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No escuro e de olhos bem vendados
Por: Gilberto Amendola
Fonte: Jornal da Tarde
Antes que pudesse me acostumar com a escuridão da sala, vendaram meus olhos. Depois, amarraram minhas mãos e pediram para que eu seguisse em frente (com cuidado). A primeira coisa que me veio à cabeça foi o parágrafo inicial de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.
Mas vamos retroceder no tempo – mais especificamente ao exato momento em que um e-mail sobre a estreia de Kinema aportou na caixa de correio do JT. “Teatro sensorial! Ah, nãoooo!!!” Sim, porque “teatro sensorial” é um conceito que pode deixar qualquer um desconfiado, não é? Confesso, envergonhado, que tive medo de ser abandonado, sozinho, em um dark room, em companhia de um aprendiz da linguagem teatral de Zé Celso Martinez Correa.
E assim, munido de uma dúzia de receios (preconceitos?), fui para o espaço Del Gusta (óbvio, na Rua Augusta), uma espécie de lanchonete-balada que já deve ter tido seus dias de inferninho. É aqui que o espetáculo Kinema está sendo apresentado, sempre às quintas-feiras, a partir das 21h (o espectador pode chegar até às 23h).
Pois bem, aqui estou eu, olhos vendados, mãos amarradas e pensando no Coronel Aureliano Buendía. Juro que esperava um estampido qualquer, algo que confirmasse minha sensação de estar caminhando ao encontro de um pelotão de fuzilamento. Estava tenso. Em alerta. O que viria agora? Vão tirar a minha roupa? Socorro! Não grito, claro. Penso.
Alguém diz algo no meu ouvido. Um poema. Não reconheço o autor. Chuto Pablo Neruda, mas devo estar enganado. O medo ainda não me deixa prestar muita atenção no que está sendo dito. Deixo-me guiar. Tento relaxar os ombros. Duas notas mentais: primeiro, não vou ser fuzilado; segundo, não é o Zé Celso que está me guiando.
Resolvo entrar no jogo. A interação do ator-guia é tranquila (não invasiva). Embora completamente cego, me sinto seguro. O click da máquina fotográfica me desconcentra um pouco (“vão publicar isso no jornal, meu Deus!”). Continuo ouvindo textos sobre nascimento, caos e movimento. Dante? Shakespeare? Mão ao redor do meu pescoço. Medo outra vez.
O ator me entrega a outra pessoa. Agora, sou guiado por uma atriz. Toco nas mãos dela. É macia. Fico sem saber se devo ou não apertar sua mão (agora quem tem medo de ser invasivo sou eu). Ela me faz passar por uma espécie de labirinto. Nele, sinto que estou trespassando tecidos (ora mais suaves, ora mais ásperos).
Paro em um ponto qualquer. Agora, me fazem sentar numa cadeira de rodas (naquele momento eu não tinha ideia que era uma cadeira de rodas). Me levam pra passear. Correm com a cadeira. Vento no rosto. Gotas de água. Preso a uma cadeira de rodas, me sinto livre.
Outra atriz me pega pela mão. Ela me tira pra dançar. Rosto colado mesmo. A sensação é boa. Há quanto tempo eu não dançava assim? Mais texto ao pé do ouvido. Acho que agora é Fernando Pessoa. Deve ser.
Sou abraçado. Ninado. É a volta ao ninho, ao útero materno ou a outro clichê qualquer. Um momento quase terapêutico. Acho que a atriz me devolve para o primeiro ator. Ele me guia até a saída. Só tiram minha venda quando já estou do lado de fora. Sou recepcionado com um drink colorido – com vodca. Embora tenha perdido a noção do tempo, acho que a experiência durou uns 25 ou 30 minutos. Sobrevivi.


