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‘Febre do Rato’ vence em Paulínia
Por Felipe Branco Cruz
Febre do Rato, polêmico longa-metragem do diretor pernambucano Cláudio Assis, foi o grande vencedor do Festival de Cinema de Paulínia, recebendo oito prêmios Menina de Ouro, inclusive o de Melhor Filme. Selton Mello, diretor, ator e roteirista de O Palhaço, levou o prêmio de melhor Diretor de Ficção e melhor Roteiro (em parceria com Marcelo Vindicatto). O Palhaço também ganhou nas categorias de melhor Figurino e melhor Ator Coadjuvante (Moacyr Franco). Antes de os mestres de cerimônia Rubens Ewald Filho e Marina Person indicarem os premiados, foi exibido o longa Assalto ao Banco Central, do ator e diretor Marcos Paulo, que não concorreu e tem previsão de estreia para a próxima semana (leia matéria à direita).
“Não faço filme para ganhar prêmio. Faço filme para conquistar o público”, disse Cláudio Assis, num dos vários discursos que fez enquanto recebia seus prêmios. Com uma mensagem anarquista, o filme de Assis tem fortes cenas de sexo, nu frontal, exagero de palavrões e violência. Muitas dessas cenas poderiam ficar de fora do longa, sem alterar em nada a história. Mesmo assim, a qualidade técnica da obra é incontestável. Tanto que Febre do Rato ganhou também nas principais categorias técnicas, como Montagem, Fotografia e Direção de Arte. As atuações de Nanda Costa e Irandhyr Santos lhes renderam os prêmios de melhor Atriz e melhor Ator. Eles interpretam o casal Eneida e Zizo.
Voto popular
Um dos pontos mais emocionantes da entrega dos prêmios foi quando Moacyr Franco, 74 anos, ganhou na categoria melhor Ator Coadjuvante. Franco aparece em apenas uma cena, de dois minutos, no filme O Palhaço. Sua atuação, no entanto, é tão marcante que mereceu o prêmio. Selton Mello lembrou que, em toda a carreira de Moacyr Franco, esta é a primeira vez que ele fez um filme. “Ele é meu ídolo. Desde criança, eu e meu pai assistíamos a seus programas na TV”, disse Selton.
O público também elegeu seus melhores filmes por meio do voto popular. Onde Está a Felicidade?, de Carlos Alberto Riccelli, com Bruna Lombardi no elenco, levou o prêmio popular de melhor Filme. “O voto do público é o melhor que se pode ter”, disse Bruna Lombardi. “Cresci com o cinema. Sempre convivi com essa magia”, completou. O documentário À Margem do Xingu – Vozes Não Consideradas, que aborda o projeto da construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, comoveu o público e levou o prêmio popular de Melhor Documentário.
Durante o evento, os organizadores anunciaram as datas do próximo festival, que será realizado entre 21 e 28 de julho de 2012. Neste ano, o evento recebeu um público estimado de 27 mil pessoas. “É um número altíssimo, se considerarmos que Paulínia tem uma população de quase 80 mil habitantes”, disse o secretário de Cultura,Emerson Alves. “Este foi o festival em que mais tivemos a participação da população”, lembrou o prefeito José Pavan Junior.
(O repórter viajou a convite da organização do festival)
Confira o resultado completo:
FILMES DE LONGA METRAGEM
• Melhor Filme Ficção (R$ 250 mil) – “Febre do Rato”, Cláudio Assis
• Melhor Documentário (R$ 100 mil) – “Rock Brasília”, Vladimir Carvalho
• Melhor Diretor Ficção (R$ 35 mil) – Selton Mello, “O Palhaço”
• Melhor Diretor Documentário (R$ 35 mil) – Maíra Bühler e Matias Mariani, “Ela Sonhou Que eu Morri”
• Melhor Ator (R$ 30 mil) – Irandhyr Santos, “Febre do Rato”
• Melhor Atriz (R$ 30 mil) – Nanda Costa, “Febre do Rato”
• Melhor Ator Coadjuvante (R$ 15 mil) – Moarcir Franco, “O Palhaço”
• Melhor Atriz Coadjuvante (R$ 15 mil) – Maria Pujalte, “Onde está a felicidade?”
• Melhor Roteiro (R$ 15 mil) – Selton Mello e Marcelo Vindicatto, “O Palhaço”
• Melhor Fotografia (R$ 15 mil) – Walter Carvalho, “Febre do Rato”
• Melhor Montagem (R$ 15 mil) – Karen Harley, “Febre do Rato”
• Melhor Som (R$ 15 mil) – Gabriela Cunha, Daniel Turini e Fernando Henna, “Trabalhar Cansa”
• Melhor Direção de Arte (R$ 15 mil) – Renata Pinheiro, “Febre do Rato”
• Melhor Trilha Sonora (R$ 15 mil) – Jorde Du Peixe, “Febre do Rato”
• Melhor Figurino (R$ 15 mil) – Kika Lopes, “O Palhaço”
• Especial do Júri (R$ 35 mil) – “Trabalhar Cansa”, de Marco Dutra e Juliana Rojas
CURTAS REGIONAIS
• Melhor Filme (R$ 25 mil) – “Argentino”, Diego da Costa
• Melhor Direção (R$ 15 mil) – Diego da Costa, “Argentino”
• Melhor Roteiro (R$ 10 mil) – Caue Nunes e Maurício de Almeira, “3×4″
CURTAS NACIONAIS
• Melhor Filme (R$ 25 mil) – Carlos Nader, “Tela”
• Melhor Direção (R$ 15 mil) – Gabriela Amaral Almeida, “Uma Primavera”
• Melhor Roteiro (R$ 10 mil) – Gustavo Suzuki, “O Pai Daquele Menino”
JÚRI POPULAR
• Melhor Longa Ficção (R$ 25 mil) – Carlos Alberto Riccelli, “Onde Está a Felicidade?”
• Melhor Documentário (R$ 15 mil) – Damià Puig, “À Margem do Xingu – Vozes Não Consideradas”
• Melhor Curta Nacional (R$ 5 mil) – Thiago Luciano, “Café Turco”
• Melhor Curta Regional (R$ 5 mil) – Diego da Costa, “Argentino”
JÚRI DA CRÍTICA
• Melhor Longa Ficção – Claudio Assis, “Febre do Rato”
• Melhor Documentário – Lucia Murat, “Uma Longa Viagem”
• Melhor Curta Nacional – Carlos Nader, “Tela”
Um assalto a banco histórico
Por Felipe Branco Cruz
No início deste ano, o diretor e ator Marcos Paulo descobriu que estava com câncer no esôfago. Na última semana, ele ficou internado no Rio de Janeiro para tratar do câncer. Mesmo assim, o diretor fez questão de participar do lançamento de seu filme Assalto ao Banco Central, no Festival de Cinema de Paulínia. O longa foi exibido anteontem, durante o encerramento do evento, e tem previsão de estreia para a semana que vem. “Estrear em Paulínia é uma vitória pessoal para mim”, disse Marcos. “Lidar com essa doença durante o filme foi algo que me ajudou, porque eu não lembrava dela o dia inteiro. Ia para o hospital, fazia o tratamento de radio e quimioterapia e voltava ao trabalho”.
O longa é baseado num dos maiores assaltos a banco do mundo, em Fortaleza, em 2005, quando os bandidos levaram R$167 milhões do Banco Central. Lima Duarte subiu ao palco antes da exibição e fez graça com o público. “Vocês sabem quanto pesa R$167 milhões? São 3,5 toneladas. É o típico caso de roubar e não poder carregar”, disse o ator.
O enredo mostra como um grupo de bandidos alugou uma casa e criou uma empresa de fachada apenas para construir um túnel que levasse ao banco. Há, ainda, o núcleo policial, liderado pelos atores Lima Duarte e Giulia Gam. “Hoje, a maioria dos atores é da internet. Eu tenho outra formação. Acho que o policial que eu fiz combina com essa formação”, disse Lima. O filme, porém, não retrata o que realmente aconteceu. “Nunca tivemos a pretensão de contar a história real. Nunca iríamos saber exatamente o que ocorreu”, disse Marcos Paulo. “Minha área de atuação é a ficção”. Embora tenha cenas de ação, o longa também tem momentos de humor, muitos deles protagonizados por Lima Duarte. “Os bandidos só conseguiram fazer o que fizeram porque tudo é um grande deboche no Brasil”, disse o diretor. No longa, os criminosos são liderados por Barão, interpretado por Milhem Cortaz, que se associa a Mineiro (Eriberto Leão).
A trilha sonora conta com a participação de Gabriel O Pensador, e do guitarrista Chris Pitman, da nova formação do Guns N’ Roses, que escreveu as músicas com André Moraes.
Cláudio Assis choca com novo filme
Por Felipe Branco Cruz
O mais novo filme do diretor pernambucano Cláudio Assis, Febre do Rato, que encerrou anteontem a mostra competitiva do Paulínia Festival de Cinema, ajudou a alimentar ainda mais fama de polêmico que ele cultivou desde o longa Amarelo Manga (2003), no qual dava um close nas partes íntimas da personagem Lígia, de Leona Cavalli. Assis foi convidado a subir ao palco para apresentar o filme e, aos berros, disse ser um cineasta que não faz concessões e mandou os medíocres irem tomar naquele lugar. Depois agradeceu a todos que participaram do longa. Nas atrizes, atores e produtores que o acompanharam no palco, distribuiu selinhos na boca. Inclusive nos mestres de cerimônias Rubens Ewald Filho e Marina Person.
O filme, todo em preto e branco, é ambientado no Recife, às margens do Rio Capibaribe. Irandhir Santos (o Fraga, de Tropa de Elite 2) interpreta o poeta anarquista Zizo, dono de um jornalzinho chamado Febre do Rato. O nome remete a uma expressão popular do Nordeste usada para designar quem está fora de controle. O longa será distribuído pela Imovision, mas ainda não tem data de estreia no circuito comercial. “Pra mim, poesia foi e sempre será em preto e branco. É uma questão de atitude e unanimidade entre todos da equipe”, justificou o diretor.
Verborrágico, Zizo é um poeta nato que sempre tem versos na ponta da língua para declamar em qualquer situação. Cercado por pessoas que estão à margem da sociedade, circula pelas decadentes ruas do Recife Antigo, munido de um carro de som, gritando para quem quiser ouvir palavras de ordem contra tudo e contra todos. Os amigos de Zizo são interpretados por Matheus Nachtergaele, Juliano Cazaré e Vitor Araújo, entre outros.
Repleta de cenas de nudez, sexo e palavrões, a história mostra uma turma desprendida de amarras sociais e familiares. Zizo, por exemplo, é conhecido entre os amigos por só transar com mulheres velhas dentro de uma caixa d’água. Sua vida muda depois que ele conhece e se apaixona pela jovem Eneida (Nanda Costa). A estudante passará a frequentar o círculo de amizades de Zizo e, consequentemente, sua vida. “Acho que o filme foi uma forma de traduzir o Recife, com todo seu sentimento”, disse Assis.
A exibição no festival desencadeou uma espécie de catarse coletiva, potencializada pela ótima fotografia, em preto e branco, dos lugares mais pobres e feios da capital pernambucana. Mas que, nas lentes de Walter Carvalho, diretor de fotografia, ganharam uma dimensão épica e bela. Algumas canções da trilha sonora são assinadas por Jorge Du Peixe (integrante do Nação Zumbi), dando um clima de mangue beat.
Depois de uma cena forte em que três homens aparecem nus, se entrelaçando na cama com uma mulher, Cláudio Assis soltou um berro durante a projeção, dizendo: “Isso que é cinema, p…!”. E arrancou aplausos da plateia.
Tabu
Forte, intenso e chocante. Talvez essas três palavras resumam bem o que se viu anteontem no Theatro Municipal de Paulínia. “A nudez foi tratada com tanta naturalidade durante as filmagens que foi tranquilo fazer o longa”, disse a atriz Mariana Nunes. “A partir do momento em que eu vesti a roupa da personagem, não tive nenhum problema em tirar a roupa”, completou a outra atriz, Nanda Costa.
“É muito bobo e medíocre. Ficamos aqui discutindo a nudez. Quase fomos presos porque estávamos gravando nus. Todo mundo acha legal ver a nudez na televisão e no cinema não?”, questionou o diretor, referindo-se a um episódio que ocorreu durante as filmagens. “Pagamos para a prefeitura para que fechassem as ruas durante as filmagens e mesmo assim veio a polícia para nos prender”.
A Febre do Rato, sem sombra de dúvidas, foi o longa que mais chamou atenção, seja por seu apuro estético ou por sua vocação nata para chocar.
(O repórter viajou a convite da organização do festival)
Assista Cláudio Assis dando beijos na boca de toda a equipe e dos mestres de cerimônia Rubens Ewald Filho e Marina Person
Assista ao trailer do filme
Documentário com jeito de panfleto
Por Felipe Branco Cruz
Independentemente da opinião do público sobre a construção da hidrelétrica em Belo Monte, no Pará, cerca de 100 espectadores deixaram a sala de projeção durante a exibição do documentário À Margem do Xingu – Vozes Não Consideradas. O filme assume postura claramente contra a construção da hidrelétrica e o motivo de as pessoas abandonarem a sala não eram porque eram a favor da construção. O motivo era o filme mesmo, feito de forma quase amadora, com entrevistas redundantes e extremamente tendencioso. Um exemplo claro disso foi quando o diretor espanhol Damià Puig decide ouvir as vozes contra a construção da usina. Eram bêbados e desocupados que jogavam baralho num bar.
“Sei que vão ter críticos contra o filme. Mas o mais importante é que vocês puderam ouvir as nossas vozes não consideradas”, disse o diretor. “Tentamos procurar entrevistar pessoas a favor da usina. Mas ninguém queria falar com a gente. Nem a Funai, nem o governo. Ainda mais para nós, que produzimos esse filme sem recursos”, destacou o diretor. “A primeira coisa que fizemos foi ir ao Ibama, mas ninguém nos atendeu”.
De fato, há diversos problemas com a construção da hidrelétrica. Famílias e tribos indígenas terão de ser removidas, não há garantias de que o governo irá indenizar essas pessoas e, claro, há o impacto ambiental. O lago que se formará com o represamento do rio Xingu alagará uma área de floresta nativa nunca estudada pelo homem. Tudo isso é mostrado no filme, mas de uma forma tendenciosa. O longa seria mais convincente e, talvez, mais realista se fosse feito de outra forma. “É um filme datado, quase que perecível. É um tema urgente que tratamos”, diz o produtor Rafael Salazar.
Opiniões tendenciosas
O filme mostra o lado das “vozes não consideradas”. Esse é o ponto de partida, porque, segundo os produtores, as “vozes consideradas” já têm espaço garantido. Por isso, os produtores focaram as entrevistas apenas em índios e moradores ribeirinhos. “As ‘vozes consideradas’ dizem que, se Belo Monte não for construído, o Brasil irá parar. Não é verdade. Não podemos considerar que uma obra com tantos problemas técnicos seja feita”, declara o engenheiro da USP Francisco del Moral Hernandez, que também participou do documentário. “Os recursos hídricos da região amazônica são o pau-brasil da nossa época”, completa Hernandez.
A visão do diretor espanhol, apesar de ter sido auxiliado por uma equipe brasileira, contaminou o documentário, que soa como algo panfletário. Uma pena, pois tudo que diz respeito à construção de Belo Monte merece uma discussão séria e isenta. Num dos momentos do filme, há uma entrevista com a jovem índia Juma. Ela aparece chorando porque teve de ir para a escola e deixar sua tribo. Uma cena que em nada acrescenta à discussão da construção da hidrelétrica. “Há 30 anos lutamos contra a construção dessa usina. Tivemos grandes represálias e discriminações. Por várias vezes, pensamos que não iríamos terminar este filme”, diz a índia Juma. O assunto é importante. Mas o filme perdeu uma ótima oportunidade de tratá-lo com inteligência.
Da crítica social ao cinema fantástico
Por: Felipe Branco Cruz
Os primeiros minutos de projeção do longa Trabalhar Cansa, dos diretores estreantes Juliana Rojas e Marco Dutra, que foi exibido anteontem no Paulínia Festival de Cinema, davam a impressão de que o público iria assistir a mais um daqueles filmes chatíssimos que mostram como é a vida da classe média, com seus problemas comuns, tais como desemprego, estresse, depressão e pouco dinheiro no bolso. O filme, apesar de ter essa crítica social, é também um exercício de ficção, ao misturar na mesma história elementos do cinema fantástico e algumas pitadas de suspense.
A dupla de diretores já fez dois curtas: O Lençol Branco e Um Ramo. Trabalhar Cansa, primeiro longa deles, também foi exibido neste ano no Festival de Cannes, na França, dentro da mostra Un Certain Regard. “Identificamos os temas que iríamos trabalhar a partir de nossa experiência pessoal”, diz o diretor Marco Dutra. “Não podemos ter preconceito com os gêneros e tipos de filmes”, completa a diretora Juliana.
Helena, interpretada por Helena Albergaria, é casada com Otávio (Marat Descartes) e eles têm uma menina. Helena aluga uma loja e decide abrir ali um mercadinho. Enquanto isso, Otávio, que foi demitido do emprego onde trabalhava havia dez anos, busca recolocação num mercado cada vez mais ocupado por jovens. “Foi bom perceber como a plateia se identificava com cada personagem”, diz o ator Marat Descartes.
Enquanto Helena vai ficando cada vez mais estressada e rude com o marido, ele vai se deprimindo e se afastando da mulher. A filha do casal também fica distante dos pais, ao mesmo tempo em que cria proximidade maior com a empregada nova da família. No mercadinho, nada vai bem. Poucos clientes, funcionários que roubam os produtos e diversas infiltrações e vazamentos na loja alugada.
A reação do público, que aplaudiu bastante ao final da projeção, foi calorosa. Certas reações, como risadas em momentos que supostamente deveriam dramáticos ou de suspense, também foram notadas na plateia. “Às vezes percebíamos um riso até nervoso. Mas eles riam da nossa realidade. Ao mesmo tempo, de um drama muito comum”, explica Marat.
Dois universos
Sem explicar muito e dando margem à criatividade do espectador, coisas misteriosas se sucedem no mercadinho. Numa delas, de madrugada, quando Helena retorna ao local para buscar algo que havia esquecido, portas se abrem e fecham sozinhas, indicando que algo não está bem ali.
É a partir daí que tudo muda na vida de Helena. E esse é também o momento da reviravolta da história. A visita ao supermercado é o ponto de ruptura e, por isso mesmo, o longa deveria se decidir se continuava como uma crítica social ou se assumia abertamente como um cinema fantástico. “Nosso desafio foi criar uma trama em que os dois universos reverberassem num mesmo filme”, diz o diretor. “Foi a primeira vez que mostramos o longa no Brasil e a plateia percebeu muito mais os comentários irônicos do roteiro”, afirma Juliana.
Será que o que aconteceu ali foi apenas um delírio da cabeça estressada de Helena? Será que o mercadinho abriga algo demoníaco que se apoderou do corpo da mulher? Ou será que um ladrão se esconde dentro do estabelecimento? Essas questões irão acompanhar o espectador até o fim da projeção, intercalando suspense com brigas familiares. “Percebemos que o filme divide a plateia, que tem reações antagônicas”, completa |Dutra. “Não é um filme a que você assiste e descarta. Boa parte das pessoas ficará com essa história da cabeça”.
A vida de presos estrangeiros no Brasil
Por: Felipe Branco Cruz
Os 75 minutos de duração do documentário Ela Sonhou Que Eu Morri, exibido anteontem no Festival de Cinema de Paulínia, são preenchidos com entrevistas feitas com estrangeiros presos no Brasil, seja por contrabando ou por tráfico de drogas. A direção é de Maíra Bühler e Matias Mariani. “Começamos a pesquisar sobre o documentário a partir da comunidade nigeriana que tem em São Paulo. Descobrimos que existem duas penitenciárias na cidade para abrigar os ilegais”, diz a diretora, Maíra.
Os presos estão detidos na penitenciária feminina da capital, que fica numa parte do Carandiru que ainda não foi demolida. “Lá, as presas estrangeiras dividem espaço com as brasileiras”. A outra, Penitenciária Cabo PM Marcelo Pires da Silva, só abriga estrangeiros homens e fica no interior do estado, na cidade de Itaí. Ao todo são 1300 homens detidos. “Foi uma reivindicação dos presos, que não queriam se misturar com facções criminosas brasileiras”, diz Matias Mariani.
A ideia do documentário é mostrar a globalização de uma maneira invertida, apresentando histórias de vida de pessoas de países ricos e pobres, presas por crimes internacionais. Há desde personagens supostamente presos por ingenuidade – como uma mulher que diz achar que estava trazendo diamantes mas, na realidade, era cocaína – até pessoas que, num ato desesperado para conseguir dinheiro, aceitaram trazer drogas em suas bagagens.
São interessantes histórias de vida que tiveram um final trágico. Dentre elas, há a de um comerciante líbio que descobriu que sua mulher estava com câncer de mama, a de um soldado mercenário que lutou em guerras civis na África do Sul, a de um jovem eslovaco viciado em jogo, a de um jovem bibliotecário espanhol apaixonado por uma garota e a da mãe húngara que confundiu diamantes com cocaína, entre outras. Ao todo, são oito histórias de vida. Um dos pontos fracos é que os nomes dos personagens não são citados em nenhum momento. “Preferimos não expor os nomes deles”, diz a diretora.
Se as histórias que eles contam são interessantes, o documentário peca ao mostrar apenas a entrevista dessas pessoas, numa sala fechada da cadeia. Não há uma busca por seus familiares ou uma investigação para apurar se o que eles contam é verdade. “A gente queria narrar esse confinamento. Até porque os presos estrangeiros ficam mais tempo sem receber visita. Achamos que traria essa experiência prisional”, explica a diretora. Assim como não há a versão das autoridades brasileiras sobre o problema ou explicações sobre como eles foram presos. “O mais importante era entrevistar os presidiários”, completa. O documentário apresenta apenas as histórias e as lembranças de cada um desses presos. Sejam elas verdade ou não.
Um triângulo amoroso moderno
Por Felipe Branco Cruz
Os 3, título do filme do diretor Nando Olival, exibido anteontem no Paulínia Festival de Cinema, já sugere como será a história. Nela, Camila (Juliana Schalch), Cazé (Gabriel Godoy) e Rafael (Victor Mendes) são estudantes recém chegados a São Paulo e que se conhecem numa festa. Na mesma noite, decidem que irão dividir um apartamento. A cumplicidade entre eles faz com o trio ganhe, na faculdade, o apelido de “os três”, como se fossem uma só pessoa. Foram exibidos também na noite de anteontem os curtas O Argentino (Diego da Costa), Off Making (de Beto Schultz) e Qual Queijo Você Quer (de Cíntia Domit Bittar).om a competente direção de Nando Olival, que foi parceiro de Fernando Meirelles em Domésticas – O Filme (2001), o longa arrancou gargalhadas da plateia com suas boas sacadas. Nando Olival dirigiu, também, o clipe da música Eduardo e Mônica, do Legião Urbana, divulgado na internet no Dia dos Namorados, como parte de uma campanha publicitária de uma empresa de telefonia. “Eu queria fazer um filme sobre jovens, mas que tratasse sobre esse ritual de passagem entre a adolescência e a vida adulta”, diz o diretor. “É um filme atual, mas com uma história atemporal”, destaca.
Reality show
Em Paulínia, o diretor e os atores Gabriel Godoy e Juliana Schalch acompanharam a projeção. Victor Mendes não estava presente porque, segundo o diretor, está no exterior, fazendo um curso de palhaço. “Se ele ficasse aqui para ver o filme do Selton Mello (O Palhaço), teria aprendido mais”, disse o diretor, antes da sessão. Fernando Meirelles também assistiu ao filme, exibido no Theatro Municipal.
No longa, a amizade entre os três só sobreviveria se todos seguissem uma regra: nenhum dos dois rapazes poderia se apaixonar por Camila. Rafael não resiste e se apaixona. Mas é Cazé quem fica com ela. Mesmo assim, os três continuam juntos até o fim da faculdade quando cada um teria de seguir seu próprio rumo. Tudo muda, no entanto, quando uma empresa oferece para eles uma oportunidade de trabalho. A casa dos três seria equipada com diversos produtos e câmeras de vídeo pelos aposentos. E tudo o que eles fazem será transmitido ao vivo, pela internet. O objetivo é que os telespectadores comprem os produtos da loja a partir deste reality show. Para o trio, é uma chance de ficar mais tempo juntos.
“Para mim, o mais importante foi discutir essa questão do reality show. Sobre como os personagens vão lidar com essa exposição”, diz Juliana. Num primeiro momento, o reality é um desastre, já que os três ficam desconfortáveis com as câmeras. Depois, eles passam a inventar histórias entre eles, inclusive um triângulo amoroso onde rola beijos entre os dois garotos e a garota, com todos dormindo na mesma cama.
A partir daí, as vendas na loja virtual decolam. Mas muitos outros problemas reais também aparecem e esse trio terá de ter muita maturidade para lidar com eles, sem prejudicar as vendas. “As cenas de beijos entre o meu personagem e o do Victor Mendes foram tranquilas de fazer. O mais difícil é porque somos amigos na vida real e a gente ficava rindo o tempo todo”, lembra o ator Gabriel Godoy. Com uma sacada criativa e bom tempo para comédia, Os 3 diverte de forma despretensiosa. E sem preconceitos.
(O repórter viajou a convite da organização do festival)
A vida num lugar calmo e de rara beleza
Por Felipe Branco Cruz
Localizado a 330 km de Belo Horizonte, a bela região de Ibitipoca é o tema do documentário Ibitipoca, Droba Pra Lá, do diretor Felipe Scaldini. O longa mostra como vivem as pessoas que moram nas redondezas do Parque Estadual do Ibitipoca, que tem uma área de 1488 hectares, localizado no município de Lima Duarte e a 3 quilômetros do arraial de Conceição do Ibitipoca. O local também serviu como locação para algumas cenas do filme O Palhaço, de Selton Mello. Segundo Felipe Scaldini, um dos fatores que mais o tocou fi a hospitalidade do povo mineiro. “Poderíamos ter rodado todo o filme sem gastar com hospedagem. Chegávamos para entrevistar uma pessoa e ela já oferecia um cafezinho, um pão de queijo, perguntava se queríamos dormir por lá”, conta o diretor. “Ibitipoca está mudando rapidamente e precisávamos retratar esse momento. Amanhã, será tudo diferente”.
E foi explorando essa simpatia, misturada com o jeitinho mineiro de falar, que Scaldini arrancou gargalhadas da plateia com declarações do tipo: “De noite, a gente vê muitas estrelas cadentes. Dizem que onde ela cai tem um pote de ouro. A gente procura mas não acha nada. Por isso que tem muita mina de ouro por aí”, dito por um matuto da região.
Além disso, o diretor vai atrás dos vilarejos mais isolados das redondezas para mostrar como eles estão perdendo habitantes. A maioria dos jovens deixou o lugar para viver nos grandes centros. Outros problemas apontados são o desmatamento e o grande fluxo de turistas no parque. Alguns moradores defendem esse turismo, pois atrai dinheiro para uma região pouco assistida pelo poder público. Por outro lado, o turismo também leva baderneiros e muita sujeira ao parque. “Talvez, essa seja a última geração de pessoas que vivem em Ibitipoca. Daqui a pouco, essa geração, com esse estilo de vida, vai acabar”, diz o diretor.
Mas o foco principal do documentário não é a denúncia pura e simples. Trata-se de uma visão quase poética de um mineiro sobre um dos inúmeros paraísos naturais que o estado de Minas Gerais possui. No longa, o diretor entrevista pessoas que nasceram e cresceram ali ou que escolheram o local como sua segunda casa.
A visão do Brasil por meio de quatro estrangeiros
Por Felipe Branco Cruz
Além do longa Onde Está a Felicidade?, foram exibidos também os curtas-metragens Café Turco (de Thiago Luciano) e Trocam-se Bolinhos por Histórias de Vida (Denise Marchi). O destaque entre esses filmes, foi o documentário A Cidade Imã, de Ronaldo German. Nele, o diretor mostra como quatro imigrantes: Bruce Henri (nascido em Nova York e criado na Espanha), Idriss Boudrioua (França), David Chew (Inglaterra) e Masako Tanaka (Japão) que decidiram morar no Rio de Janeiro depois de se apaixonarem pela cidade e pela música brasileira.
Um dos pontos mais interessantes do documentário é a visão que o estrangeiro tem do Rio de Janeiro. Masako, de todos eles, é a que está a menos tempo no Brasil (menos de dez anos), enquanto os outros três já vivem no país há mais de 30 anos. O deslumbramento, no entanto, continua o mesmo. Seja com a beleza, com a música e com os cariocas.
Além da música, o documentário mostra o cotidiano dessas pessoas, a família que eles formaram no Brasil e o trabalho que eles desenvolvem por aqui. “É a música que me alegre e me conforta longe do meu país”, disse, bastante emocionada, a japonesa Masako. “No Japão nossos pais não nos abraçam. Muito diferente do Brasil, onde a gente dá beijinhos no rostos até de desconhecidos”, completou.
Idriss é saxofonista, David é músico clássico e toca violoncelo, Masako canta samba e bossa nova, além de tocar percussão (inclusive nos desfiles das escolas de samba na Sapucaí) e Bruce é multiinstrumentista e produtor cultural. O longa também conta as dificuldades que os personagens enfrentaram, tanto de língua até a adaptação aos costumes do Brasil. “Ninguém chega no horário. Agora estou sabendo lidar com isso”, disse Idriss.
A violência carioca também está presente. Três deles já foram assaltados na cidade. “Não fiz um filme promocional do Rio de Janeiro. E eu tive fundamental o dia-a-dia dos personagens. Como é a família deles, etc. Mas não poderia deixar de tratar o caos da cidade, inclusive a violência”, diz o diretor.
Trata-se de um longa singelo, que mostra como a cidade, mesmo com seus problemas, é capaz de encantar e atrair, como um verdadeiro imã, pessoas do mundo inteiro. “Não acho que este filme é sobre nós, imigrantes, e sim sobre como a cidade do Rio de Janeiro é linda”, disse Bruce.
Nata do cinema nacional se exibe em Paulínia
Por Felipe Branco Cruz
O fim de semana do Paulínia Festival de Cinema foi marcado pelos atrasos nas exibições e pela grande presença do público. Cerca de mil pessoas não conseguiram entrar no Theatro Municipal para assistir ao longa O Palhaço, de Selton Mello, exibido na noite de sexta-feira. Houve um princípio de confusão entre a organização e o público. Para contornar, a produção do festival realizou uma nova sessão após o término da primeira. Foram anunciadas também mudanças no esquema de distribuição de ingressos, que são grátis. Para evitar filas, agora o público deve retirá-los com antecedência. Anteontem, durante a exibição do longa Meu País, de André Ristum, o problema dos ingressos já tinha sido sanado. Deste título também houve exibição extra após a sessão principal.
O Palhaço e Meu País (leia as críticas abaixo) foram os destaques do fim de semana. Mas o festival também exibiu na sexta-feira os curtas O Cão, de Emiliano Cunha e Abel Roland, e Polaroid Circus, de Marcos Mello e Jacques Dequeker, e o documentário Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat. No sábado foi a vez dos curtas A Grande Viagem, de Caroline Fioratti, e Tela, de Carlos Nader, e também do documentário Rock Brasília – Era de Ouro, do diretor Vladimir Carvalho.
José Padilha, diretor dos filmes Tropa de Elite 1 e 2, também marcou presença no evento. Ele participou no sábado de um debate com os distribuidores Marco Aurélio Marcondes, Fábio Lima e Wilson Feitosa sobre novas formas de distribuir filmes no Brasil, utilizando como exemplo o caso do Tropa de Elite 2. Na mesa também estava Federico Goldenberg, responsável pelo site YouTube no Brasil. Junto com Padilha, ele demonstrou como o site tem ajudado a divulgar o cinema nacional. Durante o festival, o YouTube lançou um portal de Cinema, que pode ser conferido no endereço www.youtube.com.br/cinema.
Música
Caetano Veloso e Seu Jorge se apresentaram na noite de sexta-feira dentro do Paulínia Fest, festival de música que acontece paralelamente ao de cinema. O show de Caetano foi marcado pela simplicidade, já que ele se apresentou no esquema banquinho e violão. Caetano, autor de diversas trilhas para o cinema, aproveitou para tocar sua nova música Reis e Ratos, trilha para o filme homônimo de Mauro Lima. O cantor também convidou ao palco a cantora Thalma de Freitas e o violonista César Mendes. Depois, foi a vez de Seu Jorge assumir os vocais, e fez uma apresentação bem mais animada, tocando s principais clássicos.
No sábado, o Paulínia Fest foi encerrado com os shows de Gilberto Gil e Vanessa da Mata. Gil, que acabou de voltar do Nordeste, onde foi se apresentar nas tradicionais festas juninas, transformou o local num verdadeiro palco de forró, com direito a zabumba e acordeão. Vanessa da Mata fez show em seguida cantando músicas de seu novo álbum Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias. (O repórter viajou a convite da organização do festival)
Meu País é um filme singelo e delicado
Por Felipe Branco Cruz
O longa que fechou o sábado no Paulínia Festival de Cinema foi o singelo e delicado Meu País, do diretor André Ristum, que tem no elenco os atores Rodrigo Santoro, Cauã Reymond e Débora Falabella. Santoro interpreta Marcos, que vive na Itália e tem de voltar ao Brasil quando seu pai (interpretado pelo ator Paulo José) morre.
No País, ele reencontra o irmão Tiago, que não quer saber de cuidar dos negócios da família e gasta boa parte do dinheiro em jogos de cartas clandestinos. No velório do pai, Marcos é procurado por um misterioso médico que dá a notícia que eles têm uma irmã, que nasceu fora do casamento. A jovem, interpretada por Débora Falabella, está internada numa clínica de tratamento pois sofre de problemas mentais.
Para interpretar essa garota, Débora destacou que sua personagem deveria entrar na história de maneira delicada. “Ela é uma mulher com mentalidade de uma garota de 5 anos”, contou a atriz.
Com a chegada da nova irmã, os irmãos terão de superar as desavenças pessoais e terão de aprender a conviver com as diferenças e dificuldades que a doença dela traz. Para o diretor André Ristum, o longa trata, principalmente, do distanciamento que o pai tinha dos filhos e, com uma narrativa delicada, mostra uma emocionante busca pela aceitação e amor pelo outro. “O elemento principal e que junta os filhos é morte do pai”, analisa o diretor.
O personagem de Santoro se muda para a Itália, onde se casa.Em boa parte do longa, o ator fala em italiano. “Meu pai nasceu na Itália. Mas tive de aprender a falar o idioma. Foi um desafio”, destacou Santoro.
O Palhaço, filme de Selton Mello, vai de Fellini a Didi Mocó
Por Felipe Branco Cruz
Renato Aragão, o Didi dos Trapalhões, e os filmes do italiano Federico Fellini foram as inspirações para que Selton Mello dirigisse e atuasse em O Palhaço, exibido em Paulínia na sexta-feira. “É inevitável a referência de Fellini. Ele filmou, de forma definitiva, o teatro”, disse o ator. “Tenho uma ligação afetiva com Os Trapalhões. Didi é nosso Charles Chaplin”, definiu Selton.
O longa conta a história do pai Valdemar (Paulo José) e do filho Benjamin (Selton Mello) que formam a dupla de palhaços Puro Sangue e Pangaré. Benjamim não tem identidade ou comprovante de residência. Sua vida é administrar o decadente circo Esperança e percorre o interior de Minas Gerais com apresentações. O palhaço vive um dilema pois não se acha engraçado, e não tem certeza se quer ficar trabalhando no circo pelo resto da vida.
O filme é ambientado nos anos 80 – segundo Selton, a época da juventude da qual sente saudade. A trajetória do palhaço passa por Passos, sua cidade natal, que ele quis homenagear. “É um filme bonito, sobre redenção e volta ao lar”, pontua Selton. Na história, Benjamin é um palhaço deprimido. Segundo o ator, como a maioria dos palhaços. “Há uma anedota antiga sobre palhaços que diz: ‘Um homem deprimido vai se consultar. O médico recomenda que ele vá ao circo rir de um palhaço que tem lá. O paciente, então, responde que é esse palhaço’”.
O elenco tem atores como Moacyr Franco, Sérgio Loredo (o Zé Bonitinho) e Luiz Pereira Neto (o Ferrugem). “Moacyr me confidenciou que, aos 74 anos, foi a primeira vez que atuou no cinema”. Este é o segundo filme de Selton Mello – o primeiro foi Feliz Natal (2008). “Me senti mais livre para explorar referências. O primeiro filme você sempre quer fazer com sua cara, mas nem sempre fica do jeito que você quer.”
A história de uma guerra fratricida
Por Felipe Branco Cruz
O filme Corações Sujos, de Vicente Amorim, abriu na noite de anteontem o Paulínia Festival de Cinema de 2011. Os humoristas Leandro Hassum e Marcius Melhem foram os mestres-de-cerimônia. Numa espécie de stand-up comedy, os dois improvisaram piadas com os convidados e autoridades. O Theatro Municipal, com capacidade para 1,5 mil pessoas, estava lotado. Neste ano serão distribuídos R$ 800 mil em prêmios. O longa de Amorim, no entanto, por ter aberto o festival, não está concorrendo. Amorim também já dirigiu Um Homem Bom (2008), longa que tem como ator principal o americano Viggo Mortensen.
Corações Sujos conta a história de um grupo de imigrantes japoneses que após o término da Segunda Guerra Mundial foi morar em cidades como Oswaldo Cruz, Bastos e Presidente Prudente, interior de São Paulo. Apesar do fim do conflito, a lei que vigorava ainda segregava os japoneses, proibidos de se reunir, publicar jornais ou hastear a bandeira. Um grupo passou então a duvidar da rendição do Japão e da morte do imperador e criou o Shindô Remmei (Liga do Caminho dos Súditos), organização que matava japoneses que acreditavam na derrota do país na guerra. Estabeleceu-se um conflito fratricida que entre janeiro de 1946 e fevereiro de 1947 tirou a vida de 23 imigrantes.
A história, embora baseada em fatos reais narrados no livro de Fernando Morais, não é exatamente igual à obra literária. “Fizemos um recorte para mostrar apenas um pequeno núcleo de imigrantes em uma cidade, já que o livro mostra a organização como um todo no Brasil”, diz Amorim.
Mais do que contar esta verdadeira guerra no Brasil, o longa narra a história de amor entre o fotógrafo Takahashi e sua esposa Miyuki. A relação de ambos se deteriora a partir do momento em que ele decide se juntar ao grupo e se tornar um assassino. Com uma boa narrativa e cuidadosa fotografia, talvez o único ponto negativo do longa seja a trilha sonora excessivamente melodramática, assinada por Akihiko Matsumoto. Por vezes, a música fica mais em evidência do que as próprias cenas. “Não tenho vergonha de emocionar o público. Trata-se de uma história trágica que precisava dessa trilha”, justifica o diretor.
Boa parte da projeção é falada em japonês. “Não tivemos dificuldades em nos entender no set”, lembra o ator Tsuyoshi Ihara, que interpreta Takahashi. Para a pré-estreia vieram Tsuyoshi Ihara, Takako Tokiwa (Miyuki), além de outros atores japoneses. Muitos já atuaram em filmes de Hollywood. Tsuyoshi, por exemplo, trabalhou em Cartas de Iwo Jima (2006), de Clint Eastwood. Segundo os organizadores, foram inscritos 394 títulos, mas somente 27 foram selecionados para concorrer ao prêmio, sendo 12 longas e 15 curtas. Até a próxima quinta-feira (14) serão exibidos por dia um documentário, um curta regional, um curta nacional e um longa-metragem.
Rita Lee aquece a noite gelada
Depois da abertura, Rita Lee subiu ao palco anteontem para abrir o Paulínia Fest. Ontem foi a vez de Caetano Veloso e Seu Jorge. Hoje, Gilberto Gil e Vanessa da Mata encerram o festival de música. Sob medida para agradar ao público, a apresentação de Rita Lee teve clássicos como Saúde, Agora Só Falta Você, Ti-Ti-Ti, Desculpe o Auê, Banho de Espuma, Doce Vampiro, Ovelha Negra e Lança Perfume. “Vamos dançar e nos esquentar nesta noite fria”, convocou ela. A temperatura chegou à mínima de 7C.
O repórter viajou a convite da organização do festival.
Cinema nacional faz temporada em Paulínia
Por: Felipe Branco Cruz
Histórias como a de japoneses que imigraram para o Brasil e ainda acreditam na vitória do Japão durante a Segunda Guerra Mundial (Corações Sujos), o incrível assalto milionário a um banco em Fortaleza (Assalto ao Banco Central), ou ainda sobre um deprimido palhaço de circo (O Palhaço), são alguns dos temas dos filmes que serão exibidos entre hoje e 14 de julho no Festival de Cinema de Paulínia. A cidade fica a 114 km da capital paulista e nos últimos anos se tornou um dos principais polos cinematográficos do País.
De acordo com a Secretaria de Cultura da cidade, a expectativa é de que 50 mil pessoas visitem o município e assistam aos 29 longas, curtas e documentários exibidos. No ano passado, o público foi de 30 mil pessoas. Ao todo, serão oito longas-metragens, cinco dos quais produzidos em Paulínia. A entrada para todas as sessões é grátis, mas é preciso retirar os ingressos com antecedência.
Para o secretário de Cultura de Paulínia, Emerson Alves, a qualidade dos curtas merece destaque. “Selecionamos 15 curtas, três produzidos na região. Temos vários diretores estreantes e talentosos”, garante. Paralelamente ao evento será realizado também o Paulínia Fest, com shows de Rita Lee (hoje), Caetano Veloso e Seu Jorge (amanhã). Sábado é a vez de Gilberto Gil e Vanessa da Mata (leia mais ao lado).
Os destaques do festival, no entanto, são os longas-metragens. Hoje, às 20h, em sessão para convidados, será exibido Corações Sujos, do diretor Vicente Amorim. O filme é uma adaptação do livro homônimo de Fernando Morais. Outro destaque é O Palhaço, com Selton Mello no papel principal e na direção. O longa será exibido amanhã, às 21h. Atores como Rodrigo Santoro, Giulia Gam, Bruna Lombardi, Debora Fallabela e Cauã Raymond são presenças confirmadas. Todos os filmes serão exibidos no Teatro Municipal.
O festival premiará os melhores filmes e o júri, segundo o secretário de Cultura, foi pensado para ser o mais eclético possível: a atriz e diretora Denise Espíndola Weinberg, o diretor Sérgio Rezende, crítica de cinema Isabela Boscov, a fotógrafa Heloísa Passos e o documentarista Gustavo Rosa de Moura. “É um júri plural e eclético”, garante Emerson Alves.
O impacto do festival na economia local ainda é pequeno. “Precisamos aumentar nossa capacidade hoteleira. Mas o impacto para a cultura e divulgação da cidade como polo cinematográfico é imenso”, diz Alves. Ao todo, a cidade espera movimentar entre R$2 e R$ 3 milhões. Só de convidados e jornalistas serão mais de 700 pessoas. “Aguardamos um grande público vindo de São Paulo. Dá para vir assistir o filme e voltar no mesmo dia”, afirma o secretário.
Shows de Rita Lee e Caetano Veloso
Simultaneamente à realização do festival de cinema, a cidade receberá também o Paulínia Fest, festival de música que começa hoje com Rita Lee e Addictive TV, que se apresentarão num espaço ao lado do Teatro Municipal. Os shows começarão somente depois da exibição do último filme da noite, por volta das 23h. Amanhã Caetano Veloso e Seu Jorge farão os shows. E, no sábado, Gilberto Gil e Vanessa da Mata encerram as apresentações. Ao contrário do festival de cinema, a entrada para os shows será paga e custará entre R$240 a R$100.
O secretário de Cultura de Paulínia, Emerson Alves, destacou que a escolha das atrações privilegia o caráter cultural do evento. “Vão se apresentar os maiores nomes da MPB, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, associados com os novos artistas”, diz.
Esta é a terceira edição do festival de música e durante a madrugada também haverá a performance de DJs. Os ingressos podem ser comprados pelo site www.ingressorapido.com.br ou pelo tel.: 4003-1212. Mais informações no site www.pauliniafest.com.br.
DIVIRTA-SE:
Festival de Cinema de Paulínia.
De hoje até o dia 14 de julho, no Teatro Municipal. Av. Prefeito José Lozano Araújo, 1.515. Parque Brasil, 500. Grátis. Tel.: (19) 3933-2140.
PROGRAMAÇÃO COMPLETA:
Para ver a programação completa, clique aqui: http://www.culturapaulinia.com.br/todaprogramacao.php














