931, ele assumiu a identidade de dezenas de personagens – Professor Raimundo e seu ‘salário ó’, Bozó, Painho, Coalhada, o ‘símbalo sescual’ Alberto Roberto, Justus Veríssimo, Salomé, o vampiro da ‘vingança malígrina’ Bento Carneiro, Pantaleão, Nazareno, Haroldo e Azambuja, só para citar alguns –, mas foi sobretudo como Chico Anysio que fez fama e escola.

Havia mais de um ano que Chico exibia saúde frágil, sem contudo se render a sedentarismo ou aposentadoria. Ele deu entrada no Hospital Samaritano, zona sul do Rio, no dia 22 de dezembro de 2011. Recebeu alta para passar o Natal com a família, mas voltou a ser internado com hemorragia digestiva. Em janeiro, ainda hospitalizado, seu estado piorou e ele foi submetido a uma cirurgia de laparotomia exploradora, em que parte de seu intestino delgado foi retirado. No período, passou a sofrer de insuficiência renal, e foi submetido a hemodiálise. Em fevereiro, Chico apresentou melhora, teve a dose de medicamentos diminuída e, lúcido, iniciou sessões de fisioterapia respiratória e motora. No fim do mês, abatido por uma pneumonia, fez uso de antibióticos e passou a respirar com ajuda de aparelhos. Nessa época, aliás, a atual mulher, Malga Di Paula, fez um desabafo contra o cigarro no Facebook. “Chico é uma das vítimas de uma geração desinformada, que usava o cigarro por uma questão de charme”, escreveu Malga na rede social.

Chico se manteve estável até meados de março. No início dessa semana, teve uma complicação renal. Na quarta, foi submetido a hemodiálise. Seu estado foi considerado crítico pelos médicos na manhã de quinta. Segundo o boletim assinado pelo médico Luiz Alfredo Lamy, o humorista estava sedado, respirando com a ajuda de aparelhos e foi submetido a uma punção torácica para drenagem de um hematoma. No início do ano passado, Chico havia passado três meses internado por problemas cardiorrespiratórios. Morando em São Paulo com a sexta mulher, a gaúcha Malga, de 40 anos, frequentava a ponte aérea desde 2010, graças à decisão da Globo de reabrir o caixão de Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro. De lá para cá, o trocou por Salomé – pela comodidade da cena, estática, ao telefone.

Geladeira na Globo
Chico Anysio fazia participações no humorístico Zorra Total, nada perto de ter um programa seu, como acontecia desde os primórdios da TV, até o ano de 2000, quando foi confinado à geladeira. Até lhe dar uma vaga nos especiais de fim de ano, em 2009, a emissora privou por nove anos o telespectador de suas piadas. Declarações de Chico em entrevistas lhe renderam exílio do vídeo (leia ao lado), embora a Globo tentasse camuflar o castigo com participações esporádicas em suas atrações.

A última foi a novela Caminho das Índias (2009), como o pai de Radesh (Marcius Melhem). Nesse ano, dublou o ranzinza Karl, na animação Up – Altas Aventuras. Também era compositor, escritor e pintor, tendo feito várias exposições. Nas suas contas, criou 209 personagens, alguns para outros atores – como o inesquecível Primo Rico, com Paulo Gracindo, em dueto com Brandão Filho.

A carreira começou na Rádio Guanabara, no Rio, para onde a família Anysio de Paula se mudou quando Chico tinha 8 anos. Tornou-se vascaíno só para contrariar o pai, botafoguense. Moravam perto do Fluminense. Jogou bola até o dia em que, esperado para uma partida, foi em casa buscar o tênis e encontrou a irmã Lupi de saída para um teste na Rádio Guanabara. O garoto foi junto e acabou sendo aprovado para radioator e locutor – Chico dizia que tinha virado ator graças ao tênis.

Mas a percepção de que poderia se dar bem no rádio já existia. Àquela altura, o talento de imitar vozes famosas, entre locutores e artistas, o havia feito vencer concursos de calouros. Fazia Oscarito, Saint Claire Lopes, Rodolfo Mayer, James Manson, James Cagney e Luiz Jatobá. Passou ainda pela Rádio Mayrink Veiga. “Ele sempre foi calado, nunca foi de exibições. Todo comediante é meio contido, né?”, afirmou, em abril (nos 80 anos de Anysio) o humorista Lúcio Mauro, companheiro de cena no antológico quadro do personagem Alberto Roberto – “Sou, mas quem não é”, dizia o bordão.

Nos anos 50, era da chanchada no cinema nacional, escreveu e atuou em filmes da Atlântida. Estreou na TV Rio em 1957, no Noite de Gala. Em 59, ingressou no programa Só Tem Tantã, mais tarde Chico Total. Pisou na Globo em 1968 e lá ficou. Carlos Manga, seu diretor nos primórdios, se lembra bem daquela época. “Boni sempre disse que ele seria um fenômeno se tivesse nascido nos Estados Unidos. Pois eu digo: se Chico Anysio tivesse nascido na Inglaterra, ele seria o Chaplin!”, disse. Veio de Manga a ideia de usar o recém-chegado videotape para fazer Chico se desdobrar em personas. “Quando eu vi aquela máquina, pensei logo no Chico. ‘E se eu te disser que posso botar você para contracenar com você mesmo?’, perguntei a ele.” Nascia, em 1960, o Chico Anysio Show. Com Chico, trabalhariam os maiores nomes da TV nacional, em humor ou drama, como Paulo Gracindo, Grande Otelo, Costinha, Walter D’Ávila, Jô Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro, Ivon Curi.

Casamentos e jejum forçado
Casado por seis vezes, e isso não era piada, lançou o livro Como Salvar seu Casamento, com dicas para uma boa relação. “Quem é casado há 40 anos com dona Maria não entende de casamento, mas de dona Maria. De casamento entendo eu, que tive seis”, dizia. Mais 20 livros fecham sua coleção, entre biografias e anedotas.

Chico Anysio deixou 10 netos e 8 filhos: o ator Lug de Paula (o Seu Boneco, na Escolinha do Professor Raimundo, da atriz Nancy Wanderley), o comediante Nizo Neto (o Seu Ptolomeu) e o diretor de imagem Rico Rondelli (da vedete Rose Rondelli), André Lucas, adotado, o DJ Cícero Chaves (da ex-frenética Regina Chaves), o comediante Bruno Mazzeo (da ex-modelo Alcione Mazzeo), além de Rodrigo e Vitória (da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello). Irmão do cineasta Zelito Viana, era tio da diretora Cininha de Paula e do ator Marcos Palmeira.

Quando o assunto era o futuro do humor na TV, discutia, como fez em 2010: “As TVs se fizeram grandes através do humor, e hoje os maiores índices são de programas de humor. Por que não são feitos mais programas, quando temos mais de 50 excelentes comediantes?”. O afastamento da TV o levara à depressão. “Tive seis mulheres, filhos, netos. Se eu não tivesse depressão, teriam de me internar, porque eu seria um psicopata.” Chico foi alvo, há dois anos, da campanha ‘Volta, Chico’ encabeçada por Vesgo e Ceará, do Pânico na TV, pela RedeTV!, que pedia sua volta à grade. “Talvez a Globo esteja achando que eu já tenha feito por ela o suficiente e que deva descansar. Mas eu não quero descanso”, disse ele à ocasião.

Em dezembro de 2009, a direção da Globo se rendeu e lhe abriu uma vaga nos especiais de fim de ano. Por cerca de uma hora, personagens de diversas etnias, estirpes e épocas contracenaram, todos na pele de Chico. Graças a recursos de vídeo, dialogou consigo mesmo, e reuniu uma dezena de tipos na sala do lendário professor Raimundo. O especial fez a Globo resgatar Chico para o Zorra Total. Era o fim do jejum promovido pela Globo, ação endossada pela emissora em comunicado, em 2000, logo após entrevista do humorista à revista IstoÉ, com críticas ao novo modelo de gestão da emissora. “Pela primeira vez, em 47 anos de TV, trabalho numa casa onde ninguém tem acesso à pessoa que nos dirige”, disse, sobre a diretora-geral Marluce Dias da Silva, que substituíra José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

A Globo reagiu em nota, repudiando as declarações e anunciando sua suspensão. Chico rebateu: “Em 53 anos de profissão, sempre expressei livremente meu pensamento sem desrespeitar ninguém, muito menos a Rede Globo, onde trabalho há mais de três décadas (…) Como artista, meu único patrimônio é meu direito de pensar e dizer e, por ser um criador, qualidade inata. A este patrimônio não renuncio, nem em tempo de censura, como agora.”

Apesar das discussões, o humorista disse, em outubro, que se considerava “homem forte”. Não tenho do que reclamar, já fiz tudo o que tinha para fazer.” Seu único arrependimento de vida era ter fumado até os 40 anos. A Globo o manteve sob contrato, evitando sua saída. Para cerrar cortinas e encerrar batalhas, resiste a frase do mestre: “Para mim, há dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. Eu fico com o primeiro”.

Rainha Eterna

Por Felipe Branco Cruz

A atriz inglesa Elizabeth Taylor, a eterna Cleópatra, será homenageada pelo canal por assinatura TCM, que exibirá hoje e amanhã 11 de seus principais filmes (veja a programação completa ao lado). Liz Taylor, como era conhecida, morreu há um ano, no dia 23 de março do ano passado, de insuficiência respiratória. Premiada com o Oscar de melhor atriz em 1961 e 1967 pelos filmes Disque Butterfield 8 e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, respectivamente, ela faz parte de um seleto rol de eternas musas da era de ouro de Hollywood, ao lado de nomes como Rita Hayworth, Marilyn Monroe e Ava Gardner.

Liz Taylor começou a carreira na infância. Aos 9 anos, fez seu primeiro filme, There’s Ono Born Every Minute (1942), e, no ano seguinte, Lassie Come Home, que não tiveram os títulos traduzidos para o português. Linda e talentosa, casou-se oito vezes, sendo duas delas com o mesmo homem: o ator inglês Richard Burton, entre 1964 e 1974 e entre 1975 e 1976. Os outros foram: Conrad Hilton Jr. (1950 a 1951), Michael Wilding (1952 a 1957), Michael Todd (1957 a 1958), Eddie Fisher (1959 a 1964), John Warner (1976 a 1982) e o caminhoneiro Larry Fortensky (1991 a 1996).

Lançado em 1963, o filme Cleópatra foi o mais caro já feito até aquela data, com orçamento de US$ 44 milhões. Por esse papel, Liz Taylor recebeu US$ 1 milhão – sendo a primeira atriz a ganhar essa quantia milionária para fazer um filme. O longa ganhou quatro Oscar em 1964, nas categorias de melhor efeito especial, fotografia colorida, figurino colorido e direção de arte colorida. Chegou a ser indicado também nas categorias de melhor filme, ator (Rex Harrison), edição, trilha sonora e som. Por este filme, no entanto, Liz não recebeu indicação.

Da programação do TCM, além de Disque Butterfield 8, Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e Cleópatra, vale a pena rever A Mocidade é Assim Mesmo, O Pai da Noiva e Gata em Teto de Zinco Quente, todos memoráveis trabalhos da atriz.

Amigos e diamantes
Liz Taylor foi viciada em álcool e drogas, mas conseguiu se reabilitar. Em 1997, teve o cérebro operado, com sucesso. Ficou conhecida pelas campanhas filantrópicas que organizou para levantar fundos para pesquisas contra a aids. E também por colecionar magníficas joias, como o famoso diamante Taylor-Burton, dado de presente por seu marido Richard Burton, de 69,42 quilates. O mesmo diamante foi vendido anos depois por US$3 milhões e o dinheiro, revertido por Liz para construir hospitais em Botswana, na África.

Um de seus melhores amigos foi o pop star Michael Jackson. A atriz era madrinha do primeiro filho de Jackson, Prince Michael Jackson I. Já o cantor dedicou a ela as canções Liberian Girl e Elizabeth, I Love You, e a amparou em seus momentos de fraqueza e durante as separações de seus vários casamentos.

O adeus do arrebatador de corações

Por Felipe Branco Cruz

Wando planejava usar como parte do cenário de seus próximos shows as 17 mil calcinhas que colecionou ao longo de mais de 40 anos de carreira. Não deu tempo. Wanderley Alves dos Reis, nascido em 2 de outubro de 1945, em Minas Gerais, morreu ontem, aos 66 anos, em decorrência de uma parada cardíaca. Que ironia. Depois de arrebatar o coração das mulheres, o seu próprio não aguentou e parou.

Ele estava internado desde 27 de janeiro, no hospital Biocor, em Nova Lima (MG), quando foi submetido a uma angioplastia coronariana de emergência para a desobstrução das artérias. Encaminhado a Unidade de Tratamento Intensivo, passou a respirar com a ajuda de aparelhos. Segundo o boletim médico divulgado pelo hospital, ele teve um “súbito agravamento às 5h40 e parada cardiorrespiratória às 8h” quando morreu. Deixa mulher, Renata Costa Lana e Souza, quatro filhos e dois netos.

O velório foi realizado ontem, às 17h, no Cemitério Bosque da Esperança, em Belo Horizonte. O enterro será hoje, às 11h. Apesar do quadro gravíssimo, Wando chegou a mandar uma mensagem para o programa Fantástico, na Globo, em que dizia: “Estou na oficina de Deus arrumando a turbina. Me aguardem”.

Quando criança, o menino Wanderley (o apelido Wando, ele ganhou da avó) mudou-se para Juiz de Fora (MG), onde estudou violão erudito e fazia shows em festas. No final da década de 60, foi para Volta Redonda (RJ), onde trabalhou como entregador de leite, vendedor de jornais, feirante e caminhoneiro. Foi nessa época que desistiu do violão para compor “músicas de amor para as moças”. Seu primeiro sucesso foi Moça, incluído na trilha da novela Pecado Capital, de 1975. Seu primeiro LP, Glória Deus no Céu e o Samba na Terra, foi lançado em 1979. Na década de 80, passou a cultivar a fama de “cantor mais erótico do Brasil” e lançou canções como Ui-Wando de Paixão, Vulgar, Comum É Não Morrer de Amor, Obsceno, Depois da Cama e Mulheres. Mas estourou mesmo com Fogo e Paixão, com os versos: “Você é luz, é raio, estrela e luar”.

Sua folclórica história com as calcinhas começou com o LP Tenda dos Prazeres, de 1990, que vinha com a peça íntima na capa. O cantor passou a distribui-la nos shows e receber muitas outras em retribuição. A cena se repetiu pelas duas décadas seguintes. Wando gravou 30 discos, compôs mais de 400 músicas e vendeu mais de 10 milhões de cópias em toda a carreira. Ganhou 19 discos de ouro, sete de platina e três de diamante.

Temporada no Bar Brahma
Em 3 de junho de 2010, Wando iniciou uma temporada de nove shows, todos lotados, no Bar Brahma, na Avenida São João, em São Paulo. Na época, nossa reportagem acompanhou uma das apresentações. Duas horas antes do show, algumas fãs histéricas já gritavam “liiindo!”. Naquela noite, o cantor conversou com o JT e contou que seus shows eram “um carinho para as mulheres e um conselho para os homens”.

Wando conhecia bem o seu público. A certa altura, no palco, ele gritou: “Quem é solteiro levanta a mão. Agora as viúvas”. Depois de quase duas horas, Wando encerrava a apresentação ao som, é claro, de Fogo e Paixão. “Já levei mordidas na orelha e no pescoço. Já vi mulheres subirem no palco e tirarem a calcinha para mim. Essas coisas são normais”, disse. Ele se considerava um cantor “cult” e afirmou na época: “Quem não viu o show do Wando não passou pela vida. Não viveu”.

Nossa música agora fica mais frígida

Por Gilberto Amendola

É imperdoável Wando ter nos deixado sem uma versão adulta, safada e sexy de Ai, Se Eu Te Pego. Imagine se, ao invés do inofensivo Michel Teló, o hit fosse interpretado pelo cantor – com seu jeito ‘Ricardão’ de ser e aquela voz de motel barato: “delícia, delícia, assim você me mata…”

Com a morte de Wando, a música romântica brasileira fica ainda mais frígida e assexuada. Costumamos cantar musas idealizadas, amores perdidos e namorinhos de portão. Mas, na hora do ‘vamos ver’, nossos compositores mais consagrados são, na média, conservadores e incapazes de “amar no chão”.

Pior do que isso, muitas das nossas canções de amor são feitas em desagravo ao marido traído, ao sujeito que foi, com o perdão da palavra, ‘chifrado’ ou o ‘coitadinho’. Wando, não! Era o algoz, o malandro que rouba a mulher dos outros sem ser especialmente atraente ou rico, mas só na chamada ‘conversa mole’, no velho e bom ‘xaveco’.

Os exemplos deste anticlímax musical/sexual são abundantes: A Garota de Ipanema, que vem e que passa, sequer é abordada no calçadão; e tem a Anna Julia… que de tão inacessível faz o sujeito se achar um nada. Com as exceções de Roberto Carlos (e sua fase de músicas de motel, como Cavalgada e Côncavo e Convexo) e Erasmo Carlos (que recentemente dedicou um disco inteiro ao tema), a MPB mais chique ainda não ultrapassou o ‘papai-mamãe’ estético.

Wando, que começou a carreira cantando belos sambas, logo sacou que o sexo seria um filão promissor e pouco explorado. Além de Fogo e Paixão, cantou pérolas como a genial Amor Filho da Puta (Eu já tentei mudar/fazer com outro amor/mas juro que estranhei/gozar eu não gozei/meu mundo acabou).

Machista? Não. Machista era fazer de Amélia uma mulher sem vaidade ou sugerir que pra ser Minha Namorada a garota precisaria fazer juramentos ou pertencer ao namorado até morrer. Com Wando é diversão. Sexo sem encanação.

Pois é, a música romântica brasileira perde o seu ‘Ricardão’ oficial. Quem sabe, agora, outros compositores se animam e começam a procurar o ponto G ou o ponto W (de Wando) da música popular. Um minuto de gemidos e uma chuva de calcinhas em homenagem ao artista.

 

Cinco anos sem Mr. Sex Machine

Por: Felipe Branco Cruz

Há exatos cinco anos, no dia de Natal, morria o rei da soul music, James Brown (1933-2006), aos 73 anos. Em sua vida, o cantor teve vários apelidos surgidos na tentativa de rotular sua forma extravagante de dançar e fazer música. Não à toa, Brown foi chamado de Sex Machine, Mr. Dynamite, o Rei do Funk, The Original Disco Man e o Padrinho do Soul. E o intérprete de I Got You (I Feel Good), à sua maneira, fez jus a todas elas.

Outro rei, o do pop, Michael Jackson, contava que quando era criança, seu sonho era dançar como Brown. Para isso, ensaiava incessantemente em casa, junto dos irmãos do Jackson 5. Nascido na Carolina do Sul numa época de segregação racial nos Estados Unidos, Brown vendeu em toda sua vida mais de 100 milhões de discos e foi listado pela Rolling Stone como o sétimo maior artista de todos os tempos.

E se a carreira de Brown foi marcada por números grandiosos, foi também pontuada por vários escândalos. Alguns deles o levaram à prisão. Até sua morte gerou fatos insólitos. Como seus familiares discutiam questões ligadas à herança e não chegavam a um consenso sobre o local do enterro, seu corpo ficou mantido dentro de um caixão por quase três meses – mais especificamente até dia 10 de março de 2007, quando foi finalmente levado a uma cripta na casa de sua filha Deanna Brown Thomas.

O local, no entanto, não é definitivo. Os parentes pretendem removê-lo e transportá-lo, no futuro, a um mausoléu, que serviria como atração turística. Quando jovem, James Brown começou a ter problemas com a Justiça. Aos 16 anos, foi detido por roubo e ficou preso durante três anos. Já quarentão, o cantor foi preso novamente, após uma perseguição na estrada, em alta velocidade. Enquadrado por porte ilegal de arma, agressão policial e posse de drogas, Brown atravessava uma fase difícil na carreira, que culminou na saída dos músicos de sua banda. Foi condenado a seis anos de prisão e solto após cumprir três.

Nos anos 90, foi novamente acusado de agressão, contra Adrienne Rodriguez, sua terceira mulher. Em 2000, seu descontrole voltava a ser notícia: Brown foi acusado de atacar um empregado da companhia de energia elétrica estatal com uma faca.

Não conhecia esse cara, mas ele deveria ser gente boa pacas!

Lucio Mauro Morreu

Barriga da jornalista da Globo News que disse a Lucio Mauro Filho que o pai dele tinha morrido. Ainda bem que o ator foi simpático e contornou a situação com jogo de cintura.

Os 40 anos de morte de Jimi Hendrix

Jimi Hendrix, deus da guitarra

Jimi Hendrix, deus da guitarra

Por: Felipe Branco Cruz
Publicado originalmente no Jornal da Tarde

Jimi Hendrix está em transe. Ele está acompanhado de seus colegas Mitch Mitchell e Noel Redding, da banda The Jimi Hendrix Experience. A data é 18 de julho de 1967 e eles estão no palco do Monterey Pop Festival, realizado entre os dias 16 a 18 de julho, em Monterey, na Califórnia. Durante os três dias do festival, mais de 200 mil pessoas comparecem para ver os astros em ação. Todos se apresentam de graça. O evento é considerado o início do Verão do Amor, dos hippies. E Jimi Hendrix é um dos maiores destaques dessa festa musical. Exatamente, dois anos e dois meses – no dia 18 de setembro, de 1970 –, o homem rotulado como o rei da guitarra morreu, devido a causas até hoje desconhecidas. Morreu jovem, aos 27 anos, afogado em seu próprio vômito, na Inglaterra. Para marcar as quatro décadas da morte desse monstro do rock, já foram e ainda serão lançados coletâneas e regravações de trabalhos de Hendrix. Na última quarta-feira, a MTV exibiu um especial sobre o cantor e guitarrista, com declarações de músicos brasileiros. Em novembro será lançado também o box West Coast Seattle Boy – The Jimi Hendrix Anthology, com quatro CDs e um DVD com o documentário Jimi Hendrix: Voodoo Child. No total, serão 45 músicas ao vivo e em estúdio, com demos e versões inéditas (leia mais abaixo).

As lendas em torno da morte de Jimi Hendrix, envolvem possíveis conspirações da CIA para matar os principais agitadores da época, como Janis Joplin e Jim Morrison. Ambos também morreriam num espaço de menos de um ano – o que fez a força dessas teorias aumentar. Ideias conspiratórias que ainda não existiam em julho de 1967, no Festival de Monterey. Naquele dia, Jimi Hendrix entrou em transe ao executar a canção Wild Thing. É isso que se percebe no vídeo registrado pelas lentes do cineasta D. A. Pennebaker. A guitarra de Hendrix, uma Fender Stratocaster decorada com motivos psicodélicos, foi tocada com maestria. Hendrix era canhoto, mas usava um instrumento para destros, virada ao contrário. Nessa mesma apresentação, ele fez solos com a guitarra nas costas e chegou a simular um ato sexual com sua Fender. Em certo momento, Hendrix foi até o fundo do palco, onde estavam os amplificadores da marca Marshall, a preferida dele, para criar um efeito de distorção com a microfonia causada pela aproximação do instrumento com as caixas de som. Por fim, no ápice da apresentação, o músico jogou fluído de isqueiro na guitarra, riscou um fósforo e jogou sobre ela. Para finalizar a performance histórica, Hendrix pegou o instrumento e bateu com ele no chão do palco, até parti-lo em dois. O público foi à loucura. Em outra apresentação, no ano seguinte, no Miami Pop Festival, Hendrix repetiria a cena. Anos mais tarde, Frank Zappa reconstruiria a guitarra quebrada e tocaria com ela nos anos 70 e 80.

Histórias como essas fazem parte da incrível biografia de Hendrix, nascido em Seattle. Contemporâneo de gente como Eric Clapton, Jeff Back, Beatles, The Who e Rolling Stones, Hendrix ainda hoje é um dos mais influentes guitarristas do mundo. Sua maestria, no entanto, só seria sacramentada durante o antológico festival de Woodstock, em 1969, ao executar o hino nacional dos Estados Unidos em solos distorcidos de guitarra. Dentre as composições imortalizadas pelo guitarrista, estão canções como Little Wing, Purple Haze e The Wind Cries Mary. Para quem quer começar a entender o universo de Hendrix, é possível encontrar nas lojas os quatro álbuns lançados pelo músico. Com áudio remasterizado, os discos vêm com alguns mimos para os fãs do guitarrista. Além de CD, cada título traz também DVD, com making of.

Uma das mais completas coletâneas de Jimi Hendrix será lançanda em novembro
O semanário inglês New Music Express (NME) revelou que em 15 de novembro será lançada uma das mais completas coletâneas da obra de Jimi Hendrix. Batizada de ‘West Coast Seattle Boy – The Jimi Hendrix Anthology’, a obra será composta de quatro CDs (sendo um deles de covers). O box terá também um DVD com o documentário ‘Jimi Hendrix: Voodoo Child’, contendo diversas gravações ao vivo e músicas inéditas.

Além disso, no dia 27 deste mês, será lançada também uma versão alternativa, em formato de single, da canção ‘Love Or Confusion’, lançada originalmente no álbum de estreia de Hendrix: ‘Are You Experienced?’, de 1967. No total, no box, serão lançadas 45 músicas gravadas ao vivo e em estúdio. Além de versões demos e inéditas dos três álbuns feitos por Hendrix, lançados enquanto ele ainda estava vivo: ‘Are You Experienced’, ‘Axis: Bold As Love’ (1967) e ‘Electric Ladyland’ (1968).

O primeiro disco da coletânea, somente com covers, trará canções como ‘I Don’t Know What You Got But It’s Got Me’, do Little Richard, ‘Have You Ever Been Disappointed’, do The Isley Brothers, e ‘Instant Groove’, do King Curtis. O segundo trará canções como ‘Fire’, ‘Castles Made of Sand’ e ‘New Rising Sun’. Já o terceiro disco terá sucessos como ‘Foxey Lady’, ‘Purple Haze’ e ‘Shame, Shame, Shame’. Por fim, o último CD terá canções como ‘Burning Desire’, ‘Freedom’, e ‘Red House’.

 Assista ao vídeo:

Obituário: Desce a última página do ‘Jornal do Brasil’

Um ótimo texto de Joaquim Ferreira dos Santos publicado hoje, na página 10, do Segundo Caderno, do O Globo. O texto é escrito com requinte e abusa dos jargões jornalísticos que só quem vive dentro das redações consegue entender. O texto é tão cheio de detalhes que qualquer jornalista é capaz de se sentir dentro da redação do JB. Mudam-se os nomes, mas não muda a rotina e o clima. Redação de jornal é tudo igual.

Funéreo
Desce a última página do ‘Jornal do Brasil’

Por: Joaquim Ferreira dos Santos

Descansa em paz ‘JB’ que amanhã pela manhã, quando chegar às bancas a edição do dia 31 de gosto de 2010, esgota seu deadline neste vale de resmas de papel, e alguém vai gritar o definitivo ‘Parem as máquinas’ num cantinho malassombrado da Avenida Brasil 500.

Penteia o teu último nariz de cera, ‘JB’, pede ao Joaquim Campelo para copidescar uma pirâmide invertida que está na página três, diz ao Gabeira para pesquisar a capa que o Alberto Dines fez do AI-5 ‘ e desce a página para o túmulo dos grandes jornais.

Leva um abraço com bafo de uísque para o Zózimo Barroso do Amaral, sempre circulando entre as mesas, já sem o smoking da festa de ontem à noite, e pedindo pelo amor de Deus uma notinha. O foca dizia qualquer coisa que tinha acabado de ver na rua, para que o espírito caminhante de Zózimo sossegasse o facho e ele pudesse escrever a matéria. No dia seguinte, a notinha, um quase nada, uma bolha de sabão, estava impressa no jornal com um charme que enfeitiçaria dezenas de colunistas em gerações futuras, todos frustrados em tentar a mesma leveza e humor sofisticado, mas definitivamente sem conseguir o mesmo buquê do Zózimo.

Descansem em paz o velho atrasador de jornal, o calhau, o bandejão, o Brito’s, o plantão na porta do embaixador sequestrado, e também o ascensorista Vovô, o senhor negro encaixotado o dia inteiro em sua jaula de alumínio da Atlas e que quando passava pelo andar da redação anunciava ‘Parque de diversões’.

Seus antepassados tinham sido escravos, ele passara a infância capinando na roça, e não entendia que aquela gente de terno, jogando bolinha de papel amassado umas nas outras, pudesse estar trabalhando.

Acabou de rodar a última edição, ‘JB’, não se ouvem mais as Remington, mas a fumaça dos cigarros fumados por todos aqueles anos ainda toma o ambiente. Chegou a última notícia, e ela diz que é hora de tomar a saideira naquele sujinho na Leopoldina.

Descansa em paz pescoção das sextas-feiras, quando a turma do Esporte passava uma lista de contribuições pelas demais editorias e abria um garrafa de White Horse para que ficasse mais suave cavalgar noite adentro no dorso selvagem de títulos de três de 13. Descansem em paz Oldemário Touguinhó, Luarlindo Ernesto, nomes mais fabulosos da Históriado jornalismo brasileiro, superiores ao de Oderfla Almeida, o Alfredo ao  contrário, que também já se foi e nunca teve a felicidade de trabalhar no ‘JB’ da Condessa, da Cleusa Maria, da Susana Schild, da Norma Couri e de todas aquelas avançadíssimas moças do Caderno B, num tempo em que redação era coisa de macho.

Descansa em paz, Carlinhos de Oliveira, cronista atormentado de três textos semanais, muitos escritos na varanda do Antonio’s, muitos de olho em alguma cocota que passava e, como já era comum no Leblon, antes mesmo de Herbert Vianna anunciar no Paralamas, elas não olhavam para Carlinhos porque, embora gênio, o cronista usava óculos.

Descansa em paz o dia em que a condessa recebeu a figura augusta do general Costa e Silva. Depois de atravessar com o sujeito pela redação, a condessa disse que no dia seguinte seria publicada uma reportagem sobre a visita.

‘Tem elogio”, perguntou o general. A dona do jornal desconversou. Disse que era uma reportagem descritiva, como são as boas reportagens.

O general dispensou. ‘Se for assim, não precisa, eu gosto mesmo é de elogio.’ Descansem em paz todas as histórias folclóricas de redação, todos os estagiários que foram encarregados de pegar a calandra e entregar ao editorialista Wilson Figueiredo. Soltemse todos os balões que o Alberto Ferreira, o chefe da fotografia, autor da foto da bicicleta do Pelé, esticava no chão do laboratório. Chegou a hora triste de pautar um repórter para fazer a ronda dos cemitérios e descobrir que o morto de hoje é o próprio jornal. Escreva-se o funéreo com a elegância que formou várias gerações de grandes jornalistas e ajudou a fundar o espírito de uma cidade. Sem pieguismo, que os neoconcretistas não vão gostar. Pau na máquina. Fecha com a foto da freira caída na frente do ônibus, do Evandro Teixeira.

Descansem em paz Wilson Coutinho, a lauda de 30 linhas e 72 toques, e mais ainda Mara Caballero, a diagramação sem fios do Amilcar de Castro, os disfarces de mendigo do Tim Lopes, o elefantinho, o ele da primeira página, os classificados de troca de casais, os velhos homens de imprensa, as estagiárias da pesquisa, a reportagem geral com 53 repórteres e o especial do caderno B em que Lena Frias mostrou para toda a Zona Sul que do outro lado do túnel havia outra cidade cultural, o Black Rio.

Descansem em paz a matéria com cópia em papel-carbono, o salário ambiente, o suplemento literário, o diretor que assediou a secretária e provocou uma passeata na Rio Branco, e também o dia em que o editor jogou para o alto o juramento que fez sobre a Bíblia de Gutenberg. Ele não resistiu e colocou na primeira página de uma segunda-feira a foto daquela repórter da Geral que tinha o mais belo bumbum da redação e fora flagrada, de biquíni, em Ipanema, em toda a exibição orgulhosa de seu trunfo, pelo fotógrafo que fazia a inevitável matéria sobre o movimento das praias no domingo. Descansa em paz a lenda de que se ganhava pouco  mas era divertido.

É hora de descer a última página e, como nos artigos de Dom MarcosBarbosa, reunir todos os que se formaram naquela redação para dizer muito obrigado e amém.

P.S.: Não esquece de chamar na primeira.

Casal sobrevive a deslizamento

Matéria publicada hoje no Jornal da Tarde

Por: Felipe Cruz

A noite prometia. O comerciante Fábio Costa Madeira, de 34 anos, conheceu na madrugada de ontem uma mulher na balada e a convenceu a conhecer sua casa, onde mora há quatro anos, na Rua Santo Egídio, n. 1001 (fundos), no bairro de classe média Santa Teresinha, zona norte. Por volta das 7h da manhã, o casal começou a ouvir estalos e sentiu o chão ceder.

“Só deu tempo de vestir a calça. Perdi documentos, eletrodomésticos, enfim, tudo”, diz ele. O muro de contenção, recentemente construído em uma obra no terreno vizinho, no número 989, cedeu e “sugou” a casa. A mulher foi levada em estado de choque para a AMA do Sítio Mandaqui. Eles não se feriram. “Escapei de morrer por pouco”, lembra. Eles ficaram presos na estreita faixa de terra que sobrou e foram resgatados pelos bombeiros.

O imóvel onde ele morava era alugado e pertencia à vizinha, a microempresária Alice Correa, de 59 anos, que também teve a casa interditada. “Ainda não sei para onde vou. Estou sem casa e trabalho, já que a minha pizzaria também foi interditada”, conta Alice.

Segundo o subprefeito de Santana/Tucuruvi, Hélio Rubens Figueiredo, aparentemente a empreiteira tinha autorização para construir no local. “O alvará deles (nº 2005/34998) está registrado na prefeitura. Temos de confirmar se está OK”, explica. O deslizamento encobriu uma retroescavadeira e ocorreu poucas horas antes de os operários começarem a trabalhar. No terreno será erguido um prédio residencial. O engenheiro responsável pela construção, Francisco Pucci Silva, garantiu que tem autorização para a obra. Sem explicar os motivos do deslizamento, Silva limitou-se a dizer que o muro de contenção que desabou “faz parte do processo construtivo da obra”. Os responsáveis pelo empreendimento informaram que encaminharão as vítimas para um hotel.

Último post do ano

Que 2007 seja uma ano repleto de boas notícias. Estou saindo agora para o Rio de Janeiro. Apesar de toda a confusão e violência que se instaurou naquele lugar, mesmo com medo de tudo, ainda sim eu vou para lá. Não devemos deixar de viver e de aproveitar a vida por causa da violência. É isso que desejo para todos. Muita paz e saúde… e para mim, boa sorte, porque eu vou precisar… Afinal, Copacabana, aí vou eu!

Feliz Ano Novo!!

Menos um
Fiquei sabendo ontem de madrugada e hoje todos os noticiários confirmaram. Saddam foi executado por enforcamento. Apesar de todas as notícias ruins que tivemos este ano, pelo menos, duas foram muito boas: A morte de Pinochet e a morte de Saddam. Confiram as fotos.

Para minha mãe

A melhor mãe do mundo

Mãe, eu vou sentir a sua falta. Ah vou. Não consigo descrever a dor que sinto por você ter partido. Só quem perde a mãe sabe o que é que estou sentido. A cada dia que passa, apesar de ainda ter meu pai, eu me sinto mais sozinho nesse mundo. Quando tinha medo de dormir no escuro a noite, o único lugar que eu conseguia dormir tranquilamente era com você, no seu quarto. E agora, quando eu tiver medo para onde eu vou ?

Quem vai me amparar? Triste é imaginar que, pelo menos nesta vida, eu não vou mais te ver.

Nossa, você sofreu demais. Nunca vi tamanho sofrimento na vida. Lutou demais para viver. Lutou muito para que a vida fosse cada vez mais agradável e não esse sofrimento permanente.

Os gregos, quando criaram o teatro (a tragédia), acreditavam que a vida era, definitivamente de sofrimento, e que a felicidade era coisa passageira, ou seja, a vida é feita permanentemente de sofrimento, a felicidade, quando temos, é coisa passageira.

Não sei se você acreditava nisso, mas eu sei que você se esforçava ao máximo para transformar cada momento de dor em um momento feliz e sem sofrimento. Eu sei disso. Eu percebia que você estava sempre querendo ser feliz e viver.
Mãe, você lutou demais, brigou com todos que queriam te fazer mal e venceu. Só não venceu essa doença maldita que come a pessoa por dentro. Essa doença definitivamente é uma merda. ô cancer desgraçado.

Mas você venceu. Não podemos imaginar que você perdeu a luta para a doença porque você não perdeu. Os médicos me falaram: “Ela morre daqui a três meses, se tudo correr bem”, e você viveu quatro anos. Quando você estava quase no fim, os médicos disseram: “Ela não passa de hoje” e você resistiu mais um mês. No fim eles disseram: “Ela não quer morrer. Nunca vi alguém resistir vivo neste estado durante tanto tempo”. Viu mãe, você foi uma guerreira e venceu.

Mas tudo tem um fim, não é mesmo. Os últimos meses foram os piores para você. Você sofria demais, sentia dor demais, já não tinha mais prazer em viver. Esse sofrimento tinha que ter um fim, de qualquer jeito.

Hoje eu tenho certeza de que você não sente mais dores, não sofre mais. Hoje você está mais perto de Deus. Você finalmente conseguiu descansar, depois de sofrer tanto.

Eu, se estivesse no seu lugar não aguentaria muito tempo. Já teria desistido da vida. Mas você não. Você foi valente, aguentou um fardo pesado demais. Nunca tinha visto isso.

É por isso que eu te tenho como minha heroína, meu exemplo de vida e de luta. Você é uma vencedora e a morte não é o fim, e sim o começo.

Mãe eu te amo.

Meu Herói Morreu

Meu avô e eu, em meados de 1999

Hoje é o dia mais triste de toda a minha vida. Meu herói morreu.

Meu avô, a pessoa que eu mais amava em toda a minha vida, aquele me ensinou tudo que eu sou.

Hoje se eu sou uma pessoa íntegra, de boa índole, de bem, que gosta de cultura, de artes, se interessa em aprender coisas novas e principalmente que ama a vida e trata à todos com igualdade, eu devo à ele. Meu herói.

Vou sentir muita falta dele. Ele era a pessoa que eu mais respeitava neste mundo.

Meu pai sempre dizia que ele era a única pessoa neste mundo que eu não poderia NUNCA dizer não. Que o desejo do meu avô era uma ordem e que tudo que ele quisesse a gente deveria atender NA HORA!

E sabe porque? Não era porque ele era autoritário nem nada. Era porque ele merecia todo esse respeito e toda essa minha admiração. Não só minha, como de meus irmãos e de meus primos, do meu pai da minha tia e de todos as pessoas amigas dele.

Meu avô é para mim exemplo de tudo que é bom. Exemplo de pai, exemplo de marido, exemplo de família, exemplo de homem, exemplo de ser humano, exemplo de fé em Deus.

Sempre quando eu ia embora da casa dele ele me dizia para ir pela sombra e para Deus me conservar um santinho e me dar juízo.

Eu sempre vou me lembrar de tudo que ele me ensinou, das musiquinhas que ele cantava para mim e para os meus irmãos, enfim, de tudo que ele me transmitiu.

Meus irmãos sempre diziam que o mundo estava dividido em duas classes: daquelas que gostam do meu avô e daquelas que ainda não o conhecem. Todo mundo poderia morrer que eu não sentiria tanto quanto eu senti a morte de meu avô.
E além disso tudo, meu avô também era uma pessoa querida por todos, tanto que sua morte foi capa dos jornais daqui de Barra Mansa e notícia nos tele-noticiários regionais e deixou a faculdade onde eu estudo e da qual ele é reitor em luto por dois dias.

Eu queria escrever mais, meu avô merece um livro inteiro falando sobre ele. Só que eu não estou em condições de escrever.

Eu anexei alguns textos que saíram no jornal sobre meu avô.

VÔ, EU TE AMO !

OBITUÁRIO
HAROLDO CARVALHO CRUZ, 80, REITOR
08/06/2004

Reitor do Centro Universitário de Barra Mansa, Haroldo Carvalho Cruz, era advogado e fundador da Sociedade Barramansense de Ensino Superior e do Colégio Sabec. Foi professor do Ensino Médio, membro da Provedoria da Santa Casa de Misericórdia, fundador do Sindicato do Comércio Varejista de Barra Mansa, presidente da Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de Barra Mansa e membro do Conselho da Aciap.

Ele faleceu na tarde de ontem aos 80 anos, de falência de múltiplos órgãos após ser submetido a uma cirurgia na sexta-feira passada. O sepultamento está marcado para hoje, no Cemitério Municipal de Barra Mansa

Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: Rio Tamanho: 121 palavras
Edição: 1 Página: 19
Coluna: Seção:
Caderno: Primeiro Caderno

© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

Sepultado corpo de Haroldo de Carvalho
Morte de reitor do UBM, pioneiro no ensino universitário da região, comove cidade que lhe rende última homenagem

Numa cerimônia simples, diante de pelo menos 300 pessoas, foi sepultado no início da tarde de ontem, no Cemitério Municipal, o corpo do reitor do Centro Universitário de Barra Mansa e conselheiro presidente da Sobeu, Haroldo Carvalho Cruz, de 80 anos, que morreu segunda-feira, no Hospital Vita, em Volta Redonda, vítima de problemas circulatórios. O corpo foi velado a partir do fim da noite, no salão nobre da UBM, onde durante toda a madrugada e manhã passaram amigos e admiradores do reitor. Um cortejo de mais de 50 carros levou quase meia hora para cruzar o Centro da cidade até o cemitério.

Os sócios de Haroldo Carvalho Cruz na UBM, o irmão Guilherme Carvalho Cruz, Feres Nader e Leandro Monteiro Chaves, passaram a noite no velório. Numa das cenas mais comoventes do sepultamento, os dois filhos e os seis netos e Inês, a irmã do reitor, beijaram o visor da urna despedindo-se do corpo. A viúva dona Antonieta, devido ao seu estado de saúde, permaneceu num carro assistida por parentes nas proximidades do jazigo.

Os aplausos marcaram a descida da urna ao jazigo perpétuo 41.146, da família, onde estão sepultados os corpos dos pais do reitor, José Maria da Cruz, que morreu em 1969, e Florência de Carvalho Cruz, em 1982. Os filhos, netos e funcionários mais antigos da UBM se revezaram no traslado da urna. Entre as pessoas que aguardavam a chegada do corpo no cemitério estavam o prefeito Roosevelt Brasil e sua esposa, a coordenadora de Ação Social Tânia Fonseca, e a diretora de Redação do DIÁRIO DO VALE, Fátima Brandt, representando a empresa. ¿A perda do Haroldo é muito triste por tudo o que ele representava e pela pessoa generosíssima que era. Mas ele deixa permanente no tempo sua obra maior, que foi a difusão da Educação em nosso município, que é o caminho para um povo avançar¿, ressaltou Roosevelt.

Haroldo de Carvalho Cruz era nascido em Barra Mansa, formado em Direito e possuía cinco outros cursos ligados ao ensino. Mas em sua carreira profissional, além de ter sido um dos donos do Sistema Sul Fluminense de Comunicação, tinha passagem pelo ramo de transportes e foi o primeiro presidente da extinta Companhia Telefônica de Barra Mansa. Ele também presidiu a Associação Comercial durante um ano a partir de 1954 e foi o interventor no Sindicato do Comércio Varejista de Barra Mansa e Rio Claro.

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